I. Metapintura e mutação
Para Rodrigo Andrade, pintar é colocar a pintura em questão. Ao longo de mais de quatro décadas, sua prática se sustentou num duplo movimento: tomar a pintura como meio e, simultaneamente, como problema, testando seus limites e questionando sua própria razão de ser. Em seu processo, a história da arte é absorvida não como mera referência ou ponto de apoio, mas como matéria viva a ser digerida e devolvida ao mundo sob novas configurações. Do vernacular ao erudito, do expressionismo ao rigor construtivo, da abstração à figuração, tudo é metabolizado sem hierarquia prévia, como substância de um trabalho que recusa a estabilidade.
É possível falar, então, de uma metapintura — uma pintura que pensa a si mesma enquanto acontece e que encontra no fenômeno da mutação tanto seu método como seu assunto. Entretanto, se por um lado há na obra do artista uma abertura radical e a assimilação voraz de inúmeros estímulos, por outro persistem irrevogáveis os seus fundamentos. O gesto carregado, a densidade matérica, as camadas espessas de tinta e os grandes blocos cromáticos — que são ora manchas de cor, ora sinais gráficos ou figuras reconhecíveis — constituem, a despeito de todas as variações, uma dicção inconfundível. Nessa trajetória de permanente renovação, segue constante a vontade de dar contorno às forças — de ordem e de caos, de construção e dissolução — que movem a vida, bem como o compromisso com a investigação do estatuto histórico da pintura e de suas possibilidades como ferramenta contemporânea.
II. Matéria, imagem e sensação
Neste novo conjunto de trabalhos, o impulso ganha uma síntese particular. As pinturas nascem do modo específico de o artista lidar com a tinta e de construir imagens, como meio de mobilizar uma experimentação material, sensorial e subjetiva. Cada obra parte de certos princípios compositivos — uma economia visual que define a estruturação do espaço, a posição das figuras e as relações cromáticas. A esses preceitos, no entanto, justapõe-se a dimensão física da matéria-prima, isto é, o peso e o comportamento imprevisível da massa de tinta sobre a tela. O que se segue é um embate direto com a materialidade caótica.
São obras que articulam frontalidade gestual, intensidade cromática e espessura matérica, criando tensão entre corpo, imagem e evocação. Volumes de tinta saltam da superfície como corpos instáveis, impondo sua fisicalidade ao passo que instauram atmosferas, sugerem narrativas e, sobretudo, deflagram sensações por meio da combinação entre cor e forma. Cada figura que irrompe — e cada estrondo cromático, cada contraste — traz consigo uma energia própria, capaz de redefinir todo o ambiente da composição. Se essas pinturas são terrenos de confronto entre controle e acaso, o resultado nunca é o triunfo de um sobre o outro, e sim uma terceira coisa: um espaço tenso e magnético, onde algo parece estar prestes a acontecer. É essa metamorfose iminente que confere às obras sua estranha vitalidade.
III. Salas de jogos cheias de reflexos
O título Sala dos espelhos faz referência à música “Room Full of Mirrors”, de Jimi Hendrix, e evoca um ambiente saturado de reflexos e de possibilidades: a um só tempo lúdico, inquietante e opressor. Remete a um estado mental de intensa reflexão e de incontornáveis transformações. Para Andrade, interessa situar a pintura como campo existencial, justamente sobre a linha tênue dessa ambiguidade: a sala dos espelhos como atração popular, imagem de uma cultura comum — meio vulgar, com algo de pop —, mas também recinto onde o ordinário se torna perturbador, como num cenário de um thriller psicológico.
Há aqui, também, a dimensão do jogo. Trata-se de um jogo de espelhos: um jogo espacial com regras determinadas. A perspectiva, com seus pontos de fuga definidos — muitas vezes centrais —, arma nas pinturas uma estrutura quase opressiva, uma ordem visual rigorosa que o artista estabelece para então combater. Cabe à matéria e às figuras que invadem a tela fraturar essa hierarquia visual e redefinir a lógica da composição, tal qual um reagente químico altera a natureza de uma solução.
IV. Espelhos, cavernas, mobiliários, fantasmas e outras alegorias
Ainda que a pluralidade de caminhos seja uma condição intrínseca à prática de Andrade, neste conjunto de pinturas é possível reconhecer três vias de síntese visual. Num primeiro grupo, surgem interiores de relativa profundidade: espaços liminares povoados por espelhos de molduras sinuosas, cavernas que se abrem nas paredes, sofás, abajures e outros elementos que oscilam entre o familiar e o espectral. Remetem, de certo modo, a cenas de um filme de gênero que encontra no que há de mais banal uma complexidade incomensurável. Num segundo, as composições se tornam mais abstratas e gráficas, formando salas cujas paredes são áreas de cor sobre as quais flutuam formas ornamentais reduzidas à sua essência gráfica — signos anteriores à linguagem organizada, híbridos de desenho e organismo vivo. E, num terceiro, emergem figuras dançantes, meio palhaços, meio fantasmas. São silhuetas orgânicas que se multiplicam e se espelham, como máscaras em plena transfiguração. Em nenhuma dessas resoluções as figuras operam como decoração ou ilustração: são aparições ativas, capazes de inaugurar novas dinâmicas dentro das câmaras que habitam, como partes de um vocabulário próprio em fluxo contínuo.
A escala reforça essa potência: algumas pinturas atingem cerca de três metros de altura ou comprimento, carregando enormes massas de tinta que funcionam como portais — aberturas que convocam o corpo inteiro do espectador. Outras, menores, convidam a uma aproximação íntima, revelando sutilezas que só se desvendam de perto. Entre matéria bruta e subjetividade, entre a cultura de massa e a história da arte, entre a planaridade da pintura moderna e a atmosfera do cinema, surgem ambientes metafísicos, imbuídos de carga psicológica e habitados por presenças que desestabilizam a formação original que os constitui. Como numa sala em que tudo se reflete e se atravessa, cada pintura abre a possibilidade de nos encararmos e, a partir daí, imaginarmos outras formas de existir.