As imagens habitam um tempo diferente do nosso.
Algumas parecem atravessar séculos sem perder sua presença. Outras esperam anos antes de se revelarem. Não pertencem nem inteiramente ao passado nem inteiramente ao presente, mas àquele raro instante em que alguém verdadeiramente volta a olhá-las.
É nesse espaço que Abstenção toma forma.
Para Nino Kapanadze, a pintura começa muito antes da primeira pincelada. Começa no silêncio do ateliê, na preparação da tela e na decisão de desacelerar o tempo o suficiente para que as imagens possam emergir antes de serem apropriadas pela história, pela memória ou pela urgência do presente.
O ateliê é um espaço de abstenção. Não um refúgio do mundo, mas o lugar onde seu ruído se aquieta o bastante para tornar possível outra experiência do tempo. É ali que surge um verdadeiro estado de atenção — não um estado de concentração, mas uma forma de olhar que renuncia ao controle e permite que a imagem se revele em seu próprio tempo.
Foi desse estado que nasceu a exposição.
Durante uma visita ao Museo Nazionale Romano, em Roma, alguns fragmentos de esculturas antigas chamaram a atenção da artista com uma intensidade inesperada. Não foi sua identidade que a atraiu. Foi sua presença. Ela os fotografou sem saber exatamente por quê. Semanas depois, de volta ao ateliê, decidiu trabalhar a partir de algumas dessas imagens, impondo a si mesma uma regra simples, mas radical.
“Decidi não saber quem eram.”
Nenhuma pesquisa. Nenhuma legenda. Apenas olhar.
Semanas depois que as pinturas já haviam começado, ela descobriu que havia escolhido Nero e Agripina¹.
A história entra na pintura apenas depois.
Talvez essa seja a chave da prática de Kapanadze. A pintura não confirma um conhecimento já adquirido; ela cria as condições para que algo finalmente possa se revelar.
O sentido vem depois.
O mesmo princípio orienta a vida material das pinturas.
Muito antes do primeiro gesto, a artista prepara a tela com cola de pele de coelho e carbonato de cálcio. Essa preparação não constitui um suporte invisível, mas a primeira camada da própria imagem. Sua brancura, sua capacidade de absorção e sua textura permanecem ativas durante todo o processo pictórico.
Nas três obras que abrem a exposição — In Absentia #1, Capite velato e In Absentia #3 — esse princípio torna-se particularmente evidente. As formas emergem por meio de delicados véus de branco de zinco e branco de titânio, enquanto aquilo que percebemos como sombra frequentemente não é mais do que a própria preparação da tela.
“Tudo o que você percebe como sombra é, na verdade, o branco da tela, a ausência da tinta a óleo.”
A pintura constrói a imagem precisamente por meio daquilo que escolhe não pintar.
A ausência torna-se matéria.
O vazio gera presença.
Nascida na Geórgia nos anos que se seguiram à dissolução da União Soviética, enquanto o país recuperava a independência, Kapanadze conhece intimamente o peso da história. Ainda assim, suas pinturas se abstêm de representar diretamente acontecimentos históricos. Não por indiferença, nem por desejo de escapar do presente. Muito pelo contrário. Ao criar distância, elas recuperam a possibilidade de ver o mundo de outra maneira.
Em um tempo marcado pela produção incessante de imagens, por seu consumo acelerado e pela exigência constante de respostas imediatas, Abstenção propõe um gesto radicalmente simples.
Desacelerar.
Permitir que uma imagem exista antes de seu significado.
Talvez seja isso que a pintura de Nino Kapanadze continue buscando.
Talvez sua pintura procure a própria luz — a condição invisível que permite que toda imagem emerja. O branco não é ausência, mas a soma silenciosa de todas as cores, um espaço de infinitas possibilidades.
A paisagem torna-se testemunha, um campo onde a história é vivida, apagada e continuamente reescrita. Olhamos para trás com assombro e nos perguntamos: ela realmente esteve ali?
A pintura não pode restaurar aquilo que desapareceu. Ela pode apenas nos conduzir àquele raro instante em que algo volta a se tornar intensamente presente.
¹ Os fragmentos escultóricos escolhidos por Nino Kapanadze retratam Nero (37-68 d.C.) e sua mãe, Agripina, a Jovem (15-59 d.C.), duas figuras centrais na história do Império Romano. Agripina garantiu a ascensão do filho ao trono imperial; Nero mais tarde se tornaria um dos governantes mais controversos da Antiguidade. Segundo as fontes antigas, foi ele quem ordenou o assassinato da própria mãe, em 59 d.C. Após sua morte, o Senado Romano declarou-o inimigo público e o condenou in absentia. A relação entre essas figuras históricas e o título da série revelou-se apenas posteriormente, quando a artista já havia selecionado as imagens e iniciado sua pintura.