“(…) Naquele Império, a Arte da Cartografia logrou tal perfeição que o mapa de uma única Província ocupava toda uma Cidade, e o mapa do Império, toda uma Província. Com o tempo, esses Mapas Desmedidos não satisfizeram mais e os Colégios de Cartógrafos levantaram um Mapa do Império, que tinha o tamanho do Império e coincidia pontualmente com ele. Menos dedicadas ao Estudo da Cartografia, as Gerações Seguintes entenderam que esse dilatado Mapa era inútil e não sem Impiedade o entregaram às Inclemências do Sol e dos Invernos. Nos desertos do Oeste perduram despedaçadas Ruínas do Mapa, habitadas por Animais e por Mendigos; em todo o País não há outra relíquia das Disciplinas Geográficas.” (Jorge Luiz Borges, “Do rigor na ciência”)
Tentar aprisionar a realidade é projeto fadado ao fracasso. Assim como acontece no conto de Borges, Ana Elisa Egreja soterra quartos, salas, fachadas, escadas e janelas, projetando espaços com frutas e vegetais, animais e seres não humanos. Porque tudo não passa de realidade fantástica, dourado profano, áurea pop. Imagem e magia.
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1. Tudo começou com a verdade translúcida, prática, durável e kitsch dos pratos Duralex, desenvolvidos por uma vidraria francesa em 1945 com o propósito de substituir as tradicionais e dispendiosas louças de porcelana. Nesse momento inaugural do consumo de massa, tais serviços de mesa logo se tornaram símbolo da era da reprodução. O nome do produto vinha da expressão latina Dura lex, sed lex – “a lei é dura, mas é a lei” –, e os utensílios, com o tempo e o uso, transformaram-se em norma, até que a marca deixasse de apenas nomear um objeto: ela era o próprio objeto.
Os pratos Duralex inundaram o Brasil nos anos 1960, “cristalizando” casas, cafés, bares, botecos e escolas, oferecendo-lhes seu brilho fosco e resistente. Nas cores leitosa, azul e – sobretudo – âmbar, feitas de enxofre, ferro e sódio, essas peças de vidro temperado também viraram febre e ícone no país.
São a transparência desses utensílios e sua onipresença no tempo histórico recente que servem de matéria para a pintura de Ana Elisa Egreja nesta exposição. A partir da memória afetiva da infância, a artista faz do vidro (uma constante em seu trabalho) um duplo: tanto o suporte como o que se deixa ver através do suporte são transformados em uma espécie de teatro da realidade. Uma alegoria dela.
2. Tudo começou com os pratos Duralex em conversa com os jogos americanos. Difundido pelos estadunidenses ainda no final do século XIX, o costume remetia ao sentido de “jogar” com os lugares na mesa; logo essas pequenas toalhas individuais se popularizaram e foram incorporadas ao vocabulário doméstico como forma de proteger o solene ritual da refeição, que remete, por sua vez, ao poder da família burguesa. No entanto, elas aspiravam a mais: economizar espaços, tornar tudo mais prático e organizar o lugar de cada qual na refeição. Como cantam Os Mutantes, em Panis et Circenses: “Essas pessoas na sala de jantar são ocupadas em nascer e morrer”.
No Brasil, esses paninhos de mesa, dos mais elaborados aos evidentemente feitos de forma simples e barata, povoaram as casas de vários segmentos sociais. Aqui, porém, eles saem da sala de jantar e ganham as paredes brancas; ocupam vinte espaços na projeção deslocada da artista; e carregam, cada um, a aura de quem os presenteou a Ana Elisa. O sentido dos paninhos assim se autonomiza, e eles servem de base para as telas que fazem as vezes do Duralex: deixam ver o fundo do prato quando tudo não passa de efeito e alquimia da pintura.
3. Tudo começou com as folhas de ouro que nesta exposição dialogam com a própria história da arte e são reambientadas nos lugares urbanos, etéreos e coloridos criados pela artista. A linguagem dos tons do ouro – que aparece de forma mais ou menos condensada – foi amplamente utilizada nos ícones religiosos e nos mosaicos bizantinos, sendo aplicada nos fundos das imagens de maneira a criar uma atmosfera celestial e representar o signo do sagrado.
A utilização do ouro em folhas atingiu seu apogeu na pintura de painéis religiosos da Alta Idade Média, sobretudo na Itália. Cimabué, Duccio e Giotto inseriam ouro nos halos dos santos e nos fundos dos painéis e, assim fazendo, realizavam a proeza e difundiam a ilusão de que a luz divina estaria entrando nas obras e afrescos, e com ela o próprio mundo espiritual.
Ana Elisa se apropria do brilho dourado e cria um universo pop, que produz outro tipo de elevação: não mais os ambientes sagrados, mas o próprio cotidiano dos lares que fazem da residência uma espécie de altar. As imagens eruditas da história da arte servem agora ao universo mundano: à encenação, ao desmoronamento.
Tudo certo como dois e dois são cinco
Na exposição Horizonte dourado, os elementos acima descritos aparecem imiscuídos numa grande assemblage, que combina materiais distintos. Animais, frutas, pastilhas, vitrais, cerâmicas, painéis da antiguidade etc. são aplicados com virtuosismo e misturam histórias, tempos, memórias e sentidos. Esse é um tempo cíclico que despista seus sinais de origem ou suas marcas de pertencimento.
Há muita ironia nessas assemblages, como se as obras escancarassem o consumo de massa, o pop e o fake e, ao mesmo tempo, estabelecessem uma conversa com o próprio sistema das artes: com a proporção, a paleta de cores, a arquitetura, a citação.
