Voltar

Vicente do Rego Monteiro- Nem Tabu, nem Totem

3.6.2017 - 29.7.2017

O pintor e poeta pernambucano Vicente do Rego Monteiro foi um artista singular, cuja instável personalidade marcou sua produção e também a relação com seus pares e com intelectuais da primeira metade do século XX. Colheu como fruto desse perene desassossego ser lembrado e esquecido, estar presente e ausente. A exposição "Vicente do Rego Monteiro - Nem Tabu, nem Totem", que a Galeria Almeida e Dale recebe a partir de 3 de junho, apresenta ao público paulistano um recorte com os principais momentos dessa figura instigante, muitas vezes preterida, apesar de ter sido um dos precursores dos ideais da Semana de 22.


A exposição, que tem curadoria de Denise Mattar, reúne 38 obras do artista, mesclando trabalhos de diferentes períodos agrupados por analogia de linguagem, pondo em relevo a excepcionalidade do artista. O recorte foca em sua produção plástica das décadas de 1920 a 1940, apresentando trabalhos da série "Lendas Amazônicas", um conjunto de obras art déco, a breve influência surrealista, as naturezas mortas perspectivadas, além do seu interesse pela arte sacra.


Participante da Semana de 22, Rego Monteiro, estava muito à frente dos modernistas brasileiros. Já no início dos anos 1920, sua temática era povoada pelas lendas indígenas e pelo sagrado. A exposição que chega à galeria paulistana traz dessa época as aquarelas A rede do amor culpado (Bailado na Lua), Composição indígena e Sem título, que em 1921 integraram uma mostra realizada no Teatro Trianon - na época muito bem recebida pela crítica.


"Vicente do Rego Monteiro queria ser escultor, mas foi como pintor que impregnou sua obra de intensa expressão tátil. Produziu um surpreendente indianismo de vanguarda, mas nunca foi um 'antropófago'. Criou um caminho inteiramente original na pintura, miscigenando o art déco e a cerâmica marajoara, mas nele enveredou para uma religiosidade cristã", destaca Denise Mattar.

A curadora explica que o verso que dá nome à mostra é parte de um soneto, Meu Poema, de autoria do próprio Rego Monteiro. "O título da mostra exprime com precisão a desconcertante personalidade do artista, que, durante toda a sua vida, alternou longos períodos entre o Sena e o Capibaribe, entre as artes plásticas e a poesia, entre a criação e a edição", afirma.


Ainda em meados da década de 1920, morando em Paris, Rego Monteiro desenvolve uma técnica, inteiramente pessoal, reportada às estilizações formais do art déco, num clima mítico, místico e metafísico, passando a integrar o importante grupo L’Effort Moderne. A produção desse período é considerada a melhor fase do pintor. Seus trabalhos da época ganharam destaque pelo caráter escultórico de sua pintura. Os óleos sobre tela Fuga para o Egito e Atirador de arco são algumas das obras primas desse momento.


Na segunda metade da década, Rego Monteiro casa-se com a francesa Marcelle Louis Villard, que herda os bens de seu primeiro marido. Deslumbrado diante de uma nova situação econômica, o artista passa a viver uma vida frenética. Nesta época, alguns de seus trabalhos ganham certa influência surrealista, tais como Arlequim e o Bandolim e Moderna degolação de São João Batista.

Em 1928, Rego Monteiro é convidado por Oswald de Andrade a integrar o movimento Antropófago. O artista não apenas recusa o convite, como também se sente insultado, por se considerar um pioneiro da antropofagia – questão que suscita opiniões diversas pela crítica até hoje. Para o crítico literário Jorge Schwartz, por exemplo, o fato de Rego Monteiro ter sido pioneiro na introdução do indianismo de vanguarda não o torna um antropófago, nos moldes formulados pelo poeta paulista no final da década.


“O movimento oswaldiano não pode ser dissociado de uma proposta revolucionária e utópica. O indianismo de Rego Monteiro não ultrapassa os limites estéticos e até decorativos que imprime a sua extraordinária obra”, afirma o autor em Fervor das Vanguardas.

