Criar com palavras, e não escrever um livro. Criar com palavras sem priorizar as gramáticas. Criar com palavras e conviver com os vazios. São procedimentos de Guga Szabzon para construir os trabalhos de sua mostra Triz, na Biblioteca Mário de Andrade. A artista usufrui da palavra, desfazendo-se da nomeação como norma e ativando sua elementaridade, de modo a fazer fruir e a borrar os limites do dizer. Para tanto, Guga Szabzon vale-se dos movimentos do desenho – com a linha e com a palavra. Retorce, corta, costura, gira, realinha, desvia, fura, entra, sai, como uma dança, em que cada gesto é resultado de uma energia e uma sensibilidade que percorrem o corpo inteiro e se desdobram, integrando uma série de pequenas e sucessivas cenas. E cada uma dessas cenas se dissolve logo que se forma, preparando espaço para as próximas. Linha e palavra se encadeiam e se contorcem nessas cenas-tessituras.
A palavra é matéria de trabalho para Guga Szabzon desde o começo de seu percurso. Ela se apropriava de mapas e deles recortava o nome dos países, para evidenciar, pela ausência, a materialidade da palavra. Acrescentou a esse processo a criação de mapas imaginários costurados e linhas bordadas em atlas. Por muitos anos, a artista mesclou escrita diarística, relatos de sonhos, narrativas visuais, desenhos de observação, experimentação com carimbos e tipografias manuais no espaço das páginas de cadernos de várias dimensões e tipos de papel. Esses processos geraram fios soltos, como caminhos que se embaralham, e prosseguiram em outros trabalhos com tecido, em que a artista experimentou a convivência entre formas abstratas e figurativas com palavras e textos que expressavam sensações e sentimentos: “Me assusto Cabeça Coração Me acalmo” (Cabeça Coração, 2019); “Ser forte”, “Dilema”, “Falta o chão” (Fim de Saturno, 2016). As palavras ganharam outra intensidade e presença nos trabalhos em feltro, iniciados em 2017. Adjetivos e substantivos livres e atrelados em composições com linhas também formulavam espaços, numa tentativa de ressaltar a elementaridade e o abismo de significados de palavras como: Mistério, Indestrutível, Labirinto, Serpente (2019).
Em 2024, a artista iniciou mais uma experimentação com palavras e composições com linhas. Guga constituiu relações entre palavras e desenhos em pedaços de feltro que medem 43 cm x 23 cm, cuja diagramação ora lembra páginas de livro, ora nos remete a cartas de tarô. Cada dupla emula uma situação verbete-significado. Essa série foi produzida em paralelo com trabalhos de parede que flertavam com a tridimensionalidade. A linha se amplia desde a bidimensionalidade do feltro rumo ao espaço, sem se desprender de sua origem-suporte, mas encaminhando-se para um fora. Ao mesmo tempo, a artista elaborou pequenas esculturas que, aos poucos, foram sendo compreendidas como maquetes.
“A escultura foi surgindo, não era intencional. Fui testando fazer pequenos arranjos com arame e bases em biscuit na mesa do ateliê. A linha foi se materializando, ganhando forma tridimensional”, conta Guga. Nessas experimentações, ela percebeu que lhe interessava experimentar trabalhos que lidassem mais com a escala do corpo, do ponto de vista tanto da produção como da percepção. E, assim, as maquetes se tornaram trabalhos escultóricos, por entre os quais o corpo é convidado a “andarilhar”. Os trabalhos de parede com linhas bidimensionais forneceram a solução para as bases dessas esculturas. Há algumas bases que abrigam uma palavra, como enigma, invisível, solto, nó, triz. Em outras, a base é coberta por feltro, como se o vazio desse a chance de complementar o processo de significação. Assim, entre palavras e vazios, sustentam-se linhas escultóricas, e é no todo de suas conexões que podemos pensar como Guga constituiu as esculturas: “[…] é bom escrever de vez em quando poemas / com viagens por dentro / com cidades e memórias de paisagens por dentro / que pareçam escritos / por outra pessoa” (Ana Martins Marques, Linha de Rebentação, 2021).
“Senti que o trabalho foi para o chão, saiu da mão”, diz a artista. As linhas que integram esses trabalhos estão em uma condição tridimensional. Ampliam-se em movimentos, quase como se riscassem ou cortassem o ar. São linhas de natureza “intrinsecamente dinâmica e temporal”, como sugere o antropólogo e professor britânico Tim Ingold em seu livro Linhas: uma Breve História. As linhas, assim, são movimento, e este ocorre no tempo do olhar, na experiência de tentar persegui-las. Em sua discussão sobre a linha em movência, Ingold também cita Paul Klee, que, no contexto da mostra de Guga, suscita questões muito importantes para a artista: “Quer traçada no ar, quer no papel, seja com a ponta de um bastão, seja com uma caneta, ela [a linha] surge do movimento de um ponto que, […] é livre para ir aonde quer, pelo próprio movimento em si. […] a linha se desenvolve e, no seu próprio tempo, sai para dar uma volta. E, ao lê-la, os olhos seguem o mesmo caminho que a mão fez ao desenhá-la”. As linhas desses trabalhos são construídas com arames de alumínio e têm exatamente a mesma espessura da linha que Guga desenha com a máquina de costura. Esse material, justifica a artista, foi escolhido porque é maleável e guarda seu gesto, sem necessidade de fundição ou de outros processos que seriam executados fora de seu ateliê.
