“A verdade é que a arte está na natureza e quem consegue arrancá-la, a possui”. Esta frase, dita pelo pintor alemão Albrecht Dürer, em 1512, confirma-se e realiza-se na arte de Marlene Almeida num sentido duplo. Pois não é só o material artístico com que trabalha – pigmentos naturais, na sua pintura e terra, nos objetos escultóricos – que ela tira do solo brasileiro, mas também o que é criado com este material, no espaço e no plano, segue formas da natureza, orgânicas e vegetais, como sementes, brotos, flores, castas e frutos, colmeias ou cavernas, folhagens ou partes de troncos, conchas, larvas de insetos ou carapaças de animais.
A riqueza, a variedade, o colorido da natureza e das paisagens do Brasil constituem o lar da artista e sua arte, especialmente a paisagem da Paraíba, que está muito próxima do Equador, entre a imensidão do oceano e das matas intransponíveis, entre coloridas paisagens costeiras e formações geológicas, entre árvores floridas e plantas exuberantes. Marlene Almeida procura a natureza nos lugares onde esta criou formas majestosas e assim ela pinta frutos, flores, folhas ou ramos, como também na matéria elementar extraída da natureza que, na sua obra, são as cores da terra e a própria terra, que traz em si a força de brotar e crescer ou como relíquia de uma vida passada. Aspectos urbanos ou figuras humanas não se encontram na arte de Marlene Almeida. As formas criadas por ela ou as cores aplicadas – cores que obteve graças a processos prolongados – não pretende imitar a natureza. Com mais certeza pode-se dizer que são as próprias formas que continuam guardando a sua substância. Mais ainda nesta transformação artística, natureza e vida recebem uma força visual crescente, alcançando valores simbólicos de grande significado.
Arte e natureza em Marlene Almeida formam uma unidade. Sua visão não está isolada. Ela não segue nenhuma corrente ou conceito artístico europeu, onde se usa terra, cinza, borra de chá ou café, se juntam folhas, flores, galhos ou se põem pedras do mundo inteiro formando esculturas, onde madeira e pedras são usadas em frottage, onde a natureza é substituída pela arte e onde se chama atenção para conservar e proteger a natureza e as terras por ações artísticas e instalações ao ar livre. Para Marlene Almeida, arte e natureza não são polos opostos, muito pelo contrário, as formas artísticas e as da natureza são feitas da mesma matéria e partes naturais de sua vida e do seu campo de ação.
Na sua pintura, dominam finas sombras coloridas e tonalidades de luz e não existem inusitadas e fortes dissonâncias de cores. Formas singulares ou uma visão da vegetação selvagem surgem claramente nos desenhos saturados de cores destacando-se do fundo dos quadros como se fossem uma aquarela. A natureza estranha passa a comunicar-se como um enigma, com uma profunda e atraente sensualidade, ou como uma situação selvagem ameaçadora.
A artista procura e encontra as cores caminhando no interior do estado. Ela as isola das outras matérias com as quais estão ligadas na natureza e, no laboratório, as purifica e ganha, assim, num processo trabalhoso, as cores. Estes pigmentos – preto, vermelho, azul, amarelo, branco, cinza – juntam-se aos aglutinantes para, no papel, de novo reflorescerem com sua vida vegetativa nas formas e contextos artísticos.
Também os objetos de Marlene Almeida, com suas formas oriundas da terra, que ela carrega de longas distâncias para o seu ateliê e que depois de algum tempo devolve à natureza, da qual tomou emprestada, para que aí, de novo, com a ajuda do sol, da chuva e do vento, ela se reintegre ao solo, querem apenas ser estações de um círculo natural e dirigem o olhar do observador para a variedade das formas da natureza brasileira. Surgem séries de objetos, como por exemplo de cascas em rompimento, feitas de celulose e terra, mas também obras individuais em cor de terra e fechadas, lembrando cápsulas, arbustos que se transformam em anéis, torres ou esferas. A superfície externa, com diferentes texturas, parece com crostas ou estruturas borbulhantes. Os objetos se impõem como verdadeiros, como grandes peças encontradas, como “natural copies” e quase sempre voltam ao seu lugar de origem, de forma que simbolizam, ao mesmo tempo, crescimento e transitoriedade.
As obras artísticas de Marlene Almeida são estações intermediárias de um círculo orgânico, em cujo início está o difícil processo cognitivo da natureza seguido da criação artística, apresentação e interpretação para, quase sempre, terminar na natureza e a ela incorporar-se. Desta maneira, a artista chama a atenção, dentro e fora do seu país, para a quantidade de cores e a beleza das formas naturais. O observador, cujo olhar fica preso pela intensidade e qualidade da criação artística de Marlene Almeida, sente-se chamado a incorporar conscientemente aquela natureza e paisagem e preservar estas fontes de vida e arte.