Forjando linhas, equilibrando geometrias, contornando e, não raro, conflitando significados, os trabalhos de Rebeca Carapiá estabelecem e iluminam relações complexas entre forma e linguagem, corpo, território e discurso. Esse conjunto de esculturas, intitulado “Campo elétrico 01: raiva, sal, saúde e tempo” foi criado pela solda e moldagem do ferro e do cobre, este constituindo o material central das peças. O processo necessário para chegar nesta instalação envolveu várias etapas de produção, desde o aquecimento, torção e serragem até os cortes, encaixes e moldagem, todos realizados pelas mãos da artista. Ela cria envergaduras, círculos e outras formas geométricas e sinuosas que compõem as peças, de diâmetros e alturas diversas. O trabalho institui no espaço uma estrutura física que sugere, por sua vez, um campo metafísico. A base de sustentação, de tamanho reduzido, sublinha uma inteligente relação de peso, equilíbrio e proporção, bem como de fricção entre materiais, tão caros a escultura como linguagem artística e à prática de realização de Carapiá.
Assim, a artista concebe e materializa um vocabulário e uma gramática que operam tanto material como simbolicamente. As formas projetadas inicialmente em cadernos poéticos – que também guardam desenhos, gravuras e memórias – abstraem signos e gestualidades que retomam as inúmeras casas de ferragens da Cidade Baixa, em Salvador, um circuito operário e de corpos operários do munícipio. Não suscitam, entretanto, um desejo de tradução, antes inflam, das pequenas fagulhas as bolhas de ar maiores, como faz ferro e fogo, raiva e saúde, os sentidos de observação e de movimento, conduzindo energias sedimentadas em um grande campo, magnético e dissonante.
Em torno das tecnologias de transformação da natureza e das experiências subjetivas em diálogos aos seus contextos geopolíticos, os trabalhos de Carapiá decodificam os significados sociais e de produção ligados a matéria. Seja bruto como o ferro, ou nobre como o cobre, tão associados, respectivamente, ao trabalho masculino e as minorias dominantes, questionando pressupostos de força, acessos e normas de gênero que lhes são atribuído. Esse processo que envolve fogo e silêncio, contorno e aspereza, sal e suor, perícia e destreza são qualidades ampliadas para além do objeto em si, forjando uma imaginação alargada.