O vitral e as paredes de mosaico da antiguidade entabulam uma reflexão sobre o que existiu e o que não passa de invenção. As coxinhas, tão brasileiras e dispostas em forminhas de papel barato e branco, contracenam com uma elegante base de veludo e funcionam tal qual natureza-morta; peras harmonizam com as pastilhas gregas e romanas; a cor da crina do pica-pau adorna e é adornada pelo tecido clássico em tons de vermelho e ouro.
Dispostos nos pratos Duralex imaginários estão limões, mexericas, lagostas, rabanetes, tomates, ovos, batatas, mamões, quiabos que recebem um último verniz, para assim encenarem o que agora são: pura ilusão artística. Não são mais naturezas-mortas, nature morte, na tradição francesa de ensino acadêmico. Mais lembram o still life, no adendo da escola inglesa de pintura, que ainda encontrava vida nesses objetos não humanos dispostos nas mesas e nos espaços internos das residências, para o desfrute da observação e da demonstração de técnica, arte e engenho.
A maior referência de Ana Elisa Egreja, contudo, talvez sejam os artistas holandeses do século XVII. O Século do Ouro Holandês é reconhecido por seu realismo detalhado, aliado à representação da vida cotidiana, das paisagens, das naturezas-mortas, das cenas de gênero e dos retratos, com pouca ou quase nenhuma ênfase em temas religiosos. Esse era o novo templo da burguesia mercantil holandesa, emancipada pelo comércio.
Trata-se do domínio de temas domésticos e dos interiores que encarnam outras formas virtuosas de pintar. Não mais os ambientes sacralizados, e sim o território do lar, os detalhes dos tecidos, das roupas, das cores e dos adereços. A própria textura vira elemento, que, por sua vez, vira representação.
Nas mãos da artista, as naturezas-mortas são humanizadas pelo uso dos jogos americanos, que introduzem a irregularidade de seus tecidos, os gostos e as subjetividades de seus antigos donos. Viram objetos de arte, cuja beleza é feita do gosto mais cotidiano e comensal.
Nas pinturas de interior de maior dimensão presentes nesta exposição, Ana Elisa também mobiliza e desloca outra técnica tradicional da pintura, o trompe-l’oeil – “engana o olho”, literalmente. Já conhecido na Antiguidade, o trompe l’oeil ganhou maior expressão no período barroco, e é apropriado pela artista, que joga com os truques de perspectiva e cria ilusões óticas, com uma beleza que se desfaz da realidade.
Originalmente dispostos em murais, com o tempo os trompe-l’oeil adquiriram uma feição utilitária. Passaram a simular janelas, portas e corredores com o objetivo de aumentar visualmente espaços de sociabilidade do interior das casas da elite. Entravam no lugar de algo e, fazendo uso das técnicas clássicas da Renascença, exploravam os próprios limites entre imagem e veracidade.
Ao voltar a essa tradição, Ana Elisa cria espaços que são e não são imaginários. Visita os lugares que quer retratar, fotografa-os e esquadrinha-os, bem como os inventa e simula, para então explodir essa retórica visual que costumava dividir cartesianamente ficção de não-ficção.
A artista pinta em escala 1:1, um elogio à “verdadeira grandeza” (e que remete ao conto de Jorge Luiz Borges), para fazer com que os espectadores entrem na pintura, estejam sobre a mesa ou com o prato na mão. Tudo se apresenta em seu tamanho natural nessa pintura supostamente realista que faz parecer verdadeira até mesmo a mais fantástica das cenas.
Afinal, aqui tudo é e não é autêntico. A janela em tamanho natural, em escala real, mas que está cheia de micos dourados e adesivos. A casa modernista com vitrais coloridos, mas que dissipam sua luz nas paredes. O painel japonês que ocupa o segundo plano para que as onças e os mirtilos (quase) tropicais reinem. O azul da casa real francesa aplicado no tecido da mesa, mas recoberto com as pombas que vivem nas cidades. Há também muita citação à natureza brasileira, com guarás e melancias invadindo as telas e fazendo dos trópicos uma espécie de convenção visual. A artista também simula ouro, por toda parte. Pinta luz e devolve dourado.
Há sobretudo excesso na arte única de Ana Elisa: na escala imensa ou diminuta, nos pratos que são telas, no Duralex que é pintura, no que acontece no museu e aqui ocorre na parede de uma sala qualquer, no dourado que se infiltra por toda a exposição e nos lembra que até nas igrejas medievais “nem tudo que reluz é ouro”.
De real, sobra apenas uma conversa erudita e refinada com a pintura: com formas, cores, luz, perspectiva, proporção, espaço, densidade, tinta e horizontalidade. Nesta exposição, são as mesas e as toalhas que marcam a linha do horizonte.
Essa é a alquimia de Ana Elisa Egreja, dona de toda a magia que envolve o ato de imaginar. Uma escada criada ocupa o lugar daquela que a artista efetivamente encontrou; uma janela pintada se sobrepõe a outra que lá está, efetivamente; uma natureza-morta sai da mesa da artista para se projetar, de forma infinita, na pintura que inclui jarras de cobre e cestas de palha; um prato de Duralex dura tão somente na tela ovalada que passa a ser metonímia de si. Nada é verdade na pintura. É a arte que dá ar de perene ao que nasceu para ser efêmero. Tudo brilha tal qual ouro, mas é pó.