Grada Kilomba – Cortesia da artista
Como compreender e curar os traumas do colonialismo? Como encontrar formas de narrar o indizível? A obra de Grada Kilomba percorre diferentes linguagens e mídias na tentativa de elaborar essas questões.
Além de artista, Grada Kilomba se destacou como intelectual e professora ao descrever e analisar as continuidades das violências coloniais de gênero e raça no contexto atual, aliando o pensamento decolonial com a psicanálise. Em seu trabalho artístico, ela conjuga sua produção intelectual com escultura, instalação, vídeo, bem como com teatro, dança e música para interromper a consciência coletiva e construir um léxico que seja capaz de recontar os episódios de barbárie que marcam a humanidade.
Comprometida com a descolonização, suas obras dialogam com e assumem a forma de dispositivos de memória, endereçando o imaginário coletivo, sejam eles a narração e a contação, as performances e rituais, ou os espaços dos museus e os monumentos públicos. Mais do que uma denúncia do legado da violência colonial, elas se colocam como dispositivos que revelam repetições históricas estabelecendo uma temporalidade não-linear; complexificam o entendimento sobre as empreitadas de desumanização que são base para a modernidade; e se colocam como vias para possibilidades de cura.
Um dos episódios de maior violência e barbárie da humanidade, o colonialismo criou condições para tornar viável e moralmente aceitável a pilhagem, o sequestro, a tortura, o assassinato e a escravização de milhões de africanos e de povos indígenas, produzindo um trauma gigantesco de desumanização — uma ruptura que modificou completamente o que houve e o que poderia ter ocorrido na triangulação entre África, Américas e Europa.
Na qualidade de trauma, esse evento se torna algo “indizível”, algo para o qual não há memória ou vocabulário suficientes. Soterrado por narrativas de glória, construídas sob um léxico “infantil e patriarcal”, como classifica a artista (explícito em expressões como “grandes navegações” e “descobrimentos”). Assim, parece especialmente preciso o emprego singular da linguagem na obra de Grada Kilomba e suas indagações: “o que é falado?”, “quem pode falar?”, e “o que acontece quando falamos?”
Deste modo, a linguagem é método e matéria nas obras da artista, seja em obras que lidam diretamente com a palavra e o texto, como The Desire Project, 2016, 18 verses, 2022, Sounds of Water, 2023; naquelas que abordam narrativas estruturantes das sociedades ocidentais como a trilogia A World of Illusions, 2017-2020, que reenquadram os mitos de Echo e Narciso, Édipo e Antígona, em encenações feitas totalmente por corpos negros e narradas pela artista inspirada na figura dos griot; naquelas que lidam com a combinação das linguagens verbal e simbólica, se contrapondo à forma dos monumentos públicos como O Barco, 2021, ou com o canto, a música e a dança, caso de Opera to a Black Venus, 2024, e das performances realizadas pelo ensemble que ativa essas obras.
Como no processo psicanalítico, a artista opera pela narrativa e a reconstituição desses episódios históricos para fornecer novos contornos para o trauma, criando possibilidades para que ele não se repita. Isso, no entanto, não torna suas obras prescritivas, pelo contrário, parte fundamental deste processo é também a efemeridade, a aposta no improviso e na construção coletiva, permeável por forças naturais e humanas — aspecto que se sobressai pela escolha de materiais que compõem as obras da artista.
Grada Kilomba, 18 Versos, 2022. Vista da instalação na Pace Gallery, Nova York. Cortesia do artista.
Grada Kilomba, 18 Versos, 2022. Vista da instalação na Pace Gallery, Nova York. Cortesia do artista.
Grada Kilomba, 18 Versos, 2022. Vista da instalação na Pace Gallery, Nova York. Cortesia do artista.
Grada Kilomba, 18 Versos, 2022. Vista da instalação na Pace Gallery, Nova York. Cortesia do artista.
Grada Kilomba, 18 Versos, 2022. Vista da instalação na Pace Gallery, Nova York. Cortesia do artista.
Grada Kilomba, 18 Versos, 2022. Vista da instalação na Pace Gallery, Nova York. Cortesia do artista.
Grada Kilomba, Illusions Vol. II, Oedipus, 2018, Vista da instalação no Tokyo Photographic Art Museum, Tóquio, 2020, Cortesia da artista
Grada Kilomba, Illusions Vol. II, Oedipus, 2018, Vista da instalação no Tokyo Photographic Art Museum, Tóquio, 2020, Cortesia da artista
Grada Kilomba, Illusions Vol. II, Oedipus, 2018, Vista da instalação no Tokyo Photographic Art Museum, Tóquio, 2020, Cortesia da artista
Grada Kilomba, Illusions Vol. II, Oedipus, 2018, Vista da instalação no Tokyo Photographic Art Museum, Tóquio, 2020, Cortesia da artista
Grada Kilomba, Illusions Vol. II, Oedipus, 2019, Still. Cortesia da Artista
Grada Kilomba, Illusions Vol. II, Oedipus, 2019, Still. Cortesia da Artista
Grada Kilomba, Illusions Vol. II, Oedipus, 2019, Frame. Cortesia da Artista
Outro ponto importante em sua prática é a noção de repetição, ou um posicionamento temporal não cronológico evocado por suas obras. Em trabalhos como O Barco, concebido para BOCA – Bienal of Contemporary Art, Lisboa, em 2019, e exposto de 2024 a 2026 em Inhotim, a artista dispõe blocos de madeira seguindo a organização e a escala dos porões dos navios coloniais, que, além das riquezas extraídas da América, transportava em seus porões pessoas escravizadas. A ordenação desses espaços e as plantas de navios utilizadas como base para a montagem da instalação revelam como a “racionalidade” e o “avanço” da sociedade ocidental são inextricáveis das barbáries do colonialismo. A produção da riqueza no capitalismo tem como sua base a escravização e a colonização.
