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Allan Weber

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Tecnologias de existência

Allan Weber constrói sua prática a partir de uma relação direta com as infraestruturas, os ofícios e as formas de circulação que organizam o cotidiano urbano. Em diferentes linguagens e mídias, o artista investiga o que nomeia de tecnologias de existência: as estratégias de sobrevivência, criatividade e adaptação que sustentam a vida nas cidades contemporâneas. Nascido em 1992, o artista passou por uma sequência de trabalhos – estoquista, vendedor, entregador de aplicativo – antes de se dedicar integralmente à arte; experiências que moldaram sua percepção da cidade como campo simultâneo de trabalho, convivência e produção de imagens. É desse solo comum, e não de uma distância contemplativa, que sua obra extrai matéria e sintaxe. 

A expressão “tecnologias de existência” designa, a um só tempo, um modo de vida e um método de trabalho: a capacidade de improvisar e recombinar materiais e códigos diante da precariedade e desigualdade social. Do empilhamento de caixas-d’água sobre a laje aos arranjos de lanches em mochilas térmicas dos entregadores; da arquitetura provisória dos bailes funk aos circuitos informais de troca, essas tecnologias atestam um saber-fazer que nasce fora dos manuais e das instituições, mas organiza, com precisão e autonomia próprias, a vida cotidiana nas grandes cidades. 

"A tecnologia de existência é uma desobediência da tecnologia. A gente sempre tem que dar um jeito, se virar, existir de alguma maneira. Por exemplo, as pessoas que acordam cedo para trabalhar e, com um salário-mínimo, têm que dar um jeito de estudar, de cuidar dos filhos, de viver. E têm que se virar no trabalho também, claro. Do mesmo modo, vejo as pessoas que constroem as casas e gambiarras na favela como arquitetas e engenheiras. Esse jeito de se virar é uma tecnologia importante de existência."
Allan Weber, em entrevista ao Instituto Tomie Ohtake, São Paulo, Brasil, 2026.

Existe uma vida inteira que tu não conhece. Instituto Tomie Ohtake: São Paulo, 19 de março a 24 de maio de 2026.

Existe uma vida inteira que tu não conhece. Instituto Tomie Ohtake: São Paulo, 19 de março a 24 de maio de 2026.

Existe uma vida inteira que tu não conhece. Instituto Tomie Ohtake: São Paulo, 19 de março a 24 de maio de 2026.

Existe uma vida inteira que tu não conhece. Instituto Tomie Ohtake: São Paulo, 19 de março a 24 de maio de 2026.

Existe uma vida inteira que tu não conhece. Instituto Tomie Ohtake: São Paulo, 19 de março a 24 de maio de 2026.

Existe uma vida inteira que tu não conhece. Instituto Tomie Ohtake: São Paulo, 19 de março a 24 de maio de 2026.

Existe uma vida inteira que tu não conhece. Instituto Tomie Ohtake: São Paulo, 19 de março a 24 de maio de 2026.

Existe uma vida inteira que tu não conhece. Instituto Tomie Ohtake: São Paulo, 19 de março a 24 de maio de 2026.

Existe uma vida inteira que tu não conhece. Instituto Tomie Ohtake: São Paulo, 19 de março a 24 de maio de 2026.

Existe uma vida inteira que tu não conhece. Instituto Tomie Ohtake: São Paulo, 19 de março a 24 de maio de 2026.

Sem se fixar em um suporte específico, esse princípio integra a produção de Weber. Na fotografia, ele aparece como o registro feito desde dentro dos fluxos de trabalho — a câmera que acompanha o corpo do entregador de uma entrega a outra, e não a distância segura de quem observa. Em objetos e instalações, manifesta-se na apropriação de materiais e estruturas do cotidiano, tais como bancos de moto, rodas de bicicleta, lâminas de barbear, em composições que reorganizam o espaço expositivo segundo uma lógica formal própria, ao mesmo tempo intuitiva e construtiva. E, na dimensão social de seu trabalho, esse princípio expande-se além do objeto de arte: na fundação da Galeria 5 Bocas, na comunidade da Zona Norte do Rio de Janeiro onde nasceu e vive, Weber inscreve essa mesma lógica em escala coletiva e duradoura — um gesto orientado pelo desejo de que a arte não apenas represente seu lugar de origem, mas nele permaneça e produza efeitos concretos. 

