A exposição apresentada pela Almeida & Dale na ArtRio 2024 destaca a diversidade de abordagens e expressões presentes na produção de artistas mulheres no Brasil, abrangendo um período entre a década de 1920 e os anos 2000. Com obras de Adriana Varejão, Anna Maria Maiolino, Beatriz Milhazes, Louise Bourgeois, Eleonore Koch, Ione Saldanha, Lygia Clark, Lygia Pape, Maria Leontina, Mira Schendel e Tarsila do Amaral, o projeto oferece um panorama da evolução de temas e técnicas que se entrelaçam com momentos chave da história da arte. Longe de se restringir a uma perspectiva temática, a curadoria ressalta a multiplicidade de linguagens e estratégias utilizadas pelas artistas, revelando diálogos com as tendências estéticas e contextos sociais de suas respectivas épocas.
As principais transformações da arte brasileira em meados do século estão sintetizadas nos relevos de Lygia Pape e na obra Bicho (projeto para um planeta), de Lygia Clark, parte da icônica série de esculturas articuladas e manipuláveis produzidas pela artista na década de 1960. Os Bichos de maiores dimensões, como projeto para um planeta, possibilitavam que o espectador envolvesse seu corpo inteiro ao manipular a obra, uma ideia que revela as transformações na investigação artística de Clark no que se refere à participação. Além disso, o título da obra sugere o conteúdo expansivo que a artista imaginou para ela. Projeto para um planeta está conectada à investigação de Clark sobre a arquitetura e o espaço, aprofundada em alguns dos seus trabalhos posteriores.
No final da década de 1960, o impulso experimental e disruptivo presente na arte brasileira ganha novos contornos políticos com o endurecimento do regime militar. Nesse contexto, Anna Maria Maiolino se destacou com abordagens que se desdobram em experiências conceituais e políticas. Com uma carreira marcada pela interdisciplinaridade, desafia as noções de identidade, corpo e exílio em obras que transitam pela escultura, pintura, desenho e performance, trazendo à tona questões universais e profundamente humanas. A obra Situação Geográfica – Alma negra da América Latina, de Maiolino, integra a série Mapas Mentais, um conjunto de trabalhos em que a artista elabora diagramas, gráficos e mapas de sua vida pessoal, incluindo seus deslocamentos geográficos e sua experiência com o mundo. A obra também adquire outros sentidos sob o ponto de vista da experiência coletiva dos cidadãos da América Latina na década de 1970, momento em que diversos países do continente passaram por ditaduras que levaram à perseguição política e ao exílio.
Adriana Varejão e Beatriz Milhazes se destacam por explorar a história e a cultura brasileira de formas diversas. Varejão aborda criticamente a história colonial do Brasil, valendo-se de apropriações, deslocamentos e aproximações de referências diversas, que a partir da intervenção da artista revelam imagens e discursos antes escondidos. Em Carne a la Taunay, Varejão reproduz a pintura Vista tirada do Morro da Glória (1820), de Nicolas-Antoine Taunay, um dos artistas que integraram a Missão Artística Francesa no Brasil. A partir dessa paisagem originalmente concebida como uma imagem oficial local,Varejão realiza uma espécie de procedimento cirúrgico, como se a pintura fosse um corpo feito de carne. Servidos em pratos decorados, os pedaços dessa paisagem evocam o trauma colonial de uma terra ocupada e consumida.
Beatriz Milhazes, que emergiu na cena de arte carioca dos anos 1980, assim como Varejão, é conhecida por suas obras vibrantes e complexas que combinam referências à cultura popularbrasileira e influências modernistas. As obras apresentadas demonstram a exuberância cromática de suas pinturas, muitas vezes inspiradas por elementos da natureza, e das tradições decorativas brasileiras. Suas composições são frequentemente densas, com formas sobrepostas e padrões circulares, florais e geométricos. As cores são intensas e contrastantes, criando uma sensação de movimento e energia. Milhazes desenvolveu uma técnica única de colagem em pintura: ela pinta formas sobre folhas de plástico, que depois são transferidas para a tela. Esse processo permite que ela crie camadas sobrepostas de tinta, dando uma qualidade de colagem às suas pinturas e oferecendo uma superfície texturizada.