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Ernesto De Fiori

9.8.2016 - 30.9.2016

Se a harmonia, na música, é a soma de múltiplas tensões das notas musicais que compõem um todo uniforme e estético, na obra de Ernesto de Fiori (Roma, 1884 – São Paulo, 1945) são as tensões dos pincéis e das mãos, na composição da pintura e da escultura, que criam a harmonia, em uma obra marcada pela figura humana – sobretudo o feminino –, a vida mundana e as paisagens urbanas e naturais, com destaque para os barcos de velejo, esporte no qual o artista era campeão – inclusive no período em que viveu no Brasil, entre 1936 e 1945. Parte da obra desse artista admirado por seus pares e colecionadores, no Brasil e no mundo, mas ainda pouco conhecido do grande público, estará reunida na mostra Tensão e Harmonia, com curadoria de Denise Mattar, que a galeria Almeida e Dale abre no dia 9 de agosto (terça-feira), a partir das 19h.


A exposição reúne 22 esculturas, 25 óleos, 9 guaches e 12 desenhos. As esculturas cobrem o período de 1929 a 1945 apresentando obras realizadas ainda na Alemanha como Adam, Jungling e Barbara, de 1929; obras realizadas no Brasil como Homem Brasileiro, Maternidade e Mulher Reclinada, 1938, criados para o MES (Ministério da Educação e Saúde), e ainda bustos como o de Greta Garbo, de 1937, e de seu sobrinho Christian Heins (que viria a ser um dos primeiros pilotos brasileiros a concorrer internacionalmente) e seu Autorretrato, 1945. Entre os óleos e guaches, majoritariamente produzidos no Brasil, há três conjuntos de trabalhos: as Paisagens, nas quais retrata suas impressões da ainda acanhada cidade de São Paulo, e das regatas na represa de Santo Amaro, onde velejava. São Jorge e o dragão que são alegorias da luta entre o bem e o mal, fazendo referência à Guerra na Europa, e Galas nas quais retrata indivíduos isolados ou grupos, geralmente participando de acontecimentos em sociedade. Sua pintura nervosa e vibrátil, registra movimentos e tensões subjacentes a essas cenas, aparentemente mundanas, com um resultado de surpreendente contemporaneidade. Na mostra há ainda um conjunto de desenhos que explicita o seu processo de criação e alguns trabalhos caricaturando Hitler e o nazismo.


O artista

Nascido em Roma, mas descendente de uma família no Norte da Itália, num período marcado por forte crise política na região, em virtude do processo de unificação que criou o Estado italiano moderno, De Fiori inicia seus estudos de artes plásticas aos 19 anos, com Gabriel von Hackl (1843 - 1926) na Königliche Akademie der Bildenden Künste [Real Academia de Belas Artes], em Munique. Em 1905, retorna a Roma e recebe orientação do pintor e litógrafo alemão Otto Greiner (1869 - 1916). Entre 1911 e 1914, vive em Paris, onde realiza as primeiras esculturas, com auxílio do artista suíço Hermann Haller (1880 - 1950).


Em Paris, frequenta o chamado “círculo alemão” de Matisse junto a artistas, colecionadores e historiadores como: Marie Laurencin, Hans Purrmann, Rudolf Levy, Oskar e Margarete Moll. Conhece o pintor alemão Hugo Troendle e o escultor italiano Arturo Martini.

Com a eclosão da Primeira Guerra (1914-1918), o artista alista-se no Exército alemão e atua como correspondente para um jornal italiano. O horror da Guerra o repugna e o artista, antes do final do conflito, deixa a função e muda-se para Zurique, onde volta a dedicar-se à arte.


Polemista e combativo, entre 1918 e 1919, o artista discute na imprensa com o grupo dadaísta – do qual faziam parte artistas como Tristan Tzara e Hugo Ball – acerca do conceito do movimento, que propunha um rompimento com tudo que, até então, fora feito. Para De Fiori era impossível uma arte nova sem referência com o passado.