Por trás dessas operações está sempre a cidade como matéria-prima para uma reflexão sobre as formas contemporâneas de organização do trabalho, sobre a geopolítica que divide o Rio de Janeiro em territórios de acesso desigual, e sobre a possibilidade de erguer, a partir desses fragmentos, novos códigos e sentidos.

Sem título, da série My Order2025

Sem título, da série My Order2025

Sem título, da série My Order2025

Sem título, da série My Order2025

Sem título, da série My Order2025

Sem título, da série My Order2025

Sem título, da série My Order2025

Sem título, da série My Order2025

Sem título, da série My Order2025

Sem título, da série My Order2025

Fotografias: fragmento e movimento

A prática fotográfica está no fundamento da produção de Weber. O artista registra que uma primeira aproximação com a fotografia ocorreu na convivência com o universo do skate, período em que o artista constrói um repertório de imagens atento ao estilo e à estética do grupo que o rodeava. Durante a pandemia, trabalhando como entregador de aplicativo, a fotografia assumiu o centro de sua prática. A série Tamo Junto Não É Gorjeta (2020) acompanha os intervalos entre uma entrega e outra, em um momento em que o isolamento social tornava o trabalho dos entregadores simultaneamente invisível e imprescindívelSe as mercadorias circulam nas bags térmicas dos entregadores, é essa mesma lógica de circulação que Weber transpõe para as fotos. Marcadas pelo movimento e fragmentação, as imagens transmitem o ritmo acelerado das entregas; a câmera segue o trajeto do trabalho que registra, de modo que a cidade aparece percorrida desde dentro das dinâmicas que a mantêm em funcionamento. A série deu origem ao fotolivro autopublicado Existe Uma Vida Inteira Que Tu Não Conhece (2020), que também emprestou título à primeira exposição institucional individual do artista no Brasil, no Instituto Tomie Ohtake (2026). 

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Sem título, da série Tamo junto não é gorjeta
2020
Impressão em papel Hahnemühle Photo Rag Baryta 315gr
40 x 60 x 3 cm
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Sem título, da série Tamo junto não é gorjeta
2020
Impressão em papel Hahnemühle Photo Rag Baryta 315gr
60 x 40 x 3 cm
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Sem título, da série Tamo junto não é gorjeta
2021
Impressão em papel Canson Photo Rag stock 308gsm Matte
40 x 60 x 3 cm
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Da fotografia à instalação e aos objetos

A pesquisa de Weber se expande da fotografia para o objeto, a escultura e a instalação.  A inscrição do corpo no espaço urbano, que estava em jogo nas imagens, passa a se desdobrar em obras que se instalam no espaço, reconfigurando os trajetos e a presença do espectador no ambiente.  

"Naquele momento, eu entendi o meu desejo de trabalhar com o que era próximo a mim, à minha realidade, até porque essas referências não estavam presentes no circuito da arte. Eu levei uma lona e um paredão para a piscina do Parque Lage, para ver se isso também seria associado ao tráfico, mesmo estando em outro contexto."
Allan Weber, em entrevista ao Instituto Tomie Ohtake, São Paulo, Brasil, 2026.
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Endola, da série Traficando Arte
2021
Filme PVC sobre tela
66 x 44 x 9 cm
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Sem título, da série Traficando Arte
2022
Câmera fotográfica, cimento e vergalhão
52 x 25 x 5 cm
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Sem título, da série Régua
2023
Lâminas de corte sobre tela
32 x 26.2 x 5 cm
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Sem título, da série Traficando arte
2021
Câmera fotográfica, cimento e vergalhão
51 x 27 x 4.5 cm
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Em Nós que Sustenta na Raça (2021-2026), caixas d’água empilhadas formam uma torre que recupera a silhueta comum às lajes das favelas cariocas: metáfora da engenhosidade de quem precisa se virar para sustentar a vida. Em Traficando Arte (2021-2025), máquinas fotográficas remontadas em forma de fuzil convivem com pinturas embaladas em filme plástico, as chamadas “endolas”, uma referência direta aos códigos do tráfico de drogas. Já as séries Dia de Baile (2021-2026) e Novo Balanço (2023-2025) reapropriam lonas que protegem os bailes funk, ora estiradas e coladas sobre placas (Chiaroscuro, 2025-2026), ora erguidas como instalações no próprio espaço expositivo (Passinho, 2024-2025).  

