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Vetores
Vetores
Antonio Gonçalves Filho
2026

Há pouco mais de um século, o Brasil ganhou um marco simbólico que inseriu o país no mapa da modernidade: a histórica Semana de 22. Eventos posteriores sedimentaram o caminho para outros visionários da arte moderna, que anunciaram o experimentalismo contemporâneo. A exposição Vetores presta tributo a alguns desses pioneiros.

Dividida em três núcleos, Vetores ocupa dois espaços na sede da Almeida & Dale, na rua Fradique Coutinho. No primeiro deles, dedicado à escultura, estão Brecheret (1894-1955), Ernesto De Fiori (1884-1945), José Damasceno (1968), José Resende (1945), Lygia Pape (1927-2004), Nelson Felix (1954), Sergio Camargo (1930-1990), Sérvulo Esmeraldo (1929-2017), Tunga (1952-2016) e Willys de Castro (1926-2012).

O segundo núcleo, dedicado à pintura, reúne nomes igualmente referenciais:  Aluísio Carvão (1920-2001), Arcangelo Ianelli (1922-2009), Cássio Michalany (1949-2024), Dudi Maia Rosa (1946), Eduardo Sued (1925), Eleonore Koch (1926-2018), Frank Stella (1936-2024), Judith Lauand (1922-2022), Lucio Fontana (1899-1968), Luís Sacilotto (1924-2003), Lothar Charoux (1912-1987), Mira Schendel (1919-1988), Paulo Pasta (1959), Rodrigo Andrade (1962) e Volpi (1896-1988).

Finalmente, no terceiro núcleo, voltado à fotografia e à gravura, Miguel Rio Branco (1946) lidera um trio de históricos como Hélio Oiticica (1937-1980) e Hiroshi Sugimoto (1948).

Mais do que apresentar uma lista extraordinária de artistas, Vetores permite reconhecer a ressonância da produção modernista entre os contemporâneos, tanto brasileiros como estrangeiros.

Assim, é possível, por exemplo, aproximar movimentos como o neoconcretismo brasileiro e o “espacialismo” inventado pelo ítalo-argentino Lucio Fontana. Fruto de uma pesquisa iniciada por Fontana na década de 1940, a revolução de suas incisões nas telas nos anos 1950 não foi ignorada pelos neoconcretos no processo de transpor a barreira da bidimensionalidade. Certamente, tanto Lygia Pape como Hélio Oiticica, ao saírem do plano e conquistarem o espaço, esboçaram atitude semelhante.

E o que dizer da pintora Judith Lauand, única mulher do pioneiro grupo concreto paulista Ruptura (criado em 1952), que, a exemplo de outras artistas independentes, como Mira Schendel e Eleonore Koch, abriu caminho para a geração de jovens pintores contemporâneos?

Integrante do mesmo Ruptura, Luís Sacilotto, um dos precursores do concretismo nos anos 1940, quando o grupo concreto nem existia, está presente na mostra ao lado de outros pintores veteranos que enveredaram pelo abstracionismo, como Arcangelo Ianelli. Dominando a cena está Volpi, referência incontornável para todos, inclusive para os pintores contemporâneos pós-Geração 80.

Ainda no campo da pintura temos o estadunidense Frank Stella, que, com suas Pinturas Negras (1958), teve papel decisivo na chamada “nova abstração” dos EUA, anunciando a eclosão de um movimento fundamental para a renovação da sintaxe artística estadunidense, o minimalismo. Stella comparece com uma peça escultural da série Hacilar Levell IIA, inspirada em obras do período neolítico encontradas na Turquia.

Esse cruzamento de diferentes períodos da história não diz respeito unicamente a Frank Stella. Outro pintor sempre aberto a esse diálogo é Paulo Pasta, um compêndio da pintura ocidental, que tanto evoca a cor dos pré-renascentistas como incorpora o espírito libertário de seus contemporâneos, ao cruzar a fronteira dos séculos. Outros nomes poderiam ser citados, mas Pasta resume bem a questão central de Vetores, que é a de estabelecer uma conexão íntima entre artistas de diferentes gerações.