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Urihi mãripraɨ — Sonhar a terra-floresta
Urihi mãripraɨ — Sonhar a terra-floresta
Bruce Albert
2025

Nós, Yanomami, quando queremos conhecer as coisas, esforçamo-nos para vê-las no sonho. Este é o modo nosso de ganhar conhecimento.” 

Davi Kopenawa

 

Joseca, artista yanomami, nasceu em 1971 numa comunidade do rio Lobo d’Almada (Uxi u), afluente do alto do rio Catrimani em Roraima, ainda longe de qualquer contato com os brancos. É o filho de um “grande homem” (pata thë) e renomado xamã da região, falecido quando ele era adolescente. Vive e trabalha hoje na aldeia de Buriti, perto da Serra do Vento (Watoriki), na margem esquerda do alto rio Demini, no nordeste do Amazonas.

Os desenhos e telas de Joseca apresentam, com minúcias e cores vibrantes, entidades, lugares e episódios evocados pelos cantos dos grandes xamãs de sua comunidade que ele está acostumado a ouvir com muita atenção desde sua infância. Como ele mesmo relata:

Eu não faço meus desenhos sem motivo. Me inspiro nas palavras que ouço dos xamãs, daqueles que têm os mais belos cantos, daqueles que sabem realmente fazer ouvir as palavras dos espíritos xapiri pë. Quando fazem suas sessões eu escuto seus cantos e gravo na minha mente todas essas palavras que depois sonho e transformo em desenhos.

Através de suas coreografias e cantos, os xamãs yanomami “fazem descer” e “fazem dançar” as imagens (utupë) dos seres e lugares do tempo das origens. Joseca, por sua vez, produz suas próprias imagens transpondo, sobre papel ou tela, os sonhos que lhe inspiram, no coração da noite, as cenas evocadas por esses cantos xamânicos. Assim, seus sonhos se transformam um após o outro em “peles de imagens” (utupa siki) que nos dão acesso à saga dos ancestrais do “primeiro tempo” yanomami. Ao longo de suas sessões, os xamãs compartilham com os habitantes de sua casa a visão dos universos que percorrem em suas incessantes odisseias cosmológicas. Em um gesto similar, Joseca faz surgir para nós suas próprias imagens sonhadas dos múltiplos universos outros que humanos que constituem a “terra-floresta-mundo” yanomami, urihi a. Nesse sentido, as obras apresentadas nesta exposição são espécies de “capturas de tela” oníricas, stills do filme metafísico desenrolado pela trama narrativa ancestral dos cantos xamânicos yanomami.

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A “terra-floresta-mundo” urihi a não é para os yanomami uma simples coleção de árvores nem uma natureza morta destinada à exploração desenfreada ou à contemplação nostálgica. Ela é concebida, ao contrário, como um multiverso complexo no seio do qual coabitam, à custa de compromissos mútuos, diversos povos vivos, humanos e outros que humanos, sejam eles visíveis aos olhos das “pessoas comuns” (kuapora thë pë) ou somente visíveis àqueles das “pessoas espíritos” que são os xamãs. Para estes, a viagem onírica é um modo indispensável de exploração desse multiverso e eles devem constantemente se comunicar, negociar ou combater com seus protagonistas em nome de sua comunidade.

Durante o sono, a imagem interior dos seres humanos, componente imaterial da pessoa que os yanomami nomeiam também de utupë, tem a capacidade de se desvincular do corpo de quem dorme para se deslocar para longe dele. Ao longo de suas peregrinações extracorporais, essa imagem é então capaz de viver experiências de interação e de percepção em busca de seus homólogos — todo ser possui uma imagem utupë.

No caso das “pessoas comuns”, essas experiências oníricas remetem na maioria das vezes ao contexto da vida cotidiana, mesmo que implique certo afastamento ou distanciamento: caças e viagens, visitas e festas, nostalgias amorosas e infortúnios, aparições de animais e plantas, de seres ausentes e defuntos… Os sonhos dos xamãs, por sua vez, são muito mais audaciosos e se inscrevem em horizontes muito afastados do mundo humano. Assim, seus espíritos (xapiri pë) se apoderam de sua imagem utupë para levá-la nos seus “caminhos de luz” através das múltiplas dimensões do espaço-tempo cosmológico, projetando-a tanto através dos diferentes níveis do universo quanto ao tempo de sua origem ou ainda no covil dos seres maléficos da floresta (në wãri pë).

Durante o “tempo do sonho” (mãri tëhë), a viagem extracorporal da imagem dos xamãs, ela própria transformada em espírito xapiri, acaba por assumir a forma de uma odisseia vertiginosa rumo a longínquos territórios metafísicos que permanecem desconhecíveis às “pessoas comuns”. Como explica Davi Kopenawa: “Nós, xamãs, possuímos dentro de nós o valor de sonho dos espíritos. São eles que nos permitem sonhar tão longe. Por isso suas imagens não param de dançar perto de nós quando dormimos.”

Essa extraordinária capacidade humana de “sonhar ao longe” (thapimuu) é atribuída, em última instância, a Omama a, o demiurgo criador do mundo atual que, enquanto “sonhador primordial” (mãritima a), ergueu a “árvore do sonho” (mãri hi) nos confins da floresta que ele acabara de semear no tempo das origens. São as flores dessa árvore que, desde então, permitem aos humanos adormecidos sonhar: « (…) assim que as flores de seus galhos desabrocham, elas nos enviam o sonho. Foi assim que ele o pôs em nós, permitindo que nossa imagem se desloque enquanto dormimos.» São, para os xamãs Yanomami, as flores-imagens do sonho, mãri kiki hore.¹

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Para tornar visível e fazer conhecer o poder desse pensamento onírico para além de seu próprio mundo, Joseca apropriou-se de certos traços de nosso realismo figurativo com o qual foi confrontado na escola de sua comunidade quando adolescente. Desde então, ele passou a transformá-los a serviço de um estilo radicalmente original que poderíamos qualificar de “realismo xamânico”, em alusão ao célebre “realismo mágico” literário. Por meio de seu talento singular, Joseca nos convida, assim, a abrir nosso espírito e sensibilidade aos saberes e à beleza de um modo de vida e de pensamento ancestral cuja riqueza e diversidade nossa voracidade econômica cega se obstina, por ignorância e ganância, a destruir impiedosamente.

 

 

 

(1) Ver, para todas as citações: Davi Kopenawa & Bruce Albert,  2015, A queda do céu. Palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, capítulo XXII.