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Diagonal
Diagonal
Fernanda Pitta
2011

Era uma vez um espaço infinito, constante e homogêneo. Inventado pelos homens do Renascimento, tornado visível pela perspectiva geométrica, ele podia ser percorrido em todos os sentidos, em quatro coordenadas ortogonais, expandir-se para todos os lados, sem barreiras, medido, representado. Abstrato, neutro, igual em todo lugar, assim como o tempo, parecia ser perene, estar lá para sempre, à nossa disposição, aos nossos pés. Mas eis que, ao invés dos belos príncipes dos contos de fadas, surgem aqui e ali, em momentos de perigo da história da arte, artistas que fazem o papel do cozinheiro da verdadeira história da Bela Adormecida, acordando todos no castelo com a bofetada que dá em seu aprendiz, fazendo também acordar a verdade (ou pelo menos um vislumbre dela) há tanto tempo adormecida. Esses artistas, com seus objetos, com suas ações, às vezes com estardalhaço, às vezes com uma sutileza quase silenciosa, nos fazem ver o que de tão óbvio passa desapercebido. Que o espaço não é esse cubo mágico de proporções infinitas, constante e transparente. É cheio de fendas, de obstáculos, de tensões, de pregnâncias. Ele é inconstante, mutável, dobradiço, assim como o tempo, esse seu irmão. Tulio Pinto é um desses artistas.

No trabalho que agora apresenta aqui no Museu de Ribeirão Preto, um ballet hard core se configura entre a grande banda laranja quando ela atravessa a sala e abraça duas placas de concreto, que podem ser vistos como dois bailarinos no ponto máximo de seu equilíbrio. Já não se sabe mais quem sustenta quem, se é o pano laranja que é estirado pelas placas, ou se são elas que não pendem pelo tensionar do tecido e o apoio da parede dado a uma delas. Um fluxo parece atravessar os objetos e dragar a sala para esse campo de energia que se forma, sustentando, dinamicamente, o conjunto. Não importa quantificar os esforços, o que importa é a resultante, que rasga o espaço e instaura ali uma dimensão inusitada, a potência de um lugar que não havíamos percebido: suas dimensões, suas qualidades de altura, largura, profundidade, a densidade do ar, a intensidade da iluminação. Tudo vem à tona, torna-se mais intenso e real com a presença desses elementos tão simples e brutos, arranjados de forma tão delicada, precisa e sutil. Esse espaço já não pode mais ser percebido como algo abstrato e homogêneo, mas como algo que precisa, impele, à experiência a ser percorrido, desdobrado, investigado e percebido com todos os sentidos em seu máximo alerta, num tempo dilatado e cheio de possibilidades. E o fazemos com alegria, mesmo se existirem sobressaltos, com aquele bem estar dos recém-sarados, dos enfermos que acabaram de restituir a saúde e ver a vida com olhos novos, ávidos. Esse espaço múltiplo, aberto (seja a bofetadas, seja num suave sopro) mostra que estamos, por ora, ainda, prontos, porque, enfim, vivos.

(esse texto plagia descaradamente o prefácio de Walter Benjamin para o Drama Barroco Alemão, espero, em nome da boa causa que carrega, ser perdoada por ele, lá naquele tempo infinito, inimaginável e imensurável) Fernanda Pitta Junho / 2011