Ecos e miragens tem curadoria de Carlos Quijon, Jr. e Yudi Rafael e aborda a obra de arte como um aparato capaz de ativar, poética e criticamente, o reconhecimento para investigar a relação entre práticas e histórias artísticas através dos oceanos Atlântico e Pacífico e das questões ecológicas em um mundo interconectado.
A mostra é a terceira do programa Perspectivas Transoceânicas, concebido e coordenado pelo curador Yudi Rafael e realizado pela Almeida & Dale desde 2023. Em Ecos e miragens são apresentadas obras de artistas que produziram no Brasil e em diferentes países do Sudeste Asiático para investigar afinidades que se manifestam como reverberações — não necessariamente formais ou temáticas — entre a produção artística contemporânea dessas regiões.
Ao tomar a obra de arte como um aparato, os curadores exploram como o movimento, a refração e a duplicação da matéria podem gerar semelhanças na diferença e oferecer uma compreensão ampliada sobre a noção de ecologia. “Por meio das mediações do aparato, ecologias são transfiguradas em idiomas e formas, como traduções reconhecíveis e interpretáveis em diferentes contextos — ecos e miragens que possibilitam uma sensibilidade conectiva”, escrevem os curadores.
Transitando por linguagens e técnicas que vão da cerâmica tradicional ao vídeo e passando por instalações e objetos que integram mecanismos eletrônicos, a exposição apresenta um conjunto inédito no país. Um exemplo são as obras da série Amphibian Palm (2024), de Lesley-Anne Cao. Formadas por tanques de vidro com geradores de ondas que fazem com que “livros” sejam folheados, os trabalhos da artista filipina investigam as intersecções entre linguagem e natureza.
Os legados do colonialismo — mais um ponto de contato entre o Brasil e certos países asiáticos — e suas interferências na relação dos povos autóctones com a natureza, o território e suas histórias também atravessam a noção de ecologia abordada na exposição. Em 2 Or 3 Tigers (2015), Ho Tzu Nyen explora o papel central e ambíguo do Tigre-Malaio em mitologias do território que hoje corresponde a Singapura. A partir de uma gravura de 1885 que retrata o primeiro encontro entre um homem branco e o grande felino, o artista revela as transformações de narrativas tradicionais frente à colonização britânica e, igualmente, propõe novas construções de mundo a partir da recuperação e recriação delas.
Outro destaque é um projeto de Alice Shintani concebido especialmente para a mostra. Uma extensão dos projetos Tuiuiú, de 2017, e Prayer Birds, realizado na AS/COA, em Nova York, em 2024, a obra de Shintani ocupa toda a fachada da galeria com a pintura de um pássaro estilizado, remetendo tanto aos fluxos migratórios quanto à sintetização que marcou a arquitetura modernista brasileira e, em especial, os azulejos de Athos Bulcão.
Por sua vez, Marina Woisky também apresenta um trabalho inédito na mostra. Em Cavalos se abraçando (2025), a artista explora grandes dimensões na escultura que transita no limiar entre bidimensionalidade e tridimensionalidade e tensiona a tradição artística da representação e os caminhos entre o plano digital e o mundo natural.
De lugares fictícios compostos de justaposições fotográficas, passando por ressonâncias topológicas do encontro entre autoridades coloniais e animais selvagens, até uma entidade tecnológica que performa um canto fúnebre de plantação, a exposição articula diferentes formas de interface entre arte e ecologia.
Ecos e miragens fica em cartaz na Almeida & Dale Caconde 152 a partir de 8 de novembro e conta com obras de Alice Shintani (1971, São Paulo, Brasil), Bagus Pandega (1985, Jakarta, Indonésia), Emilia Estrada (1989, Córdoba, Argentina), Ho Tzu Nyen (1976, Singapura), Jaider Esbell (1979, Normandia – 2021, São Sebastião, Brasil) e Bernaldina José Pedro (1945, Guiana – 2020, Boa Vista, Brasil), Lang Jingshan (1892, Huaian, China – 1995, Taipei, Taiwan), Lesley-Anne Cao (1992, Quezon City, Filipinas), Maria Thereza Alves (1961, São Paulo, Brasil), Marina Woisky (1996, São Paulo, Brasil), Nguyễn Trinh Thi (1973, Hanói, Vietnã), Pratchaya Phinthong (1974, Ubon Ratchathani, Tailândia) e Priyageetha Dia (1992, Singapura).