Nesta que é a primeira exposição de Joeun Kim Aatchim no Brasil, a artista nascida em Seul, Coréia do Sul, e radicada em Nova York, EUA, apresenta obras que se constituem a partir de observações cotidianas e cenários imaginados, baseados em sensações muito reais de seu corpo durante uma estadia na casa de seus pais na capital coreana.
Em sua prática, a artista busca exercitar a retenção de sentimentos e sensações dissuadidas pelo ritmo exacerbado do nosso tempo. Repentes tidos como exagerados ou infantis, pensamentos obsessivos, fantasias românticas e fabulações com eventos e objetos ordinários dão origem às imagens que cria. Essa tentativa de fixá-los não é realizada, no entanto, sem enfrentar alguma resistência na sua transposição para a matéria, que parece conter as imagens sempre em um estado diáfano e fugidio.
Nas pinturas da série Miss Ceileingfan, feitas na sala de jantar da casa dos pais da artista, Aatchim cria retratos por meio de uma repetição exaustiva da personagem de cabelos azuis e olhos dourados. A retratada, Miss Ceilingfan, aparece como uma figura que vemos em um sonho: é familiar, mas não é exatamente alguém conhecido. Seu rosto é identificável, mas indeterminável — provavelmente formado por uma profusão de rostos já vistos, é impossível cristalizar a sua identidade. Cada pintura, um retrato feito sobre um pedaço de seda quase transparente e sobreposto a outro, faz com que a personagem mude ligeiramente de fisionomia e feição a cada mirada, assim como desloca a frontalidade do olhar na história da pintura.
Se nossa familiaridade e parentesco com essa figura é de difícil apreensão, é também a sua identidade em aspectos mais amplos: nos escapam a sua idade, sua raça e qualquer outro traço determinante. Localizada nesse espaço flutuante, a mulher torna-se também um espelho — e uma espécie de autorretrato da artista —, pouco útil em replicar a aparência de quem os olha, mas capaz de refletir um estado emocional ou mental. Parte de uma série em andamento, iniciada em Nova York em 2022, os retratos de Miss Ceilingfan foram criados pela primeira vez em um momento decisivo na vida de Aatchim e, desde então, sua fisionomia aquosa parece espelhar um caminhar em espirais: da juventude à maturidade, de Nova York a Seul e de volta a Nova York, um ir e vir sem fim.
Aatchim não pretende apresentar imagens em seu estado último de finalização monolítica, mas como “rascunhos”, modo como define conceitualmente a sua produção. Uma escolha ciente da suscetibilidade da imagem à transformação pelo tempo e pelo olhar e correspondente à efemeridade das experiências que busca registrar.
O aspecto diarístico e delicado do trabalho de Aatchim sugere embates não como atos heroicos e grandiosos, mas por meio de uma resistência fina, uma frágil persistência nas ações diminutas, silenciosas e diligentes. A grandeza de seu trabalho parece residir no acúmulo, no registro intencional de seus dias que se amonta em um eloquente gesto de resistência diante de um tempo que dificulta a elaboração da experiencia vivida e que mina a capacidade de fabulação.
Portanto, suas obras não se apresentam como algo imediato, registro no calor do momento ou representação de um evento atual. Pelo contrário, elas preservam o silêncio de um olhar interior maduro e reflexivo, bem como a velocidade “esboçada” necessária para captar esses estados passageiros. Surgindo já conjugadas no passado, essas imagens se fixam como memórias à beira do esquecimento. As obras de Aatchim não se endereçam a grande História; no entanto, não abdicam de se projetar ao futuro: sutil e constantemente, elas criam um pequeno memorial da experiência íntima.
Lucas Goulart