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Utopia e desmanche no percurso de Regina Parra
Utopia e desmanche no percurso de Regina Parra
Galciani Neves
2019

“Uma história vista de baixo” pode construir bases de acesso a experiências sociais de mulheres e homens, cuja existência fora ignorada pela historiografia oficial. Sem instrumentalizar esta perspectiva, tampouco transformar conflitos políticos e culturais em objetos de pesquisa, Regina Parra vale-se deste desvio para perscrutar processos de intolerância, de opressão, de asfixia política. A partir de um exercício de fabulação, a artista se concentra em lançar luz em recônditos de vulnerabilidade. “Me pergunto se ainda é possível criar uma contra-narrativa a partir de situações de extrema precariedade e até que ponto nossa capacidade de invenção pode apontar para uma realidade alternativa ao que vivemos. São perguntas norteadoras para um processo poético, mas acredito que também são questionamentos acerca da potência da imaginação como força social e política para reconfigurar o real”, comenta a artista.

Sem entregar uma solução para os impasses em que as subjetividades parecem ser sequestradas, Regina Parra provoca a erupção de feridas há muito tempo agonizantes: dispositivos de segregação e violência, invisibilidade intencional às desigualdades sociais, estados de exceção, a presença velada de migrantes. É o que a artista conjuga em trabalhos como a série de pinturas Castelo (é possível, mas não agora). Parra retratou alguns moradores do Edifício Marconi, ocupação no Centro de São Paulo, enquanto estes admitiam uma sobrevivência através de uma pulsão avivada por seus desejos íntimos. De olhos fechados, cada um imagina os planos para alcançar o sonho irrealizável. Como em um repouso, essas pessoas parecem nos perguntar em silêncio: para onde caminham nossos sonhos?

Dito assim, pode soar que a artista agiria como porta-voz das minorias. Ela posiciona-se de maneira ambivalente entre o que pode ser um suspiro de resistência e um latente declínio do sujeito. Em Chance (2015), letreiro em neon, material sedutor e festivo, a artista faz coexistir essa duplicidade. Nesse sentido, “A grande chance”, expressão aparentemente carregada de energia vital, apresenta-se em um paradoxo na construção de novas formas de vida e pensamento: falha e possibilidade, potência de existir e fragilidade, como um desenho de horizonte, ao mesmo tempo, indócil e facilmente revogável.

O trabalho de Parra é uma insistência na avassaladora maré dos dispositivos de poder e controle, talvez por isso, a artista não tenha outra escapatória. É preciso agir implicada nas vulnerabilidades, do contrário, realizaria apenas um estudo etnográfico, uma tematização academicista e, portanto, descomprometida e esvaziada. A artista adentra e relê os fatos e traduz seus efeitos em conteúdos que agulham questionamentos que solicitam uma tomada de atitude: “Se entendemos que a sociedade é construída e imaginada, também podemos acreditar que ela pode ser reconstruída e re-imaginada”, afirma Parra.

Em 7.536 PASSOS (por uma geografia da proximidade), a artista caminha do centro de São Paulo até a Zona Leste, onde uma comunidade boliviana organiza uma feira. O aparelho de som que leva consigo neste percurso capta inúmeras rádios piratas. A língua espanhola presente nos letreiros dos estabelecimentos comerciais, rostos estrangeiros e uma paisagem que habitualmente não é vista nos afirmam, nesta tradução abrupta: há muitas cidades dentro de uma mesma São Paulo. E suas nítidas fronteiras intensificam a cidade como um lugar de encontro de diferenças, como também de confronto.

Talvez o que os trabalhos de Regina Parra tentem potencializar seja algo da ordem da invenção de espaços de escuta e troca, onde pode ocorrer uma nova sensibilidade para resistência. Para Regina Parra, “o que parece que nos está sendo roubado não é bem nosso pensamento, mas nossos desejos ou a habilidade de desejar e nos mantermos desejantes. E talvez o artista tenha um papel justamente nesse lugar: ele deseja, pensa e inventa lugares de encontro, de possibilidades”.