Essa narrativa processual conta de forma breve a história de produção de um corpo de trabalhos que inclui seus afluentes poéticos, um tempo de escuta sensível aos materiais e ao espaço do ateliê e de atenção aos pequenos gestos e acontecimentos, que vão demandando tomadas de decisão e escolhas ao longo do processo. A produção de Guga está fundamentalmente conectada à sua presença no ateliê, ao tempo que passa convivendo com esses habitantes: linhas, máquina, feltro, mesas, espaços, cores, livros, anotações, cadernos… Cada um dos pequenos acontecimentos de natureza poética edifica o trabalho. E Guga vivencia-os com finura, agudez e perspicácia, presencia-os em sua miudeza, como quem mira a linha do horizonte com uma lupa. E, por vezes, ensaia possíveis mudanças que ocorreriam caso outras decisões fossem tomadas. Ou, então, apenas segue em frente, confiando no fazer arte e nas mãos e no corpo que pensam arte.
Tudo, nesses processos de Guga, depara com um “e se…”. Tudo por um triz de acontecer ou não, em estado de quase ser, numa existência frágil, não por não ter condições de seguir, mas por ter muitas e infindas possibilidades de se materializar. Esse quase e esse triz nos falam de uma sucessão de acontecimentos de construção artística em que cada passo afeta a decisão do que está por vir, cada decisão afeta a visualidade em criação. Triz é, por assim dizer, uma natureza de tempo, quase uma encruzilhada dividida em múltiplas direções, um lugar à beira. Um tempo em que tudo é possível, mas que tem momentos que exigem definição ou maturação. Triz é quando algo está quase por acontecer, em risco, quase a desaparecer ou não aparecer, que, se não se olha, esvai-se. Triz é um tempo simultâneo de minúsculos fatos que podem se dar e eclodir em uma presença inesperada, mas que exigem estar a postos para flagrar.
A mostra apresenta trabalhos que foram produzidos com essa sensação de tempo, em que o estado de atenção ao mínimo, ao fugidio, ao impermanente é um procedimento estruturante. Também de suma importância para a criação desses trabalhos foi a mudança de ateliê, em 2023. Para Guga, o novo espaço incentivou-a também a pensar esse corpo de trabalhos. Localizado no Bom Retiro, o ateliê é amplo, bastante iluminado, com espaço para que os processos se espalhem e permitam um tempo de decantação. Para Guga, seu ateliê é um agente importante nessas experiências; propiciou a migração da linha e abriu caminhos para que suas linhas percorressem e criassem outras. “O espaço vazio ajudou na constituição do trabalho. Acredito que essas esculturas surgiram porque me mudei para um lugar maior. A arquitetura do ateliê fez o trabalho se transformar. E eu levei a linha para passear”, explica Guga. O espaço do ateliê é o locus para que as linhas acontecessem ainda mais livres e se deslocassem de muitas maneiras.
Na mostra Triz, cinco trabalhos em feltro e uma escultura recebem o público e anunciam as muitas situações das linhas criadas por Guga: orientadas, desviantes, em fuga, passantes, ligeiras, pontilhadas, múltiplas, evasivas. Ao fundo desse ambiente, é possível avistar a estátua de bronze A Leitora, inspirada na deusa Minerva, que segura um livro. É ela que antecede o conjunto de esculturas – Triz, Cabeça, Defesa e Abismo, entre outras – que se concentra na Tula. As esculturas constituídas de duplas – palavras e linhas tridimensionais – jogam significados à construção, convidam a caminhos e à constituição de narrativas durante o mover do corpo e durante instantes de pausa. As linhas tridimensionais dessa série dão às palavras situações para além do óbvio; não são, por assim dizer, sinônimos, mas se implicam numa conjuntura muito própria e inventiva de construção de significados inusitados. Já as palavras sustentam uma semântica do triz: a leitura/percepção se dá enquanto estamos ali e se perde, se capta, se esvai, se modifica enquanto as janelas, as árvores, os barulhos do centro da cidade entranham-se em seus vazios (ou seriam caminhos?). Talvez sejam tal como vivia Lucrécia Neves, protagonista de A Cidade Sitiada (1948), de Clarice Lispector, que sonhava com outra vida: “Vivo no quase, no nunca e no sempre. Quase, quase – e por um triz escapo”.
Galciani Neves