Conforme esses impérios decaíram, uma segunda modernidade surgiu no horizonte. No contexto pós-colonial recém-independente do Sul Asiático, texturas e climas regionais estavam moldando novas identidades a partir de materiais familiares e estrangeiros. Encorajadas pela possibilidade de um recomeço do zero, imaginações utópicas floresceram e organizações como o Movimento dos Países Não Alinhados surgiram. O concreto cinza, áspero e duro (relativamente barato), reforçado com aço, tornou-se o material humilde para ambições elevadas. A superfície bruta foi suavizada por um jogo de padrões recorrentes de luz e sombra, e adornada com plantas e árvores nativas e não nativas. Essas estruturas estrangeiras foram deixadas à solta em exuberantes jardins florestais, reivindicando um caráter selvagem ao qual os jardins coloniais, impecavelmente bem cuidados, haviam resistido.
Adivinhar a forma se tornaria uma prática permanente entre este grupo de artistas, recalibrando e destilando imagens, libertando-as de seus excessos. Uma escassez ponderada surge de longos processos laboriosos. Para entender totalmente a prática de Anwar Jamal Shemza, é fundamental ver seu trabalho artístico em combinação com sua prática de escrita. O artista fez experimentos consistentes com estruturas como se fossem linguagens, reformulando-as e editando-as até chegar a uma poesia da forma. Suas influências foram as mais diversas — desde motivos islâmicos até a arquitetura Mugal, de tapetes a literatura — mas mantiveram a tensão entre estéticas islâmicas e ocidentais. Uma multiplicidade de energias, geografias e sistemas é empregada no trabalho de Lubna Chowdhary, enquanto ela busca novas maneiras de encontrar seu eu diaspórico e examina noções de pertencimento. Nascida na Tanzânia de pais imigrantes do Paquistão, que acabaram se instalando no norte industrial da Inglaterra, as formas em suas obras tomam emprestado da arquitetura, da publicidade, da indústria e de iconografias devocionais.
Azulejos de vários formatos, fabricados industrialmente sob encomenda, são vidrados e coloridos um a um. Padrões geométricos se estendem horizontalmente, podendo ser lidos como linhas de horizonte urbanas. A iconografia única de cada azulejo, quando eles são empilhados, transforma esses símbolos em linguagens: petróglifos, diagramas de circuitos, plantas de cidades.
Do outro lado do oceano, e um contemporâneo de Shemza, Balraj Khanna foi um artista autodidata que se mudou para a Inglaterra para estudar literatura, com a guerra entre a Índia e a China como pano de fundo. Baseado em referências de sua infância e de sua vida cotidiana, Khanna começou a criar abstrações a partir da natureza. Soltas como folhas levadas pelo vento ou como a própria música, suas formas cruzam a tela feito uma paisagem fugitiva, reverberante. Às vezes, essas formas escondem as referências que as inspiraram: como pipas preenchendo um céu, ou formas lúdicas vegetais e animalescas. Shemza e Khanna compartilham de uma profunda afinidade pela qualidade musical e notacional das formas e da linguagem, enquanto libertam a pauta de sua rigidez. Linhas manuais imperfeitas e erros trazem para sua abstração uma qualidade profundamente humana.
De modo semelhante, notações podem ser lidas na prática de Ayesha Sultana, em que marcas, respiração e gestos se tornam rítmicos. Utilizando grafite, em meticulosas camadas espessas sobre o papel, Sultana põe em primeiro plano o gesto, o material e a distância. A forma é espaço e vice-versa. Sultana se interessa por fissuras, onde o plano da memória-experiência se racha, evidenciando o que é periférico ou invisibilizado pelo tempo e pelas circunstâncias. Às vezes, essas obras surgem de visões destiladas no subconsciente: familiares, porém difíceis de situar com exatidão. Essa fluidez é alcançada por meio de uma gama de ações — incisões, dobras, camadas, traçados, escavações — até que a artista chega a uma experiência, uma paisagem afinal.
Destilada (e inspirada) a partir da expressão “Modernismo Tropical”, fundindo os estados de “ser tropical” e “tornar-se moderno”, a exposição emprega referências de tempos profundos — de uma época em que estrelas e desenhos lineares eram as primeiras linguagens civilizatórias, até a formação de novos vocabulários estéticos e nacionalistas na segunda metade do século XX. Examinando as afinidades entre nossas regiões e aqui no Brasil, onde estas obras servem como introdução ao contexto, esta exposição examina a transmissão de signos e imagens enquanto eles se entrelaçam com passados ancestrais e futuros possíveis.