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Nossa Senhora do Desejo
Nossa Senhora do Desejo
Lisette Lagnado
2025

Pedro Moraleida Bernardes (Belo Horizonte, 1977-1999) deixou um vasto acervo de desenhos, pinturas, textos e experimentos sonoros. Manteve dezenas de cadernos com anotações, listas de filmes e comentários sobre o que seria seu programa de artista. Pode-se dizer que projetou sua própria genealogia, buscando pertencer à família de Baudelaire, Rimbaud, Artaud, Fassbinder, Nietzsche, Foucault, Guattari, Bispo do Rosario, Basquiat, Crumb, entre muitos. Mais que ídolos, devem ser vistos como os interlocutores conceituais de um jovem artista cujo período de existência durou apenas 22 anos, metade dela vivida sob a ditadura militar.

Não espanta que sua pintura tenha sido associada à figuração do neoexpressionismo alemão (também apelidada de “Novos Selvagens”). Pedro Moraleida se apoia na relação de proibições no Antigo Testamento para pintar abominações e hibridizações – humano-animal, feminino-masculino, peixe-ave –, cada uma delas fonte de temores inscritos nos textos bíblicos e perpetuados pela civilização ocidental. É o caso dos lagartos, toupeiras e camaleões designados como “impuros” por não obedecerem à separação divina em seres da água, terra e ar. Entre Godzilla e a ovelha Dolly, Mickey e Super-Homem, criaturas monstruosas exibem o poder ameaçador da falocracia.

Gostaria de conectar essa produção com outra temporalidade, independente da extensão de sua vida material. Adotar a perspectiva crítica da desobediência aos regimes normativos e não somente da teoria da arte; ir em busca das inferências políticas – é o que tenciono fazer: apresentar um Moraleida antes extemporâneo que anacrônico.

A hipótese conceitual para formular a mostra Nossa Senhora do Desejo encontrou, na pintura da crueldade, o princípio vital das mensagens revolucionárias de nosso tempo. Tão intensa quanto extensa, a incidência de Antonin Artaud sobre Pedro Moraleida reforça a opção por uma vida intensa, livre da coerção do Pai. O trabalho da curadoria consistiu em cotejar o conceito de “corpo sem órgãos” com a série homônima do artista mineiro, a fim de convidar artistas de diferentes gerações e práticas a rodopiar junto. Aqui, Artaud abre passagem para Moraleida que, por sua vez, hospeda diálogos imaginários. 

Nossa Senhora do Desejo investiga quais outras possibilidades narrativas inferir a partir dos temas intrínsecos ao “corpo sem órgãos”: capitalismo patriarcal, psiquiatria, farmacologia, saúde mental, guerra planetária, direito à vida e vida artificial. Não trabalhar apenas com evidências, mas com índices, intuições e vislumbres, porque o desejo se desloca; porque, em algumas pessoas, a urgência é um estado permanente.

Nossa Senhora do Desejo é também a entidade escolhida para guiar a exposição, com o objetivo de trazer as perspectivas tanto da falta como do sonho, e alcançar um cuidado de si, uma ética e uma estética da liberdade. 

Muita gente abriu sua oficina criativa nesse grande exercício para “sair do inferno”, como diria Artaud. Agradeço a generosidade de tanta entrega, que proporcionou a vertigem da experiência coletiva de sentir-se viva.