Ao longo das décadas de 1920 e 1930, o artista se estabelece no mercado europeu, com suas esculturas, desenhos e pinturas. Adquire prestigio artístico e intelectual.

A consolidação do nazismo em 1933 é um golpe na vida e na trajetória de De Fiori. Sem condições de habitar uma Alemanha dominada por um dos mais violentos e soturnos estados totalitários que o mundo conheceu, De Fiori muda-se para o Brasil em 1936 – onde já residiam sua mãe e seu irmão – e instala-se em São Paulo. A capital paulista vivia um período de interregno entre os “loucos” anos 1920 e a retomada artística que ocorreria no final dos anos 1940 com a criação dos museus de arte moderna. De Fiori tenta se integrar à cidade e passa a colaborar para os jornais das colônias alemã e italiana, para O Estado de S. Paulo e a modelar figuras, então, proeminentes na sociedade paulistana, como o poeta Menotti del Picchia (1892 - 1988) e o conde Francisco Matarazzo.


A produção de De Fiori no Brasil compreendeu dois tempos distintos: o primeiro, no qual predominou a escultura, entre 1936 e 1939 e o segundo, de 1940 a 1945, em que ele reduziu essa atividade concentrando- se na pintura.

Apesar de nunca ter-se integrado de fato ao Brasil, onde viveu um período internamente conflituoso, o artista vivenciou transformações em sua obra ao longo dos nove anos em que esteve aqui. Em seus anos brasileiros, que ele pretendia que fossem passageiros e não seus anos finais de vida, observa-se a ascensão da pintura em sua obra e o uso de técnicas variadas, como pinceladas rápidas ou diluídas em solvente, uso de instrumentos dentados, e o retrato livre dos limites da esquematização, com maior fidelidade à forma humana, adquirindo certo vínculo expressionista que se soma à forte carga psicológica, observada também em suas esculturas.

A presença do artista em São Paulo ajuda também a abrir novos horizontes no ambiente artístico da cidade, marcando a produção de artistas ligados à Família Artística Paulista - FAP, como Mario Zanini (1907 - 1971) e Joaquim Figueira (1904 - 1943), e também o trabalho de Alfredo Volpi (1896 - 1988), principalmente em algumas de suas marinhas.


A sua contribuição estende-se ainda aos esportes: velejador, De Fiori não apenas conquista uma série de medalhas e honrarias para o Yatch Club de São Paulo, localizado no bairro de Santo Amaro, como também ajuda a promover e elevar o iatismo a uma nova categoria, mais profissional.


Admirado por Mário de Andrade, o artista é apresentado em 1938 ao ministro da Educação e Saúde, Gustavo Capanema, que o convida a criar uma série de esculturas para o edifício do Ministério da Educação e Saúde (MES) que, ao final, não são aceitas. O artista, que viera ao Brasil para fugir da repressão nazista, tinha de encarar um novo regime repressor: o Estado Novo de Getúlio Vargas, que o impede de realizar uma resistência aberta ao nazifascismo.


De Fiori só consegue opor-se abertamente ao regime de Hitler em 1942, quando o Brasil entra na Guerra, ao lado dos Aliados. Pinta a tela que posteriormente ficou conhecida como Saudação a Hitler, na qual expressa a aversão à Alemanha Hitlerista e publica artigos n’O Estado de S. Paulo em oposição ao nazifascismo.

Em 1945, modela seu último autorretrato. Morre em 24 de abril de 1945 sem ver a queda do nazifascismo, a morte de Hitler e, sobretudo, sem poder voltar à Alemanha, país onde se naturalizou e nunca quis deixar.

Ernesto De Fiori, Paisagem, óleo sobre tela Ernesto De Fiori, Figura de Mulher, 1943, oleErnesto De Fiori, Vista de São Paulo, Guache
Ernesto De Fiori, Figura de Mulher, 1943, ole