Somos obcecados pelo chão. Atribuímos a nós mesmos uma identidade com base no pedaço de terra que pariu nossa existência. Medimos a propriedade privada de acordo a geometria do solo. Dizemos ter raízes que nos prendem a ele. E, no entanto, nosso verdadeiro espaço de vida não é o chão, mas o céu: na verdade, todo o espaço que existe, das solas de nossos pés aos confins da Via Láctea e muito além, já são o céu. Não somos seres terrestres: tocamos a terra com nossos pés, porém nadamos incessantemente no mar etéreo do céu, onde suas ondas são mais fortes e quebram contra nosso planeta. Não há quebra na continuidade, nenhuma mudança radical na substância. Somos todos simplesmente coabitantes do Sol e dos outros astros. Fingimos estar presos à terra, mas só existimos porque carregamos conosco uma porção do céu que nos cerca, que possibilita nosso movimento e—o que é mais importante—nossa respiração. Estamos sempre no céu, ainda que, durante a maior parte do tempo, ocupemos apenas uma mínima porção dele, a parte que domesticamos. E a ideia de que o chão é separado e oposto ao céu, de um espaço ao qual seríamos definitivamente atribuídos, é, no fim das contas, só uma ilusão da gravidade: não existe chão, só existe céu, e o que chamamos terra não é senão um céu densificado que nos atrai mais fortemente que o restante.
Diferentemente do que ocorre no solo e na terra, onde o movimento é lento e frequentemente interrompido por um excesso de resistência, no céu, tudo se define por sua capacidade de se mover e se transformar. Por esta razão, não há vestígios duradouros no céu: o movimento se conclui sem deixar resíduos e cada ação é uma metamorfose. É pela mesma razão que ventos e nuvens não possuem face ou história: para eles, é impossível separar o passado do presente. O futuro, também, existe apenas como aura do presente: é impossível projetá-lo para além de poucos minutos seguintes.
O que seria uma arte que pudesse construir suas obras utilizando somente ar e luz? Que somente habitasse o céu? O que seria uma obra que não representa a luz, mas faz com que ela exista e vibre de maneira diferente? E o que seria uma pintura que empregasse como seu pincel os ventos que animam a atmosfera terrestre? Em Omẽ Mahsã, Daiara Tukano parece levar a prática artística contemporânea a um limiar inédito, ou que pelo menos ainda não parece ter sido catalogado nos arquivos terrestres das formas e modos por meio dos quais as culturas deste planeta tentaram lhe moldar. Ao enxertar a tradição mitológica dos espíritos do povo Yepá Mahsã em uma tradição gráfica modernista, a artista parece reinventar a linguagem da abstração de dentro para fora: as formas puras da cor já não se referem a um mundo invisível, mas são sua própria presença, a maneira pela qual os espíritos escolhem se fazer perceptíveis. É como se a arte fosse invocada não só para modificar a maneira como observamos a realidade, mas para transformar a ordem cósmica em seu nível mais profundo.
É neste sentido que a presença obsessiva do tema do pássaro deve ser compreendida. O pássaro é vida que torna a distinção entre céu e terra completamente inoperante. Não se trata de transformar a arte numa espécie de repertório ornitológico—como Pisanello, na alvorada da modernidade europeia, em algum sentido sonhara fazer. Ao invés disso, trata-se de redefinir o que é um corpo, o que é uma identidade e qual a relação une o ser vivo ao espaço: não mais uma atribuição definitiva, mas um evento, uma ondulação visível num material—ar, luz—que normalmente não deixa rastros.
Os pássaros nos lembram disto: o cosmos não é um espaço contínuo, e sim um campo atravessado por tensões—zonas de maior e menor densidade, correntes que atraem e correntes que desprendem. É precisamente nesta dança de atrações desiguais que eles se movem, jamais escolhendo uma direção definitiva, habitando cada ponto do céu com a mesma leveza com que acreditamos habitar uma única porção de terra. Se o céu não tem limites e não deixa resíduos, se cada movimento nele já é uma metamorfose, então a obra que retira dele sua forma e cor não pode ser um objeto fixo a ser contemplado: é, ao invés disso, um limiar, uma porção de atmosfera tornada visível por meio da qual os espíritos do povo Yepá Mahsã continuam a respirar conosco. Olhar essas cores, portanto, não significa observar à distância outro mundo, e sim descobrir—com a surpresa de alguém que percebe que sempre esteve nadando sem saber—que nós também sempre fomos céu.
Emanuele Coccia