Carregando Resultados
Voltar
A cosmoarte de Moffat Takadiwa
A cosmoarte de Moffat Takadiwa
Antonio Gonçalves Filho e Lucas Goulart
2026

Moffat Takadiwa tornou-se conhecido do público brasileiro na 36ª Bienal de São Paulo, realizada em 2025, na qual apresentou uma grande instalação imersiva. Aos 43 anos, Takadiwa também já representou seu país natal, o Zimbábue, na 60ª Bienal de Veneza (2024), e agora faz sua primeira individual no Brasil.

Na Almeida & Dale, o artista apresenta um conjunto de trabalhos inéditos que abordam a cultura de consumo, suas origens coloniais e suas consequências ambientais por meio de materiais reaproveitados que, de perto, evidenciam sua origem e, de longe, assemelham-se a mosaicos feitos com pedras preciosas.

Suas obras, criadas a partir da seleção, organização e composição de resíduos plásticos oriundos de objetos cotidianos – como teclas de computador, tampas e pincéis de esmalte, escovas de dentes, pentes e outros refugos cotidianos das sociedades ocidentais –, sugerem uma alegoria da destruição do mundo antigo para a construção de uma nova civilização.

O artista escancara uma prática de exploração predatória que resulta no desequilíbrio ambiental promovido pelo estrangeiro, que remonta aos processos de colonização e às políticas contemporâneas nas quais o lixo eletrônico produzido na Europa é despejado em países africanos.

Assim, quando Takadiwa transforma a matéria rejeitada em objeto artístico, este gesto não deve ser confundido com o conceito de objet trouvé de Duchamp, apropriado pelos dadaístas. Takadiwa usa materiais descartados em suas obras, mas a experiência de lidar com o objeto recuperado é política. O artista subverte a linguagem do colonizador, mantendo-se fiel ao princípio de conceder uma segunda vida ao objeto rejeitado ou esquecido ao fazê-lo retornar reconfigurado ao Ocidente.

Não há paródia na sua arte, como havia na de Warhol, mas sim a crítica ao legado colonialista, que se atualizou e continua a impor à região a exploração de recursos, a degradação ambiental e o apagamento das culturas locais. O artista inspira-se na tecelagem e cestaria da tradição Korekore para confeccionar belas esculturas e tapeçarias que resultam em composições com ritmo, cor e topografia que encaram as tradições locais como estruturas de linguagem próprias.

Takadiwa produz sua obra colaborativamente, com uma rede que se formou em torno do Mbare Art Space, ateliê fundado pelo artista em 2019 que promove a criação de uma rede de artistas, a qualificação do trabalho e a renovação urbana de Mbare, uma das regiões mais antigas e densamente povoadas na cidade de Harare, a capital zimbabueana.

O ateliê ocupa um antigo beer hall, tipo de cervejaria que era estabelecida e controlada pelas autoridades coloniais britânicas como parte de uma estratégia de segregação, regulação do lazer e restrição da organização política. O legado colonial do espaço, portanto, é ressignificado. Em torno do Mbare Art Space, o trabalho em aterros, comum às comunidades locais torna-se uma etapa fundamental na produção de Moffat Takadiwa e de outros artistas da região passa a ser qualificado simbólica e monetariamente.

A crítica pós-colonial do artista ultrapassa as relações históricas entre o Zimbábue e a Commonwealth ao abordar as relações contemporâneas de exploração na região por países europeus e pela China, cujos investimentos recentes podem trazer muitos benefícios, mas também resultados tóxicos para o ambiente.

Germinar e renascer são os verbos prediletos de Takadiwa, que se conjugam com instalações, esculturas de grandes dimensões e tapeçarias. Os títulos de algumas dessas obras, feitas especialmente para a exposição, não deixam dúvidas sobre suas intenções: Tree of Life (Árvore da Vida), Taking Care (Cuidando) e Survival Mode (Modo Sobrevivência). Takadiwa, assim, encara seu sucesso internacional como uma forma de reconhecimento do trabalho de toda uma comunidade preocupada com o futuro.

Antonio Gonçalves Filho e Lucas Goulart