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Ecos e miragens
Ecos e miragens
Carlos Quijon, Jr. + Yudi Rafael
2025

Em 1953, o crítico brasileiro Mário Pedrosa encontrou-se com a obra do pintor indonésio Affandi na 2ª Bienal de São Paulo. Ao escrever sobre Torre Eiffel, a interpretação do artista da famosa estrutura parisiense, Pedrosa propõe uma abordagem de afinidade: em sua representação da Torre Eiffel, Affandi teria evocado o “ímpeto cromático” do pintor francês Robert Delaunay, estabelecendo “estranhas afinidades”. Ao pintar a torre, o artista indonésio dissolvia “o clima espiritual” e a “realidade físico-geográfica” que separam lugares distantes. Para Pedrosa, isso era possível graças à sensibilidade contemporânea de Affandi e de Delaunay. Uma década mais tarde, o crítico apresentou um recorte da arte contemporânea da Indonésia ao público brasileiro no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, destacando a produção de Affandi no conjunto.

Ecos e miragens toma esse encontro como ponto de partida. Âncoras conceituais, as noções de “eco” e “miragem” reforçam os efeitos de duplicação da matéria que, por meio do movimento e da refração, produzem semelhança na diferença. A exposição toma essa instância de reconhecimento do eco de Delaunay em Affandi como uma maneira de aproximar produções artísticas contemporâneas, estabelecendo conexões entre contextos do Brasil e do Sudeste Asiático. Embora a triangulação de Pedrosa se estabeleça por meio de uma afinidade estilística entre dois pintores — levando-nos a pensar sobre o trabalho do reconhecimento, ou a vontade de reconhecer —, é a obra de arte que se torna um aparato — um objeto mediado, um ambiente ou uma relação objeto-ambiente — que permite que afinidades entre lugares, em princípio distantes, se materializem.

A exposição aborda a obra de arte como um aparato capaz de ativar o trabalho poético e crítico do reconhecimento para investigar a relação entre a arte como dispositivo e as questões ecológicas em um mundo interconectado. Por meio de suas mediações, ecologias são transfiguradas em idiomas e formas, como traduções reconhecíveis e interpretáveis em diferentes contextos — ecos e miragens que possibilitam uma sensibilidade conectiva. De lugares fictícios compostos de justaposições fotográficas, passando por ressonâncias tropológicas do encontro entre autoridades coloniais e animais selvagens no Sudeste Asiático, até uma entidade tecnológica que performa um canto fúnebre de plantação, a exposição articula diferentes formas de interface entre arte e ecologia.

Ecos e miragens é a segunda edição do programa Perspectivas Transoceânicas, um programa de pesquisa inaugurado em 2023, concebido e coordenado por Yudi Rafael e apresentado pela Almeida & Dale Galeria de Arte, dedicado a investigar e conectar práticas e histórias artísticas através dos oceanos Atlântico e Pacífico.