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Ismael Nery - Em busca da essência

28.10.2015 - 12.12.2015

Vísceras que podem revelar a alma, a cruz que não exclui o gozo, o corpo que procura a alma. A comunhão entre os paradoxos marca a obra de Ismael Nery (1900-1934), um dos artistas mais singulares da produção moderna brasileira, que terá sua obra revista na exposição ISMAEL NERY – EM BUSCA DA ESSÊNCIA, a partir de 28 de outubro, na galeria Almeida e Dale. Com curadoria de Denise Mattar, a mostra reúne 61 obras, entre pinturas, desenhos e aquarelas, além de uma seleção de poemas do artista. A exposição permance em cartaz até 12 de dezembro e é uma rara oportunidade de ver a obra de Ismael Nery, concentrada majoritariamente em coleções particulares. A mostra reúne obras de São Paulo, Fortaleza, Salvador e Rio de Janeiro e apresenta algumas obras até então INÉDITAS.


EM BUSCA DA ESSÊNCIA é a primeira individual do artista em 15 anos, desde a mostra ganhadora dos prêmios da Associação Paulista de Críticos de Arte - APCA e da Associação Brasileira dos Críticos de Arte - ABCA: Ismael Nery 100 Anos - A Poética de um Mito, realizada no centenário de sua morte, no Centro Cultural do Banco do Brasil do Rio de Janeiro e no Museu de Arte Brasileira da FAAP, também com curadoria de Denise Mattar.


Obra

Nery nadou contra a corrente dos acadêmicos e dos modernistas: sua obra não buscou nem o social, nem o belo; não pregou uma ruptura drástica com o passado. Místico e católico quando a intelectualidade defendia o ateísmo, construiu um vocabulário plástico universal no mesmo momento em que seus pares mergulhavam de cabeça no nacionalismo.


Nery foi um enigma. Encarou a arte como o meio catalisador através do qual podia expressar suas ideias. A arte nunca foi considerada por ele um ofício, mas o território por meio do qual buscou pesar e conjugar seus paradoxos. Temente a Deus e hedonista, Nery foi um homem que contagiou a muitos que o conheceram com sua beleza, elegância, inteligência e carisma, mas que viveu, desenhou e pintou com sofrimento, oriundo das marcas deixadas pelas mortes do pai e do irmão e a loucura da mãe.


O tema único da obra de Nery é o ser humano. Um ser humano do qual foram retiradas, deliberadamente, todas as referências de tempo e de espaço. Um ser humano que se move na busca do eu e de sua fusão com o outro; que tenta se compreender olhando no reflexo do espelho, e que se assusta ao ver um rosto desconhecido. Nos seus retratos e autorretratos, Nery mostra o Eu divino e o Eu satânico, o Eu masculino e feminino, se funde com seu amigo, o poeta Murilo Mendes, e sua mulher, a poeta Adalgisa Nery, uma das grandes inspirações de sua obra, assim como sua trágica família.


A fusão é outro tema constante da sua obra. Corpos que se entrelaçam, entrecruzam, entredevoram, renascendo numa outra forma, sempre na esfera mítica.


O diagnóstico de tuberculose em 1930 foi o grande divisor da obra de Nery. O corpo que o torturava tornou-se o centro de sua investigação. A partir da descoberta da doença, seu mundo de sedução fora substituído pela presença da morte. Ao expor suas vísceras, Nery tentou fazer, de modo ainda mais radical, a reconexão com aquilo que está por trás (ou ao lado? Ou dentro? Não se sabe) da massa de órgãos, sangue e fluidos: tenta tangenciar a alma. Fragmentar o corpo doente pode ter sido também uma maneira de buscar religá-lo ao sublime.


É o período no qual mais escreve e realiza seus desenhos mais acres e narrativos: A história de Ismael Nery e a série Miserabilia.

