Retrato de André Ricardo por Wesley Diego
André Ricardo dedica sua prática artística à pintura em têmpera e tem constituído um repertório singular de formas e figuras que seguem em constante transformação. Suas obras foram apresentadas em mostras coletivas como o 37º Panorama da Arte Brasileira, do MAM São Paulo, e em exposições individuais em São Paulo, Porto Alegre, Nova York, Londres e Mallorca. Nos últimos dois anos, porém, preferiu desacelerar e retornar a uma rotina rigorosa de ateliê. O período foi dedicado à investigação das possibilidades da pintura e à abertura de novos caminhos para sua prática.
A poucas semanas da abertura de Mensageiro da manhã, mostra que marca sua estreia na Almeida & Dale, esse processo culmina em um conjunto de obras que assinala uma inflexão significativa em sua produção, trazendo formas mais fluídas, reforçando o papel do desenho em sua pesquisa, além de apresentar uma fatura marcada por um novo tratamento da tinta de caráter acetinado ou aquoso. Em conversa com André Ricardo, ele conta sobre as transformações em sua obra, a sua relação com a pintura e sobre sua nova exposição.
Desde que iniciou sua graduação em artes visuais na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, em 2006, André Ricardo se dedicou à pintura, com especial interesse na pintura à têmpera. “Acredito que é a técnica que escolhe o artista, não o contrário. A adoção por um procedimento em detrimento do outro é determinante tanto no aspecto visual do trabalho, como também na relação do artista com a matéria”, ele explica.
André Ricardo: A baixa densidade da tinta exige uma fatura econômica, feita em lâminas ralas e transparentes de cor, esse procedimento é que possibilita a construção da luz acetinada que torna a cor na têmpera tão sedutora. Talvez seja essa qualidade que defina melhor a técnica. Para o pesquisador Daniel V. Thompson Jr., por exemplo, o termo têmpera não se define pela mistura de pigmento e gema de ovo, mas como uma disciplina no ato de pintar. Essa disciplina, contudo, não pode ser entendida como um aprisionamento. No meu caso, cada vez mais, tenho encontrado espaço para que a pincelada tenha fluidez e força expressiva, ao mesmo tempo em que a cor possa existir no ápice de seu frescor e luminosidade.
Trabalhar com a têmpera significa envolver-se em todas as etapas da pintura: da preparação dos pigmentos e aglutinantes à construção da tela e à aplicação de cada camada de tinta. O processo, simultaneamente físico e mental, desenvolve-se como um equilíbrio entre planejamento e descoberta.
André Ricardo encara a pintura como uma linguagem, um modo de estruturar o pensamento. Ao trabalhar com uma técnica cuja história remonta à Antiguidade, sua prática estabelece um diálogo contínuo com a tradição pictórica ao mesmo tempo que explora suas possibilidades contemporâneas.
A.R.: Adotar uma técnica antiga, não é fazer arte antiga. Pelo contrário, é tensionar o conhecimento estabelecido, ampliando horizontes e ressignificando a linguagem. Quando elaboro a cor através da têmpera, de algum modo, estabeleço conexões com um grande repertório iconográfico no qual a cor é elemento de grande força expressiva. Essa memória da cor é ativada e ressignificada no presente através do ato de pintar.
Embora nunca tenham ocupado um lugar hierárquico na prática de André Ricardo, o desenho agora ganha outra proeminência no conjunto de obras recentes do artista. Em suas pinturas, os traços de grafite convivem por entre as camadas de tinta, tornando visíveis as decisões, as mudanças de rota, o tempo e os processos na criação de cada obra.
A.R.: Os traçados iniciais, que antecedem a pintura, funcionam como uma espécie de organização das ideias e experimentação do espaço. O desenho não vem pronto ou fechado. Ele está no limiar entre o traçado inicial e algo ainda inconcluso que tenho em mente. Esse ciclo se completa na fase da pintura, ela é guiada por uma espécie de mapa mental. Nesse percurso, posso mudar de ideia, pegar outra rota, me aperceber de alguma possibilidade que ainda não havia sido captada pelo traçado do lápis. As massas de cor vão definindo forma e espaço simultaneamente, não tem separação entre desenho e cor nesse sentido.
Desenhar é uma espécie de ginástica física e mental que precisa ser exercitada regularmente. Desenho com a mão, mas também com o movimento do ombro, tronco, pernas e me coloco inteiro na sensação que a linha transmite. Nas telas grandes, utilizo uma vara de bambu com um lápis sanguínea ou giz carvão fixado na ponta. Esse instrumento não apenas me dá um ponto de vista mais global do que estou fazendo, como também convoca a ação de todo meu corpo na execução da linha.
