A filósofa norte-americana Donna J. Haraway inicia seu recente e aclamado livro “Staying with the Problem: Making Kin in the Chthulucene”1 (publicado como “Ficar com o problema: fazer parentes no chthluceno” na tradução para o português), com a seguinte afirmação: “‘problema’ (trouble) é uma palavra interessante”2.
Derivada de um verbo francês do século XIII, quando lida sob uma ótica semântica expandida, a palavra “problema” assume significados próximos a “agitar”, “instigar”, “enturvar”, “perturbar”3. Transportadas para a produção artística de Emmanuel Nassar, essas ideias encontram um terreno fértil de conversações.
Em mais de quatro décadas dedicadas à prática artística, Nassar consolidou-se como um dos nomes mais emblemáticos do circuito da arte contemporânea brasileira, da década de 1980 aos dias atuais, ao posicionar sua obra em um solo arriscadamente limítrofe e quase paradoxal.
Afinal, que outro artista brasileiro teria conjugado com tamanha destreza e virtuosismo a apropriação de signos da linguagem do pop – seja o norte-americano, seja (sobretudo) o brasileiro – e um prazer artístico afinado também ao eco das nossas vanguardas construtivas da década de 1960 e 1970?
O título “popcreto”, aqui cunhado para designar a trajetória de Nassar, vai ao encontro da escolha do artista em exibir – como numa espécie de exposição quase-panorâmica – trabalhos que cobrem uma janela temporal dos anos 1980 a 2025. Retornando às múltiplas acepções apresentadas por Haraway para a palavra “problema”, não seria errado afirmar que o artista vem, ao longo do tempo, desestabilizando o cenário da arte brasileira ao assimilar signos próprios (a priori, ao menos) de cultura de massa a rigorosos exercícios formais.
Tais exercícios buscam, frequentemente, subverter a polidez formal típica, por exemplo, dos nossos concretos e neoconcretos. Por meio do uso de materiais como chapas metálicas e outros suportes oriundos da vida cotidiana e da experiência do artista como flanêur profissional – pelas ruas de Belém do Pará, cidade onde o artista vive e trabalha –, Nassar finca bandeira no terreno da pintura, ainda que o esgarce até seus mais improváveis limites.
A “nau de Nassar” nada tem a ver com as caravelas e os batéis que aportaram pelas bandas de cá, nos idos de 1500. O sujeito e o Brasil são dois temas eternamente onipresentes na obra de Emmanuel Nassar. O território do artista informa e atravessa sua obra de modo visceral, ao passo que o artista afirma: “nasci no Pará, no interior do Pará, eu sou meu tema”4.
1 In: HARAWAY, Donna J. “Ficar com o problema: fazer parentes no chthluceno”. São Paulo: N-1 Edições, 2023.
2 Ibidem.
3 Ibidem.
4 In: SCOVINO, Felipe. “Este Norte”. Entrevista com Emmanuel Nassar, 2012.