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Desde a tona
Desde a tona
João Bandeira
2023

Um discípulo pergunta a seu mestre qual a profundidade do rio Zen.

– Três dedinhos, responde o mestre.

– Então quem pode nadar nesse rio?

– A montanha.1

A extensa trajetória do trabalho de Dudi Maia Rosa tem um marco, descrito em muitas de suas declarações e comentado em vários textos críticos, que é quase uma fábula de origem – e sabe-se que fabulação não se opõe necessariamente a verdade. A narração diz que, a certa altura, houve uma espécie de revelação, quando ele inventou o que apelidou na época de “fiber”, um objeto artístico basicamente feito de resina de poliéster,fibra de vidro e pigmentos, que tende ao tridimensional. Porém umbilicalmente ligado à longa tradição formal e simbólica da pintura, e no qual a distinção entre imagem e suporte se dissolveu.

Com o apelido renovado para simplesmente “resina”, esses trabalhos têm sido um laboratório da produção de Dudi – embora não exclusivamente –, e seu aspecto geral passou por várias gerações, muitas vezes remetendo ao “quadro”, mas de um modo todo próprio. Só não cabe dizer que ele já fez de tudo com eles porque, afinal, não parou, como se vê nesta exposição. Executado pelo artista em um molde deitado, uma das particularidades do objeto “resina” é que o que estava no fundo do molde será a superfície quando o material se solidificar e estiver pronto para ser levantado na vertical e se apresentar a nós. É como se o que vemos nessas obras se originasse do movimento de fazer algo submerso vir à tona.

Quase todas as “resinas” desta exposição são trabalhos recentes ou nunca mostrados, com apenas uma exceção: aquele com faixas cor de rosa largas em ziguezague. Ele pode fazer a ligação entre os novos e uma linhagem há tempos consolidada na produção de Dudi, que soma a expansão generosa da cor ao afloramento, afetivamente irônico, de referências vindas da história da arte. Por exemplo, a pincelada, o grafismo, a listra, o jogo positivo-negativo, traços de algum estilo consagrado, iconografias simbólicas (como a cobra-ouroboros), imagens apropriadas (lá estão as musas do cinema Monica Vitti e Odete Lara), e até o quadro ele mesmo e sua moldura – embebida em humor, a materialidade do objeto de arte é, e não é, a própria representação. Uma certa rusticidade se destaca nessa nova safra, seja na fragmentação de grandes chapas de cor, seja na aspereza franca de algumas superfícies, ou, ainda, no desnudamento da própria substância que dá corpo a essas obras.

Rusticidade e fragmento estão igualmente no corpo (e na alma contemporânea) de outro grupo de obras da exposição, os pequenos trabalhos que parecem simultaneamente atrair e gerar formas, e onde a pintura não esqueceu de deixar marcas. Junto a pedaços de materiais diversos, alguns no limiar de reconhecermos seu emprego anterior, coisas bem identificáveis surgem nessas superfícies compactas: a lata de sardinha, o mecanismo de caixa de música, o laço de fita, o bicho de brinquedo, a reprodução incompleta de uma pintura e muito mais. Desse ponto de vista, são trabalhos próximos também das esculturas apresentadas na exposição, já que nelas podemos vislumbrar uma ou outra forma reconhecível do mundo na iminência de aparecer, à beira de se constituir integralmente (uma harpa? um gradil? um ornamento arquitetônico? nenhuma dessas coisas?), ou como se recém-saída da pura matéria (o raio? a nota musical? outro sinal?). 

Mais uma família de obras de Dudi, algumas incluídas aqui, faz pensar em fábulas e coisas que vêm à superfície: a série das Cábulas, realizada em tela, em papel e com outros materiais, que ele executa mesclando técnicas industriais e artesanais deslocadas do habitual. Se muito do que vemos nas “resinas” pode ser cogitado como um movimento no espaço, nas Cábulas ele transcorreria mais no tempo, através da memória coletiva. Isso porque suas imagens foram pescadas – e depois reprocessadas – no repertório dos antigos desenhos animados, guardando ainda o efeito da visualidade das fábulas de cinema. Com um DNA assim, não é à toa que essas cenas e aparições de objetos isolados que flutuam sobre um fundo mais ou menos homogêneo sejam um pouco como as sobras que conseguimos identificar de um sonho. O que, por sua vez, sugere analogias desses trabalhos também com as esculturas e os pequenos relevos, onde algumas coisas se deixam ver individualmente (ou prometem fazê-lo) em meio ao que não está completamente revelado ou talvez apenas desinteressado de qualquer mimese.

Enfim, entre reconhecimentos e estranhezas, a escolha dos trabalhos inéditos e de outros para serem mostrados no Instituto Ling orientou-se pela percepção de um complexo de remissões no interior de diferentes famílias da produção de Dudi Maia Rosa. Se for mesmo assim, quando reunidos, uma solidariedade de formas, qualidades de cor, texturas, referências menos ou mais diretas a convenções da arte potencializa a efetiva sedução da sua materialidade, onde a luz opera de tantas maneiras. Numa proposição elementar das suas Anotações sobre as cores, lidando com nossos conceitos habituais sobre a visão, Wittgenstein afirma que “há transparência e reflexão apenas na dimensão de profundidade de uma imagem visual”. Saltando da lógica para mergulhar em outros jogos de linguagem em torno das obras dessa exposição, imagino uma corrente que nelas sobe e desce, entre o fundo e a tona. Ou colocando de outra forma: ao olhar para aquilo que nos chama com força nesses trabalhos, consideremos também o seu “calado”, aquela parte do barco que vai da ponta da quilha submersa até a linha visível da água. Levados por Dudi, neste barco estamos.