Voltar

Di Cavalcanti

18.3.2016 - 28.5.2016

“Eu sou meu personagem”, dizia Di Cavalcanti sobre si mesmo. Nada poderia defini-lo melhor. Autodidata, ilustrador, desenhista, caricaturista e pintor, entre todos os pintores do Modernismo, Di foi o único artista que se manteve ativo do início ao fim do período modernista (até sua morte, em 1976) e aquele que melhor retratou as nuances e o lirismo da cultura e do povo brasileiro. Mais de duas décadas desta rica produção, compreendendo os anos de 1925 a 1949, estarão na exposição Di Cavalcanti - Conquistador de Lirismos, com curadoria de Denise Mattar e consultoria de Elisabeth Di Cavalcanti. A mostra, que acontece de 17 de março a 28 de Maio, reunirá cerca de 50 obras do artista – entre óleos, aquarelas, guaches – e insere-se dentro da ação de caráter institucional da Galeria Almeida e Dale, que já apresentou anteriormente as exposições de Fernando Botero, Aldo Bonadei, Alfredo Volpi, Alberto da Veiga Guignard, Willys de Castro, Candido Portinari e Ismael Nery.


Dando mais um passo no seu projeto institucional, a Galeria AD lançará em 8 de Abril, durante a SP-Arte, Di Cavalcanti - Conquistador de Lirismos (o livro) trará mais de 200 obras do artista, em publicação da Editora Capivara. Também com curadoria de Denise Mattar e consultoria de Elisabeth Di Cavalcanti, a edição reveste-se de especial importância, pois, embora sendo um dos mais conhecidos e importantes artistas brasileiros, Di Cavalcanti tem poucas publicações sobre seu trabalho. A maior parte delas realizada há muitos anos e esgotadas.


1925 e 1949

A fecha curatorial que compreende os anos de 1925 a 1949 marca um período de amadurecimento, transformação e virada na obra do artista.

1925 é o ano do regresso de Di de sua primeira viagem à Europa, após um período de dois anos, onde viveu em Paris como jornalista. Na capital francesa, frequentou a Academia Ranson, visitou museus e exposições e se encantou com os expressionistas alemães. Conheceu Picasso, Léger, Matisse, Eric Satie, Jean Cocteau e outros intelectuais franceses. Viajou à Itália para ver Tiziano, Michelangelo e Da Vinci. Este contato com a vanguarda europeia e com os grandes mestres do passado foi fundamental para o artista, que voltou ao Brasil renovado e consciente do que queria para sua obra. “Paris pôs uma marca na minha inteligência. Foi como criar em mim uma nova natureza e o meu amor à Europa transformou meu amor à vida em amor a tudo que é civilizado. E como civilizado comecei a conhecer a minha terra. (...)”, afirmou.


Em 1949, em viagem ao México, Di teve contato com os pintores e muralistas mexicanos Diego Rivera (1886-1957) e José Orozco (1883-1949). A experiência com o muralismo mexicano abriu um novo caminho para o artista, que, a partir de 1950, passou a realizar painéis e murais para a nova arquitetura de linhas simples e arrojadas que encarnava o sonho da modernidade brasileira.

Ao longo dos 24 anos que compreendem os dois regressos, Di Cavalcanti elenca os principais temas de sua obra: as pessoas comuns, os sub-urbanos, retratados na favela, nos botecos, nas docas, nos bordéis, nas festas populares, e as mulheres - mulatas, negras, brancas, ricas e pobres, morenas e loiras, retratadas num clima lírico e sensual, dolente e langoroso. E os opostos que colocava em convivência – o lirismo e a sensualidade, o real e o fantástico, o cotidiano e o extraordinário, a razão e a emoção –, compondo um universo artístico que classificava como realismo mágico.


Vida

Di Cavalcanti nasceu Emiliano de Albuquerque e Mello, em 6 de setembro de 1897, no Rio de Janeiro, então capital da República. Filho de Rosália e Frederico Augusto de Albuquerque Mello, ambos descendentes dos Cavalcanti do estado da Paraíba, desde cedo adotou seu nome artístico, sonoro e eficiente, quase uma logomarca, originário do apelido Didi.

Passou a infância no bairro de São Cristóvão. Embora tivesse uma vida de poucos recursos financeiros, o parentesco com o abolicionista José do Patrocínio (casado com sua tia Maria Henriqueta) o levou a conviver desde criança com a música e a literatura.


A morte de seu pai, em 1914, foi provavelmente o fator determinante para que ele não tenha cursado a Escola Nacional de Belas Artes (que certamente detestaria). Aos 17 anos, Di viu-se obrigado a trabalhar, e essa necessidade de se manter o acompanhou por toda a vida, sendo um fator que o distinguiu dos outros modernistas e o deixou sempre mais perto da vida real.

Di começou sua carreira e formou-se como artista por meio da imprensa, trabalhando como caricaturista e ilustrador. Em 1916 participou do I Salão dos Humoristas, no Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro. No ano seguinte foi para São Paulo, onde frequentou a Faculdade de Direito, por três anos.

