Uma rua deserta ao meio-dia. O sol a pino ilumina tudo com um clarão de luz que arde os nossos olhos. Apenas o silêncio, a solidão e um calor que sobe pelo chão seco do asfalto. De repente, uma nuvem vem se aproximando. Ela faz um desenho de sombra que se movimenta a cada passo. O sol desaparece e tudo fica escuro. Chove sem parar. As pessoas somem e os rios que achávamos estarem mortos renascem do subterrâneo. Vulcões brotam do chão e emanam um brilho de uma chama em erupção. É chegada a hora de reaprender a viver de outra maneira.
“Passou uma nuvem” é a primeira exposição individual da artista Beatrice Arraes, que há alguns anos vem desenvolvendo uma pesquisa em pintura sobre o design popular e as transformações históricas da paisagem.
Nesta exposição, a artista amplia a sua pesquisa para outros suportes e linguagens — tais como o desenho e a escrita —, desdobrando a sua investigação para novos temas, como mudanças climáticas, inconsciente, espiritualidade e natureza. Para isso, a exposição apresenta um recorte de quase trinta obras inéditas, produzidas em 2023, nas quais a artista explora uma variedade de técnicas e materiais, tais como óleo, carvão, linho, madeira etc.
A exposição nasce de um texto escrito pela artista, no qual ela fabula uma cidade equatorial sendo invadida por uma nuvem que bloqueia o sol e, assim, provoca transformações radicais na paisagem, desde o desaparecimento da humanidade até o aparecimento de vulcões e aquíferos que possibilitam que a energia aprisionada e acumulada no subterrâneo possa, enfim, emergir para a superfície.
A narrativa alegórica — repleta de metáforas, simbologias e signos — retrata a paisagem que habita dentro de nós: a chuva que lava a nossa alma e os vulcões que nascem sobre a nossa pele. O nosso corpo é uma paisagem em transformação, na qual as nossas crises climáticas são também crises existenciais. Beatrice Arraes usa a pintura como um estudo sistemático dos diferentes tipos de chuva que habitam a nossa subjetividade e observa por diversos ângulos os vulcões que nascem para dar vazão às energias guardadas no fundo, de nossas existências.
As obras em pequenos formatos revelam grandes intensidades. Se antes a História da Arte chamava de sublime as obras colossais e infinitas que causavam um impacto na nossa percepção, agora Beatrice Arraes escreve uma nova página dessa história, ao reinventar e criar um novo tipo de sublime: o sublime onírico. As suas obras em pequeno formato nos fazem sentir um sublime onírico, no qual a nossa percepção é enfeitiçada, fazendo-nos sonhar de olhos abertos, borrando assim as fronteiras entre realidade e imaginação. A técnica das zonas cinzas explora uma penumbra onírica que só existe entre a luz do sol e a sombra da nuvem. A nuvem faz desaparecer a localização do sol, tornando o sentido e a direção da fonte de luz natural ocultada, causando a sensação de desorientação geográfica e psíquica.
O sublime onírico de Beatrice Arraes nos causa uma sensação de desorientação espaço-temporal, na qual não sabemos nem onde e nem quando aconteceram aqueles fenômenos naturais. Em suas obras, não sabemos se é de dia ou de noite, se está amanhecendo ou anoitecendo. Elas acontecem em um tempo etéreo, sem começo nem fim. As imagens, ora primitivas, ora pós-apocalípticas, dançam entre a indefinição do passado e do futuro. Não sabemos se são imagens do que aconteceu ou do que acontecerá.
As imagens são excessivamente familiares. Ao vê-las, parece que elas já habitavam dentro de nós, incrustadas no quintal do nosso inconsciente.
A artista faz um giro na psicanálise. Não se trata mais de um “estranho familiar”, mas sim de um familiar que é tão familiar que se torna estranho: um “familiar excessivamente estranho”.
A artista dá expressão às imaginações da matéria. As imagens que vemos são memórias ancestrais de quando éramos uma gota de água no oceano. O carvão é a matéria queimada em pó, mas é também o mineral que em milhões de anos é lapidado e se torna um diamante no vulcão. Beatrice Arraes foi a chuva que me molhou quando eu fui árvore. Suas obras são memórias de um tempo primal daquilo que fomos e daquilo que sempre seremos.
Despovoar para repovoar. Essa é a fórmula poética dos trabalhos de Beatrice Arraes. Se a artista despovoa a imagem não é para produzir uma ausência. O vazio de suas obras são sempre aberturas para serem preenchidas por novas forças germinativas da natureza. Por isso, a solidão presente nas obras de Beatrice Arraes é sempre uma solidão povoada. A tempestade despovoa a humanidade. A ruína é o alimento da natureza. A miragem é o que nos move no deserto.
Por isso, a exposição é um convite para levantarmos a cabeça e olharmos o movimento das nuvens. Segui-las, se possível. É um convite para encontrar as nossas nuvens e tomar banho na chuva que elas carregam. Regar o nosso corpo para ver brotar vulcões. Dar vazão a todos os nossos medos, angústias e não ditos. Tornar-se a paisagem que queremos ser.