Do século XVII até o fim do XIX, a Pintura de História era o gênero fundamental. Os temas religiosos, mitológicos, alegóricos ou literários eram encomendados para promover a honra do Estado, da Igreja e da burguesia. Por meio da Pintura, inscreviam-se cenas no imaginário popular que sedimentavam os interesses morais, políticos e intelectuais de quem disputava o poder. Traçava-se a linha que separava artesãos de artistas: exigiam-se manejo da composição de múltiplas figuras; domínio da anatomia, da perspectiva, da expressão das paixões; e, sobretudo, conhecimento erudito. Se o objetivo da História é apagar a narrativa dos derrotados, esse tipo de pintura o cumpria com maestria, tanto pelo tema como pela técnica.
Thiago Martins de Melo desloca o gênero que era emblema próprio da hierarquia acadêmica e o inscreve em uma lógica em que nenhuma pintura vale mais do que a outra. Monumentaliza os insurgentes, os mortos da colonização, enquanto monstrifica aqueles que outrora encomendariam pinturas sobre sua vitória. A partir de cosmologias do Sul Global, constrói uma obra em que a violência colonial, o mito e a resistência se dão como matéria pictórica excessiva. Na superfície da tela, algozes, corpos subjugados e forças míticas contracenam de maneira anacrônica, em tempos que nunca se cruzaram. Cenas justapostas, simultâneas, funcionam como planos e contraplanos em um panorama tensionado pela profundidade narrativa e pela densidade matérica. Por vezes, Thiago dá vazão a esse acúmulo de histórias pelo vídeo, como se a pintura não bastasse. Não é o que acontece agora.
As grandes telas hipersaturadas por camadas de impastos, figuras, sobreposições e esculturas cobertas de tinta a óleo convivem com uma série de trabalhos em pequeno formato. Diante dessa profusão, as pequenas pinturas operam por subtração — são descoladas da narrativa sincrônica da Pintura de História. O que na tela grande se lê como simultaneidade, no fragmento se abre em tempo: cada cena reclama o próprio instante, e o percurso do espectador monta entre elas uma leitura que já não obedece à ordem do relato.
Isoladas, são mais do que têtes d’expression — exercícios acadêmicos de fisionomia, estudos a serem incorporados à narrativa completa do panorama pintado. Seu gesto rápido e urgente acaba intensificado nos movimentos expressivos, feito brasa ígnea. O instante suspenso, em espasmo, gera significado pelo choque, fagulha que transforma o fogo-fátuo em mito. No intervalo de uma pintura e outra, o sentido se produz pelo desencadeamento de conflitos. O minúsculo é posto contra o monumental, o rosto isolado contra a tela saturada, a vasta fogueira contra a noite escura.
Na pintura de Thiago Martins de Melo, esse tipo de montagem de atrações se arma também pelo contraste de procedimentos antes ditos incompatíveis. Instaura dissenso na própria fatura. Quando espremida diretamente do tubo, a tinta dispara como linha sobre o gesto detalhado que tende ao realismo. Pinceladas ágeis delimitam a instabilidade das cenas. Nos céus, a escuridão é rasgada pela temperatura dos vermelho-arroxeados, do rosa luminoso que rompe o breu. A noite disputa com o dia. O tom de hora incerta coloca a pintura em estado de vigília. A chama aquece os corpos de tinta, a fogueira colore o fundo com fumaça, a paisagem tremula em uma miragem.
Sem hierarquia, a superfície evidencia as figuras no mesmo plano e avoluma a tinta até o limite. O óleo em relevo avança sobre o suporte, o objeto colado interrompe a tela, a imagem ganha corpo e peso. Desafia o enquadramento específico da pintura bidimensional, rígida e inerte, lateralizada na parede. Insuficiente para figurar o mundo, a tinta se lança no espaço. Na guerra dos vivos, o impasto incorpora o invisível. O fogo funde o bronze; a tinta a óleo transmuta a forma da resina adensada com pó de ossos.
A imagem se projeta como uma aparição. Encantados surgem pelas faturas e velam a passagem que une mundos. No carnaval das almas, Eros e Tânatos dançam entrelaçados. A paixão ainda arde no caos da morte. Através da luminosidade crepuscular, desvela-se a encantaria. A pintura se faz piaga — guardiã de zonas fronteiriças, espelho de um mundo em brasa, em um tempo fora do tempo.
Chico Soll