André Ricardo em seu ateliê — Foto: Wesley Diego
André Ricardo em seu ateliê — Foto: Wesley Diego
André Ricardo em seu ateliê — Foto: Wesley Diego
André Ricardo em seu ateliê — Foto: Wesley Diego
Nos últimos anos, André Ricardo optou por diminuir sua presença pública e dedicar-se quase exclusivamente ao trabalho de ateliê. Abandonou as redes sociais, preservando um tempo de elaboração que considera incompatível com a velocidade do ambiente digital.
A.R.: Esses dois anos que passei entre minha última exposição individual e essa mais recente, que inauguro em agosto na Almeida & Dale, foi um período necessário de pesquisa. Matisse dizia que um pintor não pode ser refém daquilo que conquistou, se aprisionar a uma fórmula. Essa atitude de dúvida diante aquilo que parecia estabelecido é crucial para seguir adiante. Não se pode avançar na certeza, uma vez que a arte acontece quando ultrapassamos a barreira do que já conhecemos. “Somente andando enganado, é que se crê que sente”, essa frase do Fernando Pessoa me cala fundo. Tal atitude diante do fazer poético é, para mim, uma tarefa constante.
André Ricardo em seu ateliê — Foto: Helena Castelo Zilbersztejn
André Ricardo em seu ateliê — Foto: Helena Castelo Zilbersztejn
André Ricardo em seu ateliê — Foto: Helena Castelo Zilbersztejn
André Ricardo em seu ateliê — Foto: Helena Castelo Zilbersztejn
André Ricardo em seu ateliê — Foto: Helena Castelo Zilbersztejn
André Ricardo em seu ateliê — Foto: Helena Castelo Zilbersztejn
André Ricardo em seu ateliê — Foto: Helena Castelo Zilbersztejn
Durante esse período de pesquisa, o artista afirma ter buscado abandonar movimentos conhecidos para ampliar seu repertório de possibilidades, num processo contínuo de dúvida e experimentação. Esse intervalo também foi marcado pela ampliação de seu repertório visual. Uma viagem à Ilha do Ferro, em Alagoas, aproximou o artista da produção local, de seu mobiliário, de seus objetos e da qualidade particular da paisagem e da luz, elementos que passam a dialogar com referências da história da pintura em suas obras. Ainda assim, suas obras não respondem a “temas” ou assuntos predefinidos e as figuras presentes nas pinturas — serpentes, pássaros, máscaras, carrancas ou formas híbridas — não derivam de um programa simbólico fechado. O artista descreve seu aparecimento como um processo intuitivo, em que manchas, linhas e relações cromáticas sugerem imagens antes mesmo de qualquer decisão racional.
A.R.: As figuras chegam até mim como visitas. Da mesma maneira que aparecem, vão embora. Gosto de deixar o caminho livre para ser surpreendido por elas. Às vezes, uma mancha, uma linha, um recorte de cor sobreposta a outra, são suficientes para sugerir uma figura, é como se elas estivessem nascendo ali sem a minha total consciência. Ou melhor, essa consciência existe, mas ela vem por um canal outro que não a razão. Isso demanda bastante trabalho, preciso exercitar muitos caminhos, desenhar bastante e não me apegar demasiadamente a formas definitivas.
André Ricardo entende sua produção como um movimento de retorno contínuo a questões recorrentes, sempre transformadas pela experiência do trabalho. As pinturas recentes evidenciam uma reorganização das formas, agora mais abertas e orgânicas, acompanhada por uma pincelada mais livre.
A.R.: Em minha produção mais recente, sinto que ampliei bastante meu universo e conquistei novos recursos. Diferente do momento anterior, em que tendia a formas mais bem definidas, linhas retas e estruturas bastante frontais, nas composições atuais, as linhas são mais orgânicas, as formas respiram com mais desenvoltura, como se tivessem se desprendido de uma grade mais rente à superfície da tela, sem tanta projeção no espaço.
Também é notável a soltura da fatura e como ela se tornou mais expressiva através da escala. Isso começou ainda na minha última exposição, nas pinturas em que a matéria rala da tinta parecia prestes a dissolver. Na produção atual, busquei amolecer essa fatura ainda mais, isso me parece estar diretamente vinculado a fluidez do desenho e a natureza mais orgânica das formas.
