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Vaquejada da Meia-Noite
Vaquejada da Meia-Noite
David Almeida
2025

“Caro leitor nessa estrofe
Não queira zombar de mim
Ninguém ouviu o estouro
Mas juro que foi assim
Pois toda história do diabo
Tem um pipoco no fim”

Patativa do Assaré

 

No cordel Brosogó, Militão e o Diabo, do famoso poeta cearense Patativa do Assaré, Brosogó é um camponês devoto que, incumbido de cumprir suas tarefas religiosas, carrega consigo um fardo de velas para acender aos santos durante a novena. Lembra-se de todos eles e acende uma vela em cada altar. Ciente de não ter esquecido ninguém, estranha quando sobram três velas, que ele, então, decide destinar ao Diabo, no altar sem nome; afinal, até aquele momento, este nunca lhe havia feito mal. Essa paga ao Diabo servirá de honorários pela defesa que o próprio Cramunhão haveria de fazer em seu favor no processo jurídico movido por Militão, capitalista dono da bodega, que vendeu ovos fiados a Brosogó e lhe cobrou juros equivalentes ao preço de todas as galinhas não nascidas da dúzia levada para casa.

Essa história ilustra, com assombro e fantasia, algumas das dinâmicas que definem histórias do Brasil — dinâmicas em que os meios de defesa possíveis contra determinadas forças opressoras nascem justamente das negociações com o absurdo, com o sagrado popular: o advogado, contra o abuso do capital, é ninguém menos que Satanás. Em meio a santos errantes, visagens e cortejos de folia e penitência, Vaquejada da Meia-Noite reúne trabalhos de artistas que ilustram os pactos faustianos firmados pelo vaqueiro — aqui, avatar da resistência — na encruzilhada entre o realismo sertanejo, árido e geográfico, e o sincretismo religioso, a fábula e as histórias de assombrar.

Ao reunir obras de artistas cearenses de diversas gerações, a exposição constrói uma narrativa que ecoa o sertão em suas múltiplas dimensões – arqueológica, mística, política e poética –, mergulhando no imaginário cearense de diversas regiões do estado e explorando as fronteiras entre o sagrado e o profano, o real popular e o místico redentor.

A exposição se inicia com obras dos gravadores José Lourenço, Stênio Diniz e Francisco de Almeida – nascidos em Juazeiro do Norte e Crateús –, que, reunidas, evidenciam a diversidade da tradicional produção de xilogravura cearense. Zé Lourenço nos transporta para as paisagens da Chapada do Araripe — território impregnado de uma mística em que o passado pré-histórico e o fervor religioso se entrelaçam. O Cariri, região marcada pela presença simbólica de Padre Cícero e por seus sítios arqueológicos, constitui em si um inventário fantástico, no qual ciência e crença coexistem em certa harmonia. Lourenço explora essa dualidade, ao inserir figuras que dialogam com o passado remoto e o presente contemporâneo, revelando a atemporalidade da paisagem.

Com Stênio Diniz — gravador cuja família foi responsável pela Gráfica São Francisco, hoje o ponto de cultura Lira Nordestina —, a paisagem torna-se um espaço de embate entre o político e o simbólico. As cenas de suas gravuras extrapolam o naturalismo e incorporam elementos fantásticos que questionam a realidade. Rios caudalosos e engrenagens metafóricas revelam o artifício da paisagem e evidenciam o debate social presente em toda sua obra, com personagens que protagonizam épicos contra adversários contemporâneos, como o capital e as tragédias climáticas. Diniz, desde a ditadura militar, afia sua produção na resistência, criando um universo em que o fantástico ilustra a luta de classes.

Francisco de Almeida, gravador de Crateús, por sua vez, adiciona a essas paisagens seu repertório religioso, folclórico e de resistência, que aqui extrapola a escala: gravuras de grande formato reúnem curiosas entidades, que povoam um firmamento comum na grande área do papel.

A seguir, Thadeu Dias nos conduz ao íntimo, com a imagem do rito religioso de uma crisma, evocando o estranho presente no familiar. Nessa obra, mergulhada em penumbra, confunde-se o sacrossanto com o herege – um segredo compartilhado em um espaço onde o catolicismo popular brasileiro se manifesta de maneira ambígua e evocativa.

Arivanio apresenta figuras grotescas e mitológicas – como o Imbroxável, que devora um indígena, em alusão direta ao Saturno de Goya –, organizadas aqui pelo gesto singular de sua pesquisa. As obras do artista, nascido em Quixelô, tensionam o espaço entre o político e o mítico, ao misturarem lobisomens e monstruosidades com eventos e personalidades da atualidade brasileira. O armagedom, ilustrado por uma rinha de galos, traduz o profético embate do apocalipse bíblico a partir de novas metáforas populares, evidenciando quanto de mito habita o cotidiano.

