Há um modo de ser que vai além do visível — uma presença que transcende o corpo e se insinua em espaços liminares que nem sempre conseguimos nomear, mas sentimos profundamente. Com The Fabric of Being, busquei sintonizar essas frequências mais sutis — ouvir de perto o pulso da identidade, memória e materialidade entretecendo-se nas realidades fragmentadas que percorremos todos os dias. Esta exposição não é apenas sobre o que vemos; é sobre o que vibra sob a superfície — as histórias, os vestígios e as experiências vividas que nos amarram através de tempos, lugares e culturas.
Em minha prática curatorial, sempre fui atraído por artistas que falam a partir de pontos de vista diaspóricos — cuja obra questiona, expande e reenquadra os modos como pensamos sobre cultura, conexão e criatividade. The Fabric of Being reúne artistas cujas práticas são profundamente arraigadas em legados pessoais, culturais e ancestrais. Suas obras formam uma constelação de gestos visuais, materiais e espirituais que reimaginam a abstração não como modo de escape, mas como ferramenta de invocação. Neste espaço, a forma se torna linguagem, o material se torna memória, e o ato criativo se torna uma maneira de preservar espaço para o que, muitas vezes, permanece não dito ou não visto. Juntos, estes artistas geram uma gramática comunitária — tecendo, coletando, montando e inscrevendo — para construir pontes entre geografias, gerações e linhagens. O que surge não é uma definição singular de identidade, mas uma estrutura em evolução para sentir, conectar-se e ser.
A jornada começa com Esther Mahlangu e Rubem Valentim — dois artistas que utilizam o rigor formal para articular continuidade espiritual e cultural. As vívidas pinturas geométricas de Mahlangu canalizam sua herança Ndebele com cores marcantes, linhas repetidas e ritmo ancestral. Para ela, esses não são apenas padrões — são atos de transmissão. Valentim, por outro lado, constrói códigos visuais que recorrem a sistemas espirituais afro-brasileiros, usando a abstração como veículo para devoção, resistência e investigação filosófica. Para ambos, a forma opera como uma escrita sagrada — uma geometria de sobrevivência, presença e autodeterminação.
Essa noção de embasamento cultural se faz presente na obra de Lidia Lisbôa e Sonia Gomes — duas artistas brasileiras cujas práticas esculturais evocam o corpo como veículo para memória, trabalho e transformação. Lisbôa trabalha com fibras, moldes e costuras para criar formas táteis que carregam histórias de mulheres e preservam espaço para os limites permeáveis entre força e vulnerabilidade, interior e exterior. Em paralelo, Gomes constrói suas esculturas a partir de tecidos e materiais domésticos descartados, dando forma a uma memória íntima e palpável. Podemos sentir o cuidado, a ruptura e o reparo incorporados em sua obra. Suas práticas falam uma linguagem de resiliência e ternura, onde a suavidade se torna estrutura. Sarah Zapata expande essa conversa por meio de suas exuberantes instalações tecidas, que mesclam tradições têxteis andinas com sensibilidades queer. Assim como Lisbôa e Gomes, ela trata a fibra como um espaço de liberdade e disciplina, onde o decorativo se torna político e a devoção se torna tangível. Atravessando essas práticas, um fio literal e metafórico une tempo, trabalho e identidade, formando algo resiliente e transformador.
Também me atrai a maneira como artistas como Antonio Társis e Moffat Takadiwa reimaginam o descartado como lugar de reivindicação estética e cultural. Társis coleta caixas de fósforo, embalagens e escombros durante suas caminhadas, reconfigurando-os em composições que dialogam com as condições da periferia, enquanto elevam o que é desprezado. Takadiwa, trabalhando em Harare, transforma resíduos de consumo — tampas de garrafa, tubos de pasta de dente, velhas teclas de teclados — em vastas tapeçarias que questionam sistemas de consumo e colonialismo linguístico. Ambos os artistas demonstram como até os materiais mais descartáveis guardam narrativas, histórias e peso. Sua obra ecoa as abordagens materiais de Gomes, Zapata e Lisbôa — formando coletivamente uma linhagem de transformação e reinvenção.
Memória e interioridade pulsam na obra de Brooklin Soumahoro e Sidney Amaral. As pinturas atmosféricas de Soumahoro canalizam movimento diaspórico e memória sonora, criando campos abstratos que vibram com ritmo, emoção e reflexão. Sua paleta mapeia uma espécie de geografia espiritual, oferecendo um espaço meditativo para contemplação. Amaral, em contraste, emprega figuração para examinar o peso simbólico e emocional carregado por corpos negros. Seus desenhos e esculturas lidam com masculinidade, sofrimento e ausência histórica — oferecendo retratos que são tanto frágeis quanto poderosos. Enquanto Soumahoro ingressa no espiritual flutuando, Amaral o ancora na carne.
Estes artistas não oferecem expressões isoladas, mas sim meditações interconectadas. Ao percorrer The Fabric of Being, encontramos obras que não só ocupam o espaço como lhe dão forma. Aqui, a abstração se torna uma estratégia para o envolvimento mais profundo — um meio de acessar histórias, sentimentos e futuros frequentemente relegados às margens das narrativas dominantes.
Para mim, esta exposição resiste ao impulso de definir a identidade como algo fixo. Em vez disso, a identidade é emergente. Vive na curva de um fio, nas camadas de textura, na repetição de símbolos e na acumulação de matéria. The Fabric of Being nos convida a refletir sobre como somos entretecidos por memória, luta, alegria, cuidado e transformação. E talvez, por meio da arte, possamos imaginar novas maneiras de ser, conhecer e pertencer.