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À sombra do pó das estrelas
À sombra do pó das estrelas
Cristiano Raimondi
2025

Nos quasares¹ mais luminosos do espaço, um dos elementos naturais presentes é o ferro(Fe). Podemos percebê-lo por meio de gráficos espectrométricos complexos que revelam aos cientistas mais competentes a composição da matéria que transborda desses objetos galácticos: gases e poeiras que, ao caírem em um buraco negro, produzem explosões extraordinárias devido ao atrito que, no passado, foram erroneamente consideradas estrelas. Esses núcleos galácticos extremamente ativos e luminosos possibilitaram a evolução química do Universo e, talvez, da própria vida na Terra.

O ferro(Fe), elemento privilegiado por Amilcar de Castro(AMC) para criar suas esculturas, chegou ao nosso planeta através do “pó das estrelas” e dos meteoritos, e está presente desde os organismos vivos até a infraestrutura do mundo moderno. Em Minas Gerais, onde (AMC) nasceu, o ferro(Fe) parece substituir até mesmo as pedras e a própria terra.

Estrela, a primeira e única obra em cobre de (AMC), foi produzida em 1951 e exposta na II Bienal de São Paulo. Após essa experiência bem-sucedida com a preciosa liga, o único elemento que o artista passaria a utilizar na criação de suas esculturas seria o ferro(Fe) — à exceção de pouquíssimas experiências com vidro e madeira. Partindo dessa escultura e de seu título, que não é casual, busquei realizar um projeto expositivo que representasse o Big Bang criativo do artista mineiro.

(AMC) exaltou a percepção do espaço por meio de uma gestalt que não se limita aos fenômenos visíveis e legíveis em um contexto artístico ou filosófico; o artista foi capaz de fundir a estética da ciência e da química com a do construtivismo e a da perspectiva clássica, criando uma obra que fosse tetradimensional², interativa e única.

Alinhando-se às teorias filosóficas de Merleau-Ponty, às intuições de Lucio Fontana enunciadas em 1946 em seu Manifesto branco³ e ao manifesto do movimento neoconcreto (1959), (AMC) cria enigmas que, como o monólito de Odisseia no espaço de Kubrick (1968), questionam o espectador sobre o valor ou o sentido de uma figura geométrica que não pretende representar formas naturais, e sim arquétipos atribuíveis a fórmulas matemáticas que transcendem a realidade. Assim, o trabalho de (AMC) representa um unicum. O artista revolucionou a escultura contemporânea, abrindo-a para infinitas possibilidades de pontos de vista não hierárquicos e antecipando, na América Latina, as pesquisas de artistas como Tony Smith e Richard Serra.

Ao propor um projeto expositivo em que a escultura se projeta por meio de sua penumbra na dimensão bidimensional da pintura, minha intenção foi envolver o público em um mundo de signos e linhas cuidadosamente organizados, liberando-o para interpretações alegóricas e filosóficas, com o objetivo de convocar afinidades entre a escultura, a pintura e o espectador.

Outro movimento desta exposição é destacar o trabalho pictórico como parte fundamental do processo artístico de (AMC), em continuidade com o trabalho escultórico: representações bidimensionais de formas tridimensionais, repetição de vazios e cheios, fundos brancos e cândidos para realçar a presença do espaço e pinceladas permeadas de vibrações que remetem à caligrafia chinesa em harmonia com o Qi⁴‬.

O que se atesta no contato com esse corpo de obras é o liame entre (AMC) e o ferro(Fe). Resistindo, ambos, ao teste do tempo, eles não se deterioram sob a ação dos elementos climáticos, incorporando-os para a transformação de sua matéria e sentidos. Assim, no contato com a obra de (AMC) pode-se ensaiar um olhar não historicizado ou alinhado a teorias formais já fundamentadas. Aqui, olhemos ao ar livre, enigmático e impávido sob o céu aberto, o mesmo céu de onde veio o elemento que determinou seu sucesso: o pó das estrelas.

 

 

(1) Os quasares são núcleos galácticos ativos alimentados por buracos negros supermassivos que expelem gases contendo elementos como o ferro. Esse ferro, produzido pela nucleossíntese nas estrelas e nas supernovas, é emitido juntamente com outros elementos pesados e pode ser observado graças às linhas espectrais características presentes na radiação emitida.

(2) A arte tetradimensional, ou “quarta dimensão” na arte, refere-se à incorporação do tempo como elemento constitutivo da obra, além das três dimensões espaciais (comprimento, largura e profundidade). Esse conceito foi explorado no cubismo, que mostra um objeto de diferentes pontos de vista simultaneamente, conectando-se a teorias físicas e filosóficas, como a relatividade. Obras que combinam arte visual, performance e outras mídias também podem ser consideradas tetradimensionais.

(3) A arte encontra-se em um período latente. Há uma força que o homem não consegue manifestar. Nós a expressamos de forma literal neste manifesto. Por isso pedimos a todos os homens de ciência do mundo, que sabem que a arte é uma necessidade vital da espécie, que orientem parte de suas investigações para a descoberta dessa substância luminosa e maleável e de instrumentos que produzam sons, permitindo o desenvolvimento da arte tetradimensional. Lucio Fontanta, Buenos Aires, 1946.

(4) O Qi expressa o poder do Cosmos (e, portanto, de qualquer representação cosmológica), a força geradora da criação, da formação, da transformação e da regeneração. Em outras palavras, descreve tudo o que existe e vive nas formas e nos estados visíveis e invisíveis.