Na obra pictórica de Ismael Nery, estimada em cerca de apenas cem óleos, o desenho ocupa um lugar fundamental. A liberdade da técnica adapta-se admiravelmente bem ao pensamento rápido do artista. Notadamente nos seus últimos trabalhos, o artista atinge uma mordacidade e uma sutileza, que o coloca como precursor dos artistas contemporâneos.


Vida

Nascido em 1900, em Belém do Pará, Nery mudou-se com a família para o Rio de Janeiro aos nove anos de idade. A chegada à antiga capital da República brasileira foi marcada por um acontecimento que determinou a vida de Nery: a morte de seu pai, o médico Ismael Nery (1876-1909), aos 33 anos, a idade de Cristo, o que tornou a perda ainda mais trágica para a católica família.

Aos 17 anos, Nery entrou para a Escola Nacional de Belas Artes (ENBA). Como estudante, era conhecido por sua excepcional habilidade no desenho, como por não se adaptar às regras do ensino.


Em 1918, por causa da Gripe Espanhola a ENBA interrompeu suas atividades. A epidemia vitimou João, o irmão caçula de Ismael.


A morte do filho levou a mãe de Ismael, Marieta Macieira Nery, às bordas da loucura. Dilacerada pelas duas perdas, passou a viver vestida de negro, usando o hábito da Ordem Terceira de São Francisco e utilizando o nome de Irmã Verônica. Sobre a mãe, Nery diria adiante: “Ela me construiu e me destruiu.”


Tempo depois da morte do irmão, Ismael viajou para Paris, onde frequentou a Academia Julian. Na Europa, o artista entrou em contato com o modernismo e a tradição artística do Velho Mundo.

Voltou para o Rio no final de 1921. Passou a trabalhar como desenhista da seção de Arquitetura do Patrimônio Nacional, onde conheceu o poeta Murilo Mendes (1901-1975), iniciando uma amizade que duraria até sua morte e marcaria a obra e a vida de ambos. Após a morte do artista, Murilo tornou-se o principal preservador e divulgador de seu legado.


Em 1922, Ismael casou-se com Adalgisa (1905-1980), com quem formaria um dos casais paradigmáticos do Modernismo brasileiro. A beleza incomum da futura poeta, que tinha então dezesseis anos, tornou-se um de seus temas favoritos.


Em 1927, Ismael Nery retornou à Europa, acompanhado de Adalgisa e do filho Ivan. Conheceu Chagall, um de seus grandes interlocutores, ao qual dedicou uma série de aquarelas conhecidas como conhecida como Chagallianas.


O artista foi um dos destaques do Salão de 1931 no Rio de Janeiro, que marcou a segunda fase do modernismo brasileiro. Neste ano, Nery descobriu que sofria de tuberculose.

A doença fez com que sua produção pictórica diminua até sua morte, em 6 abril de 1934, aos 33 anos, como o pai, conforme preconizou em 1909, encerrando uma história familiar trágica e uma das produções mais singulares do modernismo brasileiro.


Legado

A sua obra ocupa uma posição singular na história da arte brasileira.

Nas palavras do poeta Murilo Mendes, seu grande amigo, Nery foi sempre “ismaelíssimo”, que, em 1948, publicou n’O Estado de S. Paulo a série de artigos Recordações de Ismael Nery.


Viúva do artista, a poeta Adalgisa Nery publicou, em 1959, a autobiografia A Imaginária, na qual a trágica relação familiar de Nery é um dos temas em destaque.


A sua primeira retrospectiva foi realizada somente 32 anos após sua morte, em 1966. O impacto no mercado de arte, porém, foi imediato. Nos anos 1970, as telas do artista já alcançavam um preço excepcional.


Em 1973, Antônio Bento publicou o livro Ismael Nery, fazendo no seu texto O pintor maldito uma análise crítica da obra do artista. Em 1984, Aracy Amaral apresentou no Museu de Arte Contemporânea da USP, do qual era diretora, uma grande exposição e ao mesmo tempo, publicou Ismael Nery – 50 anos depois.


Em 2004, Denise Mattar publicou o livro Ismael Nery. Com 324 páginas o livro faz um extenso levantamento da obra do artista.

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