Essas formas permanecem abertas, recusando interpretações unívocas e constituindo fragmentos de um universo que o artista procura explorar sem jamais esgotá-lo.
Sua futura exposição na Almeida & Dale, representa, para André Ricardo, um ponto de inflexão em sua trajetória. Desenvolvida ao longo de aproximadamente dois anos, reúne cerca de dez pinturas e um conjunto de monotipias produzidas especificamente para o projeto.
A.R.: Ao longo de 2025 e primeiro semestre de 2026, pude me dedicar exclusivamente a este projeto, podendo pensar em cada detalhe. Mensageiro da Manhã é o título da mostra, mas também da pintura que receberá os visitantes na exposição. Sem tirar a surpresa, posso contar que esse novo conjunto de trabalhos nasceu a partir desta tela. Ela é uma chave de entrada para o lugar ao qual o visitante será conduzido ao adentrar a sala expositiva. A palavra “manhã” incorpora a ideia de uma luz que nasce e renasce todos os dias, recriando a vida e marcando o passar o tempo. Esse movimento pode ter múltiplos significados, podemos associá-lo a luz na pintura, sua perpétua imanência, mas também gosto de pensar na manhã como uma imagem metafórica do gesto criador.
André Ricardo — Retrato por Wesley Diego
Além de inspirações advindas de viagens e vivências, aliadas à disciplina no trabalho no ateliê ao longo dos últimos anos, esse novo estágio de maturidade do trabalho do artista também é resultado do acúmulo de anos de experiência e prática. Se, em sua sétima exposição individual em São Paulo, vemos surgir uma nova aurora na obra do artista, a graduação dessas mudanças e maturação também pode ser vista ao longo da sua carreira. No início de 2023, André Ricardo se dedicou à realização de uma mostra na Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, que trouxe um recorte importante de suas têmperas produzidas até então. Já no segundo semestre daquele ano, realizou uma exposição individual na Hutchinson Modern & Contemporary, em Nova York, apresentando um conjunto que havia realizado durante o período de residência na cidade, no reconhecido programa da Residency Unlimited. No exterior, o seu trabalho também já foi apresentado em Londres, em uma exposição dedicada a investigar o uso da têmpera na arte brasileira desde o século XX, além de em um duo aproximando o seu trabalho ao do renomado artista baiano Rubem Valentim. Importantes exposições coletivas, que pretendiam reunir os principais artistas da cena atual brasileira, também incluíram obras de André Ricardo, entre elas, o histórico Panorama da Arte Brasileira, realizado pelo MAM São Paulo, na edição intitulada Sob as cinzas, brasa, em 2022, ou ainda, Dos Brasis: Arte e pensamento Negro, com curadoria de Igor Simões, ou a mostra Direito a Forma, realizada no Instituto Inhotim.
Da pintura necessária — Exposição individual com curadoria de Claudinei Roberto da Silva, Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre, Brasil, 2023
Da pintura necessária — Exposição individual com curadoria de Claudinei Roberto da Silva, Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre, Brasil, 2023
Da pintura necessária — Exposição individual com curadoria de Claudinei Roberto da Silva, Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre, Brasil, 2023
37. Panorama da Arte Brasileira — Exposição coletiva com curadoria de Claudinei Roberto da Silva, Vanessa Davidson, Cristiana Tejo e Cauê Alves MAM, São Paulo, Brasil, 2022
37. Panorama da Arte Brasileira — Exposição coletiva com curadoria de Claudinei Roberto da Silva, Vanessa Davidson, Cristiana Tejo e Cauê Alves MAM, São Paulo, Brasil, 2022
Mãos: 35 anos da mão afro-brasileira — Mostra coletiva com curadoria de Claudinei Roberto da Silva, MAM, São Paulo, Brasil, 2023
Direito à forma — Exposição coletiva com curadoria de Igor Simões, Inhotim, Brumadinho, Brasil, 2023
Imaginarium — Exposição individual, Hutchinson Modern & Contemporary, Nova York, EUA, 2023
Imaginarium — Exposição individual, Hutchinson Modern & Contemporary, Nova York, EUA, 2023
André Ricardo e Rubem Valentim: Diálogos — Mostra Duo, Lamb Gallery, Londres, Inglaterra, 2024
André Ricardo e Rubem Valentim: Diálogos — Mostra Duo, Lamb Gallery, Londres, Inglaterra, 2024
André Ricardo e Rubem Valentim: Diálogos — Mostra Duo, Lamb Gallery, Londres, Inglaterra, 2024