Após a quebra da bolsa de Nova York, em outubro de 1929, a vida artística parisiense é afetada e Rego Monteiro inicia uma década de pouca produção pictórica. Em 1933, retorna ao Brasil e, pouco tempo depois, passa a dirigir a revista monarquista e nacionalista Fronteiras, onde escreve artigos e realiza uma série de ilustrações e fotografias. A postura conservadora da publicação contribui para o isolamento do artista. Exemplo disso foi a proposta de queima em praça pública de Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre, seu amigo na juventude.


Em 1942, Rego Monteiro retoma, em pintura, alguns temas nordestinos que desenhara na década anterior. A tela O vendedor de esteiras data deste período. Na mesma época, o artista passou a retratar uma série de naturezas-mortas, da qual figuram Natureza morta e Tulipas. Ainda nesse período, ele pinta algumas obras com princípios figurativistas dos anos 20, a exemplo de Mulher com violoncelo.


De volta a Paris, o artista funda, em 1947, a La Presse à Brass, editora particular que se transformou em símbolo de sua dedicação à poesia e à cultura francesa. Durante esse período de 10 anos Rego Monteiro publica 13 livros de sua autoria, mas sua produção plástica é pequena. Em 1960, recebeu um dos mais importantes prêmios literários da França, o Prix Guillaume Apollinaire.


Rego Monteiro volta ao Brasil em meados de 1950 e a partir daí dedica-se intensamente à pintura. Na década de 1960, retoma os temas regionalistas e as naturezas-mortas desenvolvidos em 1940.


Em 1970, Rego Monteiro figura na 8ª edição da exposição Resumo JB, evento prestigiadíssimo na época, que elegia os mais destacados artistas do ano. Preparando sua ida ao Rio, para a abertura da mostra, ele sofre um enfarte, falecendo a 5 de junho, no Recife.


“Confirmando a incoerência que permeou toda a vida de Vicente do Rego Monteiro, foi exatamente quando sua obra entrou em declínio que ele recebeu o reconhecimento que tanto buscou. Rego Monteiro foi uma personalidade fascinante e incoerente - nem tabu, nem totem”, afirma Denise Mattar.


A exposição reúne ainda seis obras de Fedora e Joaquim do Rego Monteiro, irmãos de Vicente, sempre referidos nas biografias do artista, mas raramente apresentadas em exposições fora do Recife. Fedora foi a primeira mulher brasileira a participar do Salon des Indépendants, em Paris. A artista teve uma produção constante, sempre observada pela crítica francesa, até seu retorno ao Recife e o casamento com o político e jornalista Aníbal Fernandes. Dedicada à família a partir daí, a artista só voltou à sua obra 13 anos depois, pintando, então, com assiduidade, até o seu falecimento em 1975.


Já Joaquim do Rego Monteiro desenvolveu um interessante trabalho de raiz cubista, pleno de simultaneidades informais. As obras apresentadas na exposição são do início de sua carreira e retratam o interior e o exterior do atelier que ele e Vicente partilharam na Rue Gros, em Paris, no ano de 1923. O artista faleceu prematuramente, em 1935.


A exposição "Vicente do Rego Monteiro – Nem Tabu, nem Totem" insere-se dentro de uma ação institucional da Galeria Almeida e Dale que busca resgatar grandes talentos da arte brasileira, como nas mostras já apresentadas de José Antônio da Silva, Eliseu Visconti, Raimundo Cela, Ernesto de Fiori, Di Cavalcanti, Ismael Nery, Willys de Castro, Alberto da Veiga Guignard, Alfredo Volpi e Aldo Bonadei.

Vicente R Monteiro Natureza Morta, 1928 ColecVicente R Monteiro O aguardenteiro, dec 1940.Vicente R Monteiro Arlequim e Bandolim, 1928.Vicente R Monteiro A Mulher diante do Espelho
Vicente R Monteiro A Mulher diante do Espelho