Ao promover Double Exposure, exposição do artista cubano Carlos Garaicoa em São Paulo, simultânea à mostra organizada pela Galleria Continua, a Almeida & Dale traz ao público uma obra pouco vista pelos brasileiros, mas internacionalmente reconhecida por curadores e colecionadores desde que o artista, hoje com 58 anos, começou sua carreira, nos anos 1990. Foi justamente nessa década que Cuba começou a enfrentar um período de depressão econômica por falta de apoio da extinta União Soviética, que, combinada ao embargo americano, tornou praticamente inviável a produção artística na ilha.
Cabe lembrar que a Guerra Fria foi um fator decisivo que levou a arquitetura cubana, principal fonte de interesse de Garaicoa, a experimentar o remédio amargo da estagnação. Sem qualquer investimento na área, muitos prédios foram abandonados ao tempo, comprometendo o patrimônio cubano. Havana, terra natal do artista, virou uma só ruína. Por meio de instalações, esculturas, desenhos e fotomontagens (como Puzzles, exposta aqui), Garaicoa, pintor de formação e arquiteto por vocação, trabalha, de forma original, a memória do espaço urbano, em especial, a da capital cubana. Algumas dessas obras foram exibidas em mostras como a documenta de Kassel, a Bienal de Veneza, e museus como o Guggenheim de Nova York.
Entre os trabalhos recentes de Garaicoa (produzidos em 2025) estão fotografias retrabalhadas em diversos materiais, como a impressão digital em gesso flex e madeira Aconitum (Acônito), em que um insistente arbusto invade uma ruína em Havana. Nela, Garaicoa brinca com o contraste entre a exatidão matemática do projeto arquitetônico e a natureza caótica da vegetação, que subverte essa ordem ao tomar conta da ruína. A planta acônito, que dá título à obra, é venenosa. Foi, aliás, utilizada pelo ditador Stalin para matar seus adversários políticos.
A atenção do artista mudou da arquitetura para a natureza no período da pandemia. Exemplo dessa conflituosa relação cultura/natureza está na planta anteriormente citada, que esmaga, com suas raízes, um prédio já detonado, assim como ocorre em outra impressão digital, Atropa belladonna, também deste ano.
A série mais conhecida de Garaicoa, Puzzles, é representada, nesta exposição, por obras produzidas em 2024, fotografias eletrostáticas em que ele reconstrói prédios arruinados como se fossem peças de um quebra-cabeça. O artista também recorre a pregos e linhas sobre a impressão fotográfica para “reconstruir” belos edifícios, hoje apenas esqueletos sob um céu cinzento, vestígios de uma cidade prestes a desaparecer.
Garaicoa evoca o nome do pintor romântico alemão Caspar David Friedrich (1774-1840), conhecido por suas paisagens metafísicas, para justificar o uso frequente das ruínas urbanas de Cuba. Elas seriam alegorias de um exílio forçado no próprio país, que, segundo o artista, está “acabado” como utopia da modernidade. Para quem se formou artista plástico tendo como referência a Bauhaus, essas ruínas representam a “falência” da sociedade cubana.
Uma das obras da exposição, com título bastante irônico, resume a questão: Toda utopia passa pela barriga (2025). Trata-se de uma instalação em que frascos de vidro com diversos grãos, conservas e maquetes produzidas pelo artista tecem um comentário sobre a conflitosa relação do homem com seu ambiente, pois toda a história da civilização, toda questão de território “passa pela comida”, resume Garaicoa. “Temos dois exemplos recentes: Gaza e Ucrânia”, cita o artista, que se assume filho da arte conceitual, criada há sessenta anos pelo norte-americano Joseph Kosuth.