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pintor preto, figuração branca.
pintor preto, figuração branca.
2026

Maxwell Alexandre transforma completamente o espaço da Almeida & Dale Fradique em pintor preto, figuração branca., sua primeira individual na galeria. A exposição resulta de desdobramentos conceituais e plásticos de dois conjuntos de trabalho célebres: Clube, apresentado pela primeira vez no Museu Histórico da Cidade, no Rio de Janeiro (2024), e Cubo Branco, conhecido pela obra Galeria n.2, concebida para a 36ª Bienal de São Paulo (2025).

O início da série Clube se deu em 2020, quando Maxwell passou a frequentar o Clube de Regatas do Flamengo, na Gávea, bairro nobre do Rio de Janeiro e vizinho à Rocinha, favela onde o artista nasceu e cresceu. Foi nos pátios do clube que Maxwell voltou sua observação aos corpos brancos, criando um ponto de inflexão em sua obra — até então marcada pela representação exclusiva de pessoas pretas — que culmina na elaboração do conceito de “figuração branca”, marco dessa nova exposição.

Os altos muros do clube oferecem a seus membros e frequentadores um “oásis” — aparentemente apartado das contradições e complexidades do entorno, mas que, ao mesmo tempo, explicita as estruturas de poder presentes em cenas pacíficas de banhos de sol e brincadeiras em piscinas.

Embora Maxwell chame seus personagens brancos de “banhistas da Gávea”, o Clube do Flamengo torna-se metáfora para abordar todos os espaços “de bem-estar, lazer, fartura, segurança, tranquilidade, boa arquitetura, bom design, boa arte, boa comida”, como escreve o artista.

Ninguém chama a representação do homem branco de figuração branca. Todo mundo conhece a representação do homem branco, em pintura, apenas como figuração. O gênero mais exaurido e canonizado da história da arte é neutro, ainda não recebeu uma classificação. Uma vez que a representação do homem branco é entendida como o avatar da humanidade, ela não poderia ter sido classificada e racializada.

Maxwell Alexandre

O gênero “figuração branca” surge, portanto, como uma operação conceitual na pintura de Maxwell que torna visível a branquitude no campo da arte. “Se existe figuração preta, há de haver uma figuração branca”, destaca o artista.

Maxwell Alexandre conquistou reconhecimento internacional com as séries Pardo é Papel e Novo Poder, nas quais retratava, respectivamente, cenas cotidianas da favela e pessoas pretas em espaços como museus e galerias de arte. Com a série Clube, Maxwell muda radicalmente o tema de suas pinturas, que agora deslocam os corpos brancos de um local de neutralidade, pondo em questão uma relação de séculos da história da arte entre o “pintor preto” e o objeto da pintura, a “figuração branca”.

A série Clube desnaturaliza a representação do homem branco na pintura ao nomear o gênero como “figuração branca”. E é por meio da suposta neutralidade do Cubo Branco que Maxwell nos aponta determinados valores estabelecidos no sistema das artes. Segundo o artista, a “figuração branca” que faz não é neutra: tem a intenção de racializar o corpo branco.

Desde o início da série Clube, é possível verificar os esforços do artista em inventar um novo gênero — tal desejo é evidenciado no uso reiterado da expressão “figuração branca como afirmação” em seu discurso.

No léxico da série, a ideia de “afirmação” se desdobra em dois conceitos: “intenção” e “aparência”. A “aparência” é como se percebe, pela visualidade, a raça da figura pintada. Nesse sentido, Maxwell Alexandre designou quatro determinações preliminares para que o “pintor preto” possa fazer a “figuração branca como afirmação”:

1. O “pintor preto” deve pintar a “figuração branca” sempre o mais branco possível. Brancura é uma evidência fundamental para a visualidade da raça na “figuração branca”.

2. O “pintor preto” deve evitar pintar o homem branco na sombra; se o fizer, deve se certificar de iluminar ao máximo as partes de seu corpo para que sua pele branca se revele, sem que haja dúvidas de que se trata de uma pessoa branca.

3. O “pintor preto” não deve brincar com os fenótipos. Sabemos que existem pessoas brancas com nariz largo e cabelos cacheados, mas o “pintor preto” deve evitar essas características na representação do homem branco. O “pintor preto” deve optar por retratar suas figuras brancas com narizes finos, alongados, cabelos lisos e penteados para trás.

4. Se o “pintor preto” ainda tiver dúvida da racialidade do homem branco ao pintá-lo, deve usar o recurso do olho azul. Uma figura de olhos azuis muito provavelmente resolverá a distinção da raça branca.

Sobre o conceito de “intenção”, Maxwell declara que “não é possível identificar a ‘figuração branca como afirmação’ se ela não tem esse propósito. Quer dizer, a figuração deve ser nomeada como ‘figuração branca’”.

A maior vontade de “intenção” na série Clube é, portanto, a classificação da “figuração branca”. É na série Clube que a representação do homem branco, que manteve sua neutralidade ao longo de toda a história da arte, passa a ser nomeada.

Para a produção da “figuração branca como afirmação”, é necessário tanto que a “aparência” esteja bem resolvida como que a “intenção” esteja evidenciada. Trata-se, então, de uma sistematização deliberada da “figuração branca” na obra do “pintor preto”, em que a “figuração branca” não é pontual, nem espontânea, nem paisagem. “Ela é a afirmação totalitária, o tema central”, encerra o artista.