Com pouco dinheiro, mas boas referências, e muito talento, o artista conseguiu rapidamente se inserir no círculo dos intelectuais vinculados aos jornais em São Paulo e no Rio. Segundo Anita Malfatti, Di ajudou a convencê-la a realizar a famosa exposição de 1917, que abalaria São Paulo e seria considerada a gênese da Semana de Arte Moderna de 1922, da qual o artista carioca também é um dos personagens centrais.

Di Cavalcanti atribuía a si próprio a ideia da realização da Semana de Arte Moderna de 1922 e, principalmente, a conquista da participação de Graça Aranha para a causa modernista. Hoje é corrente rejeitar a afirmação, atribuindo a ideia do evento a Marinete Prado, mas ninguém contesta a importância de Di Cavalcanti para a realização do evento. Era atuante, articulado, integrante ativo do grupo dos modernistas de São Paulo.

O artista produziu o catálogo e o programa da Semana, organizou a participação de Villa-Lobos e convidou vários artistas, entre eles Ferrignac e Martins Ribeiro. Na lista de obras da exposição constam 12 de seus trabalhos, entre os quais Café Turco, Retrato, O Homem do Mar e A Piedade da Inerte.

Decidido pelas artes plásticas em 1918, Di contou com o aprendizado de pintura no ateliê de George Fischer Elpons, que proporcionou a ele um aprendizado de pintura sem a rigidez das “belas-artes”, mas lhe trouxe informações sobre os movimentos europeus que Di não encontraria entre a maioria dos artistas brasileiros.


Outro nome importante na formação do artista foi o jornalista e cronista Paulo Barreto, conhecido como João do Rio. Cronista famoso, tradutor de Oscar Wilde, autor de A alma encantadora das ruas, João do Rio apresentou Di ao submundo carioca, que sobrevivia acuado pela reforma urbana empreendida pelo prefeito Pereira Passos.

Di Cavalcanti teve seu trabalho interrompido na década de 1930 por perseguições políticas. Em São Paulo, foi preso como getulista. No Rio, como comunista. Na série de 12 caricaturas intitulada Realidade Brasileira, Di satirizou os comportamentos sociais e políticos do país.


Em 1936, Di conseguiu fugir para Paris, onde permaneceu por quatro anos, trabalhando para a Radio Diffusion Française. Neste período, e durante toda a década de 1940, o lirismo e uma sensualidade langorosa tomam conta das telas do artista. “Di foi o primeiro a trazer para a pintura a gente dos morros, a gente dos subúrbios, onde nasceu o samba. Sendo o mais brasileiro dos artistas, foi o primeiro a sentir que entre o interior, a roça, o sertão e a avenida, o "centro civilizado", havia uma zona de mediação - o subúrbio. No subúrbio vive o verdadeiro autóctone da grande cidade. Já não é caipira, mas ainda não é cosmopolita. O que lá se passa é autêntico, de origem e de sensibilidade”, escreveu o crítico de arte Mário Pedrosa no Jornal do Brasil em 6 de setembro de 1957.


No trabalho mural, que se inicia a partir de seu retorno do México, em 1949, o artista faz experiências com formas ondulantes, padrões listados e estampados, numa profusão de informações visuais e predomínio de estilizações. Uma estética vibrante, colorida e múltipla é a marca de sua obra neste período, no qual encontramos também alguns acentos surrealistas. Entre as obras mais conhecidas estão as tapeçarias do Palácio da Alvorada, o grande painel do Congresso, o painel do Descobrimento, hoje no Museu Nacional de Belas Artes, e os quatro trabalhos realizados para a Caixa Econômica Federal, para ilustrar os bilhetes da Loteria. Em 1964 conheceu sua última mulher, Ivete Bahia da Rocha.


A década de 1950 é o período em que o artista começa uma das fases mais conhecidos de sua obra – que, por vezes, acaba até mesmo por reduzi-la: as mulatas.


A sensualidade, a indisciplina e a boemia de Di Cavalcanti, “um antídoto contra o mau humor”, segundo Vinicius de Morais, fizeram com que ele fosse sempre visto com reservas por uma parcela da crítica de arte, a mesma que leva em conta sua obra somente até os anos 1950.


Porém, mais do que qualquer outro artista, Di Cavalcanti conseguiu exprimir em suas telas o lirismo do povo brasileiro e a nossa sensibilidade sentimental e sensual. As suas mulheres lânguidas, os trabalhadores suados, a musicalidade que emana das gafieiras; tudo transborda poesia. De suas paisagens desprende-se o perfume de flores baldias, rendas de ferro se entrelaçam e brilha uma transparência azul, que mistura céu e mar. Este amor esta reiterado de forma poética e envolvente nos livros Viagem de minha vida e Reminiscências líricas de um perfeito carioca.


Pintor-poeta, amigo de muitos amigos, amante de muitas mulheres, personagem de si mesmo, Di foi um eterno apaixonado pelo Brasil.



Di Cavalcanti, Ruas de Paris, 1924 óleo s teDi Cavalcanti, Retrato de Noemia, 1936 óleo
Di Cavalcanti, Ruas de Paris, 1924 óleo s te

Di Cavalcanti, Ruas de Paris, 1924 óleo s tela 45cm x 56cm