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O rio no qual se nada com os olhos
O rio no qual se nada com os olhos
Divino Sobral
2025

Realizados com a delicada leveza da aquarela, os trabalhos de Genor Sales guardam densidade e força incomuns, materializadas na sutil articulação de elementos simbólicos provenientes das camadas profundas de sua memória.

Suas obras aparentam ser geradas por uma misteriosa energia que nasce de solo ancestral e que se manifesta como herança de seus antepassados de localidades nordestinas como Codó, situada no interior do Maranhão e conhecida pela grande quantidade de templos religiosos de matrizes africanas, e Exu, cravada no sertão de Pernambuco e famosa por ser a terra natal do rei do baião, Luiz Gonzaga – aparentado em segundo grau da avó materna do artista. Genor cresceu em ambiente familiar repleto de musicalidade, onde predominavam ritmos tradicionais como forró, embolada e repente, entoados junto a cantos de caboclos e pontos de entidades e de orixás. Amadureceu ouvindo as histórias que a matriarca da família lhe contava sob uma frondosa mangueira plantada no quintal da casa, na periferia de Goiânia. 

É o vigor dessas raízes que dá sustentação à sua obra; suas memórias, de certa maneira, agem como fermento fazendo crescer o volume de sua massa criativa. Há um estranhamento que parece vir da impressão de que o artista expressa a saudade daquilo que não viveu, apenas ouviu da boca de sua avó. Há uma escuta que alimenta a formação de sua memória, instância psíquica em que ocorrem movimentos de superposição dos tempos com a diluição e o turvamento das fronteiras entre quem foi, o que é e o que será, estados que se interpenetram. Operando dentro de um sistema de conhecimento que propõe que o futuro se volte à ancestralidade, o imaginário do artista circula no fluxo de um rio simbólico e afetivo que escorre, por meio da aquarela, de sua mente para o suporte do papel, e deste para a mente do observador.

Genor Sales é um artista racializado e de origem periférica cuja linguagem, no entanto, não aborda os temas usuais relacionados à denúncia da exclusão e da violentação, recorrentes na narrativa afrodiaspórica. Sales encontrou seu caminho no lirismo contido no modo particular como manuseia os meios plásticos e na maneira sincera como traz para a substância poética das obras a matéria cotidiana da vida familiar, filtrada e depurada pelas camadas das memórias coletiva e individual.

Há tempos que o artista trata da criação de um ambiente aquoso em sua obra, evocando um rio que carrega muitos outros rios por meio de um arrolamento de seres, saberes, objetos e práticas relacionadas à água. Nas obras desta exposição encontram-se representações de objetos endereçados à contenção e ao tratamento da água, tais como as antigas ânforas que nos acostumamos a ver nas culturas mediterrâneas, os filtros de cerâmica à vela tão populares no Brasil e os hidrantes que levam água ao espaço urbano.

Em alguns dos trabalhos aqui reunidos, Genor Sales exibe interesse pela eletricidade. Pinta uma inusitada pesca que acontece na rede elétrica suspensa por postes em substituição à tradicional rede tramada com fios de nylon. Em outros trabalhos cuja composição remete a uma aquarela de Debret, há, dependurada em padrões de energia elétrica, uma rede de descanso que contém peixes que parecem recentemente pescados. Estranhamente os padrões são acompanhados por garrafas contendo água, fazendo referência a uma crendice empregada para economizar energia elétrica, vigente na periferia de Goiânia na década de 1990. Esses trabalhos apontam para o estreito vínculo entre água e energia, ao mesmo tempo em que mesclam referências eruditas e populares.

No projeto do artista ao longo dos anos foram representados peixes das bacias hidrográficas Amazônica, do São Francisco e do Araguaia e Tocantins. Nesta exposição, constrói-se uma narrativa visual que alinhava pesca, rede, anzol e peixe, criando ramificações polissêmicas, que trazem tanto uma crítica social (por meio da representação da sopa de cabeça de peixe, que comenta as condições alimentares das camadas carentes da população brasileira) quanto uma reflexão sobre a incomunicabilidade da sociedade, ecoando a fala de Padre Antônio Vieira no Sermão de Santo Antônio aos peixes: “Já que não me querem ouvir os homens, ouçam-me os peixes”.

Genor Sales aborda ainda a delicada relação entre os peixes e as plantas recorrendo a conhecimentos e mitologias guardadas pelos povos das florestas, que unem de maneira indissociável a fauna, a flora e a humanidade. Junto ao detalhe do hidrômetro, Sales pinta ramos de folhas de Timbó, erva usada na tradição da pesca de indígenas e ribeirinhos para diminuir momentaneamente o oxigênio da água e assim amansar os peixes. Nas aquarelas de tonalidades auríficas que tratam do mito indígena da origem do peixe dourado, considerado uma espécie de Midas pelos povos originários, aparece um galho da Flor de Carajás (Ipomoea Cavalcantei), espécie endêmica da Floresta Nacional de Carajás, região no sudeste do Pará que abriga Serra Pelada, onde houve intenso garimpo nos primeiros anos da década de 1980. O artista representa um galho da Flor de Carajás ligando as partes separadas de um filtro de água, às figuras do peixe dourado e de uma peneira que recorda a atividade garimpeira.

Alguns objetos cotidianos complementam o repertório representado pelo artista, que preza pela simplicidade da forma e pelo amplo uso popular, como o tamborete de madeira com assento de couro, o dependurador de utensílios, uma coleção de abridores de lata improvisados com diversos materiais e até uma velha faca sem cabo. Relacionados entre si e dispostos no plano flutuante do trabalho de Genor Sales, esses objetos adquirem novos sentidos.

Nesta exposição, Genor Sales desdobrou um mesmo assunto em pequenos agrupamentos de trabalhos, criando sequências que desenrolam tópicos específicos. Do ponto de vista formal, os trabalhos aqui reunidos apresentam um movimento de expansão dos caminhos cromáticos do artista, que agora busca abrir sua paleta afastando-se das cores turvas e pardas anteriormente usadas para se aproximar dos azuis e dos verdes e assumir os amarelos e os laranjas iluminados pela luz crepuscular do cerrado goiano a dourar, durante os períodos de seca, as águas dos grandes rios. A técnica singular empregada para cobrir as áreas de fundo, deixando aparentes pequenos pontos de suporte descobertos de tinta, ressalta o gesto miúdo, flexionado quase na escala da escrita sobre os suportes em formatos não padronizados pela indústria, cortados na medida do sentimento do artista.

Aqui, o ambiente aquoso do rio no qual se pode nadar com os olhos está representado como paisagem, hidrografia, associação de objetos, conjunção de animais e plantas, que convocam o olhar a exercitar sua potencialidade e sua vocação por meio da metáfora do nadar, que concede primazia à relação retiniana com a obra de arte, e convida o espectador a se permitir boiar na superfície do papel e a mergulhar na profundidade do rio caudaloso que escorre da obra de Genor Sales.

O rio no qual se nada com os olhos nos faz lembrar das lições de Ailton Krenak sobre os rios. O líder indígena ensina que os rios estavam aqui antes de nós e que suas águas falam, cantam e produzem música – apesar de termos desaprendido a ouvi-la –, assim como pedem escuta. Ele mostra como correm os rios da memória e os rios vivos, e revela os rios-nós que ensinam que a beleza infinda da água reside em sua potência para tomar diferentes caminhos, assim como a arte.