Victor Arruda: a tragédia e o escárnio é a nova exposição do pintor radicado no Rio de Janeiro a inaugurar na Almeida & Dale, Fradique 1360. Com curadoria de Giancarlo Hannud, a mostra apresenta um percurso que abrange quatro décadas na produção de Victor Arruda, marcada por uma observação afiada sobre a psicologia humana, a realidade social e o sistema artístico.
Recusando uma organização cronológica ou linear. O que se torna visível no conjunto, que abrange um período entre 1983 e 2026, é o modo como Arruda representa com crueza e estilo próprio a distribuição desigual de poder — e suas consequências violentas — nos estratos mais particulares aos mais abrangentes. Por meio da repetição de temas e figuras como olhos, bocas, corpos, armas, geometrias e paisagens que aparecem e reaparecem transformadas, o artista cria um retrato da tragédia social.
Como observa Hannud: “O trabalho de Victor Arruda se organiza nessa tensão entre tragédia e escárnio. A tragédia, aqui, é a consciência de uma condição inescapável: as estruturas de violência e desigualdade nas quais se desenrola a existência, mas também o desejo que não se controla, o corpo que envelhece, o tempo que passa, a morte que virá. Não há síntese possível. O escárnio nasce justamente da impossibilidade de escapar dessa condição trágica. Ele é a recusa em conceder a tudo isso a dignidade da solenidade. Nada está tão protegido pela sua importância que não possa ser profanado.”
Não se trata, portanto, de uma obra de denúncia, na qual o artista aparece como observador onisciente. Arruda aparece implicado, suscetível e afetado pelas diferentes violências e hipocrisias que tecem o cotidiano à medida que as mescla com cenas do “drama humano”, intercalando momentos de alta vibração e expansão com pontos de reflexão subjetiva e existência — às quais, vale dizer, ele também responde com o mesmo escárnio.
Victor Arruda: a tragédia e o escárnio fica em cartaz até 24 de outubro.