Carregando Resultados
Voltar
As imagens que se depositam atrás do pensamento
As imagens que se depositam atrás do pensamento
Lucas Dilacerda
2023

Entrevista com Beatrice Arraes por Lucas Dilacerda.

Lucas Dilacerda: As suas obras abordam desde a pintura de letras até às pinturas metafísicas. Para você, quais são as principais temáticas que o seu trabalho discute?

Beatrice Arraes: As temáticas geralmente rondam cenas do cotidiano, que fazem parte dos caminhos que percorro no dia a dia. Além disso, há paisagens inventadas que surgem quase como metáforas de estados de espírito, um aquífero, uma chuva torrencial etc. Os sentimentos e a escrita são sugestões na formação dessas imagens e no seu desdobramento. Muitas vezes uma temática já puxa outra por associação.

LD: Nas suas pinturas, vemos surgir fachadas, letreiros, bancos, jogos de xadrez, logos e demais elementos gráficos da cultura visual. Qual é o seu interesse pelo design popular?

BA: Acredito que esses símbolos gráficos estão intimamente ligados com nossas memórias e experiências do dia a dia. São quase como imagens que se depositam atrás do pensamento, temos uma familiaridade imensa a elas por fazerem parte da nossa cultura material. Me interessam justamente isso, o impacto que essas imagens têm em nós ao mesmo tempo que são extremamente cotidianas, muitas vezes quase que desapercebidas. Além disso, há a interferência de um mundo cada vez mais globalizado, onde os símbolos locais tendem a desaparecer e serem substituídos por uma certa padronização visual. Questões de apagamento, abandono e deterioração são presentes em um mundo que passa por profundas transições.

LD: De que maneira a exposição aborda as mudanças climáticas?

BA: Acredito que aborda a partir do recurso da fabulação. A exposição surge através de uma narrativa de um evento fictício e surreal em uma cidade equatorial, a partir desse evento a natureza reage de maneira diferente. O observador é convidado a entrar nessa atmosfera de estranhamento, medo e aproximação com esses eventos misteriosos.

LD: O sol, a nuvem, a chuva e os vulcões são metáforas? Esses elementos naturais da paisagem seriam
retratos do nosso “eu”?

BA: Com certeza. Acho que o observador pode levar tanto para o caminho da contemplação e da observação distanciada desses eventos, mas principalmente desse eventos serem algo intimamente ligados a experiência humana na terra. Acredito que a exposição realize muito esse convite da paisagem também como um retrato interior.

LD: Quais são as suas principais influências artísticas?

BA: Acredito que hoje possuo uma grande influência de uma série de pintores da história da arte, mas principalmente os pintores metafísicos italianos, as pintoras surrealistas mexicanas e pintores brasileiros como Amadeo Lorezanto e José Antônio da Silva. São pintores que me acompanham desde muito tempo.

Além disso, sou naturalmente influenciada pelos artistas aos quais tive o prazer de conviver e ter parceria na minha vida, entre eles, a pintora cearense Paula Siebra.

LD: Nos nossos encontros, conversamos sobre como a espiritualidade é um meio de se conectar com as forças da Natureza, da memória e da imaginação. O que significa o ato de pintar para você?

BA: Para mim o ato de pintar é uma espécie de fé que cultivamos. Eu não pinto porque tenho certeza e controle do que a coisa vai ser, eu pinto pela jornada que é desvendar essas imagens. Para desvendar eu tenho que desenvolver essa fé na procura, no fazer. Para mim, a vida e a natureza se mostram assim, confiar numa espécie de incerteza.