Julia Aragão e Artur Bombonato exploram o mistério dos signos católicos e das festas populares. As aves de Júlia, que evocam o Espírito Santo e os demais animais da fauna dos santos, compartilham a mesma natureza fantástica e aterrorizante das celebrações populares de rua, ocupadas pelos mascarados montados de Artur, que nos encaram como sentinelas de um cortejo do absurdo.

Gustavo Diógenes e Arthur Siebra atualizam o imaginário sertanejo ao substituírem o vaqueiro a cavalo pela motocicleta e pelo capacete rosa, com bares vazios que se tornam relicários urbanos de um ermo interior ainda ocupado por santos peregrinos e caolhos lendários. Gustavo nos apresenta os protagonistas dessa noite de vaquejada, guardiões de uma missa que se estende até a aurora, enquanto Siebra nos mostra seus devotos em marcha e comunhão. O sertão, aqui, é urbano, árido e contemporâneo – um mosaico de tempo aberto, em constante mutação.

Beatrice Arraes e Terezinha de Jesus – autora da primeira pintura que vi na vida – exploram o bestiário e a paisagem como protagonistas das narrativas da Terra, em que homem e bicho se fundem, e a Lua e o Sol iluminam, ao mesmo tempo, a vegetação seca. Já Sérgio Gurgel cria objetos que carregam gravadas as feições da memória; esta é encarnada na figura de suas musas padroeiras, que ocupam com seu gesto toda a obra, calcada em uma carregada ancestralidade materna. Gilberto Pereira, imerso na cultura do reisado de Juazeiro, pinta partes do corpo e cabeças enfeitadas como os ex-votos do Horto, que aqui servem como promessas pagas com uma colcha de retalhos dos corpos simbólicos das romarias.

Como habitantes de uma ilha, no espaço central da galeria, as esculturas dos artistas da Associação de Artesãos do Padre Cícero ocupam – e ao mesmo tempo compõem – uma paisagem feita das toras de umburana, madeira que reivindica sua parte na autoria das obras. Apresentam um Padre Cícero ainda como toco, folhagens que são troncos, paisagens incompletas encontradas debaixo de uma árvore e o corpo de quem carrega bichos e feras no lombo. Essas figuras são alardeadas pelo vulcão gótico ensanguentado de Darks Miranda – escultura de matéria diversa que aparenta ter pressa em explodir, como rachaduras em lajedos no chão.

A exposição culmina com obras que apaziguam as tensões entre o real e o fantasmagórico. Sara Costa sela em suas pinturas o clima dos dias, que são sempre vários ao mesmo tempo, começando e terminando no crepúsculo. Diego de Santos nos apresenta a capela final, com todas as suas portas abertas para um pôr do sol na linha de nosso umbigo, e Leonilson, cuja obra apresenta um sertão do íntimo e das vulnerabilidades, sintetiza, talvez, o horizonte cearense em uma abstração formal de cores complementares, nomeada O imperfeito.

O vídeo CASO 0 — zona de litígio, de Juno B., encerra o percurso, explorando conflitos territoriais e paisagens arqueológicas da Ibiapaba. Com trilha sonora de Juliana R. e filmado na região dos cânions do Rio Poti – hoje cenário da construção da Barragem do Lago de Fronteiras, entre os estados do Ceará e do Piauí –, a produção nos entrega imagens factíveis dessa grande ficção forense da caatinga, que espera por ser inundada e, enfim, cumprir a profecia de se juntar ao grande mar.

As obras dos artistas desta mostra têm acompanhado minha trajetória e pesquisa artística ao longo de alguns anos. Entre 2019 e 2025, meu percurso pelo Ceará, motivado por investigações sobre minha arqueologia familiar e a preservação da memória das paisagens dos meus pais, aproximou-me profundamente do território cearense e de seus artistas. No ateliê, percebo que meu gesto revisita frequentemente as paisagens do sertão de Inhamuns, do Cariri, do sertão central, como se nelas habitasse um mistério particular a ser desvendado, herdado de minha mãe e reinventado pelos meus passos, um acerto de encruzilhada firmado pela pintura.

Nessa investigação, o trabalho de meus colegas me mostrava histórias de assombro e mistério que dialogam com as narrativas emergentes da minha própria obra, como se estivéssemos atravessando as mesmas carnaúbas em nossos trajetos solitários e penitentes de criação.

Vaquejada da Meia-Noite, missa que é gira de esquerda, é um festejo que celebra a carreira coletiva que corre atrás do boi, que foge para encontrar os mistérios da madrugada. Recusando o escapismo do fantástico, aqui ele serve como ferramenta de sobrevivência. O sertanejo negocia com o absurdo – do capital, do sagrado imposto e da opressão cotidiana –, e o Diabo, não mais inimigo, é aliado na luta pela existência. A mostra vocaliza testemunhos assombrados da resistência, que se entrelaçam e desafiam o real imaginário do Brasil profundo, onde a reza e a crença são parte indissociável da verdade.