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Elena Damiani: O Tempo Redescoberto
Elena Damiani: O Tempo Redescoberto
Antonio Gonçalves Filho
2025

Na primeira exposição individual da artista peruana Elena Damiani na Almeida & Dale, a passagem do tempo e as paisagens ancestrais das Américas e de outras regiões estão impressas em séries especialmente produzidas para sua estreia brasileira. Nessas obras, que usam tanto materiais clássicos (travertino e mármore) como contemporâneos (duralumínio), Elena explora os temas que marcaram sua singular trajetória: a geologia, a arqueologia e a cartografia.

Aos 46 anos, a artista acaba de conquistar merecida projeção internacional com sua participação da Trienal de Aichi 2025, sob direção artística de Hoor Al-Qasimi, inaugurada em setembro em Nagoya, no Japão. A mostra foi precedida por exposições internacionais como a da galeria Nordenhake, em Estocolmo, na Suécia.

Influenciada pela linguagem arquitetônica de grandes mestres, Elena passou a se interessar pela paisagem ao estudar as obras do japonês Tadao Ando (1941), do mexicano Luis Barragán (1902-1988) e do italiano Carlo Scarpa 1906-1978), três nomes que exploraram igualmente a relação harmônica entre ambiente e história.

“Sempre me interessei pelo aspecto plástico da arquitetura, especialmente a relação do arquiteto com a natureza, em particular Carlo Scarpa, cuja obra despertou minha escolha pelo travertino”, conta Elena.

Scarpa, que tinha uma relação próxima com a estética arquitetônica japonesa contemporânea, é autor do projeto de um showroom encomendado em 1957 pela fábrica de máquinas de escrever Olivetti, hoje um museu, que virou referência e tem o travertino como material dominante. Nele, Scarpa reafirmou sua ligação com a história da Itália – o travertino foi usado na construção do Coliseu e da Basílica de São Pedro.

O próprio tema da Trienal de Aichi, A Time Between Ashes and Roses (“Tempo entre cinzas e rosas”, em tradução livre), inspirado na obra do poeta sírio Adonis, propõe uma reflexão sobre o futuro construído por visões geológicas do tempo, isto é, com um olho no passado, como a obra visual de Elena Damiani, também estreitamente ligada à sintaxe poética.

A artista cita a leitura de um livro de contos do escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), O Livro de Areia, como fundamental para a construção de algumas de suas obras. Vale lembrar que um dos contos de Borges tem como objetivo declarado “prender para sempre” a atenção do leitor entre as folhas de sua alegórica trama. Exemplo dessa relação direta com a literatura é a instalação site-specific que Elena traz para sua primeira individual aqui, Relieve IV, uma quarta variação da peça exibida na trienal japonesa, que usa como materiais ônix esculpido à mão, areia, cimento branco, gesso cerâmico e pigmentos.

A produção de Relieve IV foi inspirada por Sísifo, obra do italiano Luciano Fabro (1936-2007), que apresenta uma releitura muito particular do mito de Sísifo, misturando, como era comum entre os representantes da arte povera, materiais ordinários (farinha) e nobres (mármore e folha de ouro). Fabro faz rolar um tubo de mármore sobre a farinha, retratando o mítico sacrifício de empurrar uma rocha montanha acima.

Em agosto último, Elena Damiani explorou outro processo geológico na individual sueca. Nela, Elena enfatizou o papel da natureza como um sistema vivo ao mostrar como formas minerais seguem uma transmutação dinâmica através dos séculos, ainda que elas pareçam imutáveis aos olhos contemporâneos. 

Entre os trabalhos da exposição sueca estava a obra Strata Belt, composta de 105 módulos de travertino, que remetiam a erosões em rochas sedimentares. Na exposição da Almeida & Dale, a peça correspondente é a enigmática Testigos VII, produzida este ano.

A série Testigos, segundo Elena, tem caráter bastante pictórico. Faz lembrar uma vista aérea de regiões desérticas, camadas que se repetem e registram, numa representação metafórica, a passagem do tempo

Strata Belt remete a uma obra homônima do arquiteto sueco Alvar Aalto (1898-1976). Também aqui é feita uma releitura, transformando a obra de Aalto numa estrutura modular de cilindros de travertino articulados individualmente. Na peça brasileira, 30 cilindros com a mesma rocha calcária recompõem a estratificação original e evocam uma espécie de cronologia da história do planeta.

Esses padrões, segundo os quais a natureza se organiza, definem a vida na Terra como resultante de uma misteriosa fratura, desfazendo a percepção equivocada do travertino como material inerte e estável. Para Elena, tais padrões revelam a interligação da matéria com processos subjacentes que criam nosso ambiente. A Terra, conclui a artista, é como o travertino: um organismo vivo em constante mutação.