Há quarenta anos, o escritor italiano Italo Calvino (1923–1985) redigiu seis propostas para o terceiro milênio, como parte de um ciclo de conferências em Harvard. Calvino morreu sem concluir a última proposta, a “consistência”, mas as outras cinco foram publicadas num livro do autor lançado no Brasil pela Companhia das Letras, Seis propostas para o próximo milênio (1990).
A exposição Seis propostas de Calvino reúne seis artistas da Millan, de diferentes gerações, que interpretam visualmente essas sugestões: Ana Amorim, Cassio Michalany (1949–2024), Emmanuel Nassar, Miguel Rio Branco, Tatiana Blass e Thiago Hattnher. Cada um deles se incumbiu de uma proposta e de um livro de Calvino vinculado aos temas das conferências de Harvard.
São estas as propostas do autor para o milênio atual: leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade e consistência. A primeira é associada, por Calvino, a elementos literários que transmitem leveza, tal como no clássico de Ovídio citado pelo autor, Metamorfoses, em que o poeta latino traça conexões entre mitos, como Perseu, que, calçando as sandálias aladas emprestadas por Hermes, se torna uma alegoria da leveza.
No entanto, para vivenciar a delicadeza de Perseu, é preciso conhecer o peso existencial terreno e livrar-se dele. Esse despojamento, em termos visuais, é tratado na pintura lírica de Thiago Hattnher, que alude à primeira proposta de Calvino. Hattnher, a exemplo do personagem operário do livro Marcovaldo (1963), de Calvino, busca a natureza como um contraponto à brutalidade do concreto da metrópole.
Ferramenta essencial para o desenvolvimento da narrativa, a rapidez, segunda proposta de Calvino, permite estabelecer um diálogo ágil com o leitor (ou, no caso, com o espectador), facilitando a apreensão da obra. Ana Amorim, por meio do bordado, denuncia o problema da extinção das espécies, recorrendo à matança dos bugios na serra da Cantareira. Ao registrar esse desaparecimento, a artista se reinventa como narradora e testemunha dessa história em que a morte de um primata prenuncia uma catástrofe ambiental.
Em sua obra, de cunho claramente autobiográfico, Ana Amorim protesta como o Cosme de O barão nas árvores (1957), o personagem que é filho de um aristocrata que sobe numa árvore e se recusa a descer dela. “Aquele que pretende observar bem a terra deve manter a necessária distância”, recomenda o protagonista do romance. Ana segue o conselho.
Cassio Michalany, que morreu no dia 4 de julho e a quem esta exposição é dedicada in memoriam, tratou, em seu trabalho, da terceira proposta, a exatidão, considerando que a definição do projeto de uma obra inequívoca passa pela escolha da palavra (ou, no caso, da imagem) exata. Calvino repudiava a destruição da língua, a homogeneização da cultura e o desleixo. O refinamento de Michalany vai justamente na direção do livro Palomar (1983), em que o escritor italiano busca o desenho exato para compor um discurso que o senhor Palomar julgue claro.
Para Calvino, a imagem sempre precede o texto, como mostra a história da arte. A iconografia religiosa antiga, feita para cativar fiéis analfabetos, é prova incontestável dessa afirmação. Uma vez que vivemos na era das imagens e do hipertexto, a visibilidade, quarta proposta de Calvino, acaba, paradoxalmente, prejudicada pelo excesso de ambos. As fotos de Miguel Rio Branco apontam para outro caminho, o da imaginação, sugerido no livro Cidades invisíveis (1972), que trata de lugares descritos por Marco Polo a Kublai Khan, neto de Gengis Khan, fundador do império mongol. A visibilidade, na cultura contemporânea, é prejudicada pela profusão de imagens transmitidas pela televisão, a internet e o cinema. O autorretrato de Miguel transformado em sombra e a fachada de um cinema queimado são metáforas da cegueira provocada por essa exacerbação.
Segundo Calvino, um romance pode ter caráter enciclopédico, ser uma rede de conhecimentos que aproxima concepções diferentes de mundo. O modelo, claro, é a world wide web (www): a obra como rede de conexão. Recorrendo a técnicas e linguagens diversas num único suporte, Tatiana Blass, em sua pintura, responde pela multiplicidade, a quinta proposta. Seu livro referencial é Se um viajante numa noite de inverno (1979), cujo tema é a busca de um livro por um leitor e uma leitora que os leva a outros livros.
Calvino foi crítico à obsessão do século XX pela palavra light, argumentando que a leveza e a rapidez não são sinônimos de obras feitas às pressas, superficiais. O escrivão Bartleby, personagem criado por Herman Melville no livro homônimo, foi o ponto de partida para a última proposta, a consistência. Emmanuel Nassar assumiu o desafio de interpretá-la, amalgamando todas as outras propostas numa estante criada especialmente para a mostra. A propósito: seu livro de referência foi Por que ler os clássicos (2007), obra-prima de Calvino.