Completam esse repertório, ainda, bancos de moto (Bejo; Orai por nós; 2024-2025); capacetes amarrados em grandes instalações suspensas (2025-2026); bolsas de entrega, personalizadas com frases provocativas (“seu conforto, meu inferno”); lâminas de barbear, rigorosamente organizadas em composições geométricas (Régua, 2021-2026); e embalagens de lanche, cuja matéria frágil e provisória adquire, na obra, dimensão escultórica (2023)

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Predestinados, da série Trap
2026
Câmaras de ar de bicicleta, lona plástica e cabo elástico sobre estrutura metálica
200 x 140 x 12 cm
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Nós que sustenta na raça
2021-2026
Caixas d'água
Medidas variáveis
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Sem título, da série Anotações
2026
Lona
40.5 x 25 x 4 cm
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Em Trap (2026), série recente de trabalhos, Weber tensiona, sobre uma mesma estrutura metálica, diferentes partes de equipamentos de bicicletas, como elásticos, cabos e câmaras de ar emborrachadas. Fragmentos recolhidos do cotidiano são deslocados e, pela força do gesto artístico de recombinação, passam a compor uma visualidade inédita. O mesmo procedimento de colagem pode ser, ainda, encontrado nas séries Anotações (2025-2026) Dia de Baile (2021-2026)que agrupam retalhos de lonas coloridas. 

Uma dimensão de informalidade aparece no trabalho de Weber em dois registros simultâneos: no uso de materiais precários e na criação de arquiteturas instáveis e provisórias, e na própria forma social dtrabalho e convivência que as obras tematizam. Passinho (2024-2025) é exemplo nítido dessa dupla operação: a série apropria um material proveniente de um contexto de sociabilidade informal – os bailes funk – e arma essa estrutura contingente no espaço expositivo. precariedade e o improviso como matéria da criação conectam essa produção a uma linha de força da arte brasileira: a radicalidade das experimentações neoconcretas, elo brasileiro às vanguardas construtivas. 

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Passinho, da série Novo balanço
2024
Lona
Dimensões variáveis
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"Vistas a distância, essas composições estabelecem um diálogo com a tradição construtiva e geométrica brasileira, pela ênfase na estrutura, na repetição e no equilíbrio. No entanto, aqui o projeto é outro: tais experiências dão visibilidade ao que o artista denomina tecnologias de existência, isto é, modos de construir, sustentar e organizar o espaço que emergem de contextos historicamente mantidos fora do campo artístico."
Ana Roman e Catalina Bergues, curadoras da exposição Existe uma vida inteira que tu não conhece, Instituto Tomie Ohtake, São Paulo, Brasil, 2026.
Internacionalização: o trabalho em escala global

A pesquisa que havia começado nas ruas do Rio de Janeiro encontra uma perspectiva global. Em 2024, Allan Weber recebeu o SEED Award da Prince Claus Fund e realizou uma residência artística no Reino Unido, viabilizada pelo Nottingham Contemporary. Ao imergir na rede de entregadores de Nottingham, Weber compartilha uma identificação: a experiência que sua prática tematiza não é exclusiva das cidades brasileiras, mas revela algo mais amplo sobre as condições do trabalho plataformizado.

Dessa imersão nasceu My Order (2025), exposição individual apresentada em dois espaços: no Nottingham Contemporary e no De La Warr Pavilion. A exposição reuniu trabalhos anteriores do artista a novas comissões produzidas a partir da residência, entre elas uma grande instalação. 

A presença internacional de Weber se confirma em sua participação na coletiva The Disagreement: A Theatre of Statements (Neuer Kunstverein Wien, Viena, 2024) na produção da vitrine da Galerie Nordenhake Focus (Estocolmo, 2023), consolidando sua inserção no circuito global da arte contemporânea a partir de um repertório que permanece radicalmente enraizado em sua experiência de vida. 

The Disagreement: A Theatre of StatementsNeuer Kunstverein Wien: Viena, 5 de abril a 31 de julho de 2024.

Allan Weber: My Order. Nottingham Contemporary: Nottingham, 2 de fevereiro a 4 de maio de 2025.

Allan Weber: My Order. Nottingham Contemporary: Nottingham, 2 de fevereiro a 4 de maio de 2025.

Allan Weber: My OrderNottingham Contemporary: Nottingham, 2 de fevereiro a 4 de maio de 2025.

Allan Weber: My OrderNottingham Contemporary: Nottingham, 2 de fevereiro a 4 de maio de 2025.

Allan Weber: My OrderNottingham Contemporary: Nottingham, 2 de fevereiro a 4 de maio de 2025.

Allan Weber: My OrderNottingham Contemporary: Nottingham, 2 de fevereiro a 4 de maio de 2025.

Allan Weber: My OrderNottingham Contemporary: Nottingham, 2 de fevereiro a 4 de maio de 2025.

Allan Weber: My OrderDe La Warr Pavilion: Bexhill-on-Sea, 14 de junho a 14 de setembro de 2025.

Allan Weber: My OrderDe La Warr Pavilion: Bexhill-on-Sea, 14 de junho a 14 de setembro de 2025.

Allan Weber: My OrderDe La Warr Pavilion: Bexhill-on-Sea, 14 de junho a 14 de setembro de 2025.

Focus: Allan Weber. Galerie Nordenhake,Estocolmo, 7 de novembro a 20 de dezembro de 2025.

Focus: Allan Weber. Galerie Nordenhake,Estocolmo, 7 de novembro a 20 de dezembro de 2025.

"Em uma grande instalação suspensa, capacetes, assentos de motocicletas e bolsas térmicas de entrega, provenientes do Rio e de Nottingham, estão amarrados uns aos outros com redes e cordas elásticas. Trata-se de uma rede de segurança ou de uma armadilha? Ao contorná-los, os objetos parecem moscas presas em uma teia de aranha, evocando um sentido de desgraça — uma metáfora clara da natureza precária da economia informal. Há um suspense inerente na maneira como os objetos desmembrados parecem ter sido lançados ao ar."
Kadish Morris, "Allan Weber, Daniel Lind-Ramos — Nottingham Contemporary", resenha para o The Observer, 2025
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Sem título, da série Dia de Baile
2026
Lona
30 x 26 cm
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Sem título, da série Dia de Baile
2022
Lona sobre placa
17 x 24.7 cm
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Sem título, da série Dia de Baile
2024
Lona sobre placa
67 x 38 cm
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Galeria 5 Bocas: arte como infraestrutura

Em 2020, Allan Weber transformou um espaço que havia alugado como ateliê na comunidade 5 Bocas em uma galeria de arte contemporânea, convertendo em “cubo branco” uma antiga barbearia situada na encruzilhada de cinco ruas que batiza o bairro.  

Concebida pelo artista como uma “instalação permanente” e como extensão direta de sua prática, a galeria realiza exposições e encontros, além de ser, também, onde funciona o Tropa da Arte, o time de futebol criado pelo artista. Nesse contexto, arte e futebol operam como veículos de resistência, mobilidade e comunhão. Sua primeira exposição, A Gente Precisa Ver para Acreditar Que É Possível (2021), enuncia esse programa desde o título. 

Galeria 5 Bocas – Acervo do artista. 

Galeria 5 Bocas – Acervo do artista. 

Galeria 5 Bocas – Acervo do artista. 

Galeria 5 Bocas – Acervo do artista. 

Galeria 5 Bocas – Acervo do artista. 

"Na força — também mágica — da hiperbólica encruzilhada de cinco cantos, a Galeria é, por fim, um trabalho de seu criador. Weber assim se inscreve na não tão longa tradição de galerias criadas e geridas por artistas, fazendo, de cada um de seus projetos, práticas ou parcerias, um gesto poético."
Clarissa Diniz, Galeria 5 Bocas: A Gente Precisa Ver Para Acreditar Que É Possível, 2021.

Tropa da Arte – Acervo do artista