Constituída em blocos de madeira queimada na escala de um barco real, a obra ganha uma austeridade minimalista que, por seu caráter orgânico, também condensa em si uma temporalidade ancestral e uma suscetibilidade material. Tal solenidade formal, em oposição à forma grandiosa e fálica dos grandes monumentos — especialmente os navais, comuns em Portugal — constitui uma espécie de velamento às vidas perdidas por essas travessias e às realidades impossibilitadas em África e nas Américas. Um poema, gravado sobre os blocos centrais da instalação em iorubá, kimbundu, crioulo cabo-verdiano, português, inglês e árabe da Síria, contextualiza a obra e a “memória” que constrói não como a de um evento longínquo no passado, mas como algo que se reporta a um episódio em continuidade e que, atualmente, se manifesta nas crises de refugiados, nos deslocamentos provocados pela catástrofe climática ou por guerras.
O mesmo movimento temporal é proposto em Opera to a Black Venus, videoinstalação que completa a trilogia formada por O Barco e 18 Verses. Nele, a artista parte da pergunta: “O que o fundo do oceano nos diria amanhã se esvaziado de água hoje?” Aqui somos levados a um futuro de agravamento da crise climática no qual o cenário é seco e rochoso e que, com o desaparecimento da água, revelaria um arquivo humano e memórias até então encobertas.
Como escreve Denise Ferreira da Silva, artista e filósofa: “Kilomba nos convida a especular sobre o que se torna imaginável, expressável e pensável quando as memórias e a história de alguém levam em conta tanto (a) aqueles que se perderam no mar — os que saltaram, os que sucumbiram às doenças ou à fúria de marinheiros descontroladamente violentos — quanto (b) aqueles que escaparam da captura e permaneceram em casa, em algum lugar do continente africano”.
Mais uma vez, o interesse da artista não é em apontar os horrores de um momento distante, nem apenas o ato de violência. Mobilizando a figura da Vênus, associada à criação e à beleza, a deusa emerge com o ensemble em ondulação, cantando, movimentando-se e dançando em ondulação que é tanto lamento quanto a revelação de uma outra sobrevivência. O trabalho mobiliza a imaginar aquilo que fora interrompido pelo tráfico transatlântico, assim como, por outro lado, quais tipos de inteligência e estratégias foram desenvolvidos como resposta. Como complementa Ferreira da Silva: “Essa mudança de foco nos lembra que, em vez de prejudicar aqueles que sobreviveram à travessia, eles nos transmitiram mais do que os elementos habituais de inteligência que se usa para se virar com nada.” (tradução livre).
De fato, a convocação do corpo, do gesto, da respiração, realizada pelo ensemble — que, junto da artista, cria coletivamente as cenas e as performances que animam as instalações, performances e vídeos — ou pela materialidade viva daquilo que compõe as suas obras, reforçam os caminhos para que, em conjunto, um novo vocabulário e, portanto, uma nova realidade seja, ao menos, imaginável.
A escolha de materialidades é, portanto, outro eixo considerável na obra de Grada Kilomba. Assim como os membros do ensemble, a madeira que forma O Barco também respira, expande e contrai, envelhece. Antes da montagem, cada bloco de madeira passou por um meticuloso processo de queima em cada uma de suas faces, passando por valetas escavadas no chão para conter fogo e água, revelando características próprias, sua pele. Um ato performático, conforme descrito pela artista. Em Labyrinth, 2024, faixas de tecido constroem um caminho a ser permeado pelo público, reorganizando o cubo branco e convocando toque e movimento. Já Compressed Time, 2024, reúne rochas escolhidas de locais próximos do local onde é apresentada. O material duro e resistente, cuja existência precede a de qualquer instituição artística e até a humana, é colocado em contato, servindo como apoio, para um frágil cubo de vidro, que, no entanto, traça um caminho de volta até os grãos de areia que um dia foram e que, por sua vez, surgem do atrito das rochas.
Talvez o caso mais exemplar do papel proeminente da materialidade na obra da artista seja Table of Goods, 2017, obra apresentada em Desobediências Poéticas, individual realizada na Pinacoteca de São Paulo em 2019. A instalação consiste em um monte de terra, sobre o qual são dispostos em pequenas caves cacau em pó, chocolate, café moído e em grão e açúcar, e rodeado com velas. Aqui, os materiais correspondem diretamente aos produtos obtidos e comercializados pela empreitada colonial. A simplicidade e crueza material convidam a realizar uma equação, uma contabilização entre comércio e o modo de produção dessas mercadorias.
O que essas materialidades criam é um conjunto de obras com certa efemeridade. Como materiais orgânicos, eles são sujeitos à deterioração, à mobilidade, à transformação. Essa parece ser uma escolha que contrapõe a ideia de permanência contida na noção de poder dos grandes monumentos, assim como na de valor e circulação da obra de arte. Mas o que parece interessante no estatuto de impermanência e suscetibilidade dessas obras é um espelhamento dos gestos de coletividade e improvisação de outros trabalhos da artista. Se essas matérias são móveis, impermanentes, elas também podem ser sujeitas à construção coletiva, e mutáveis em relação aos movimentos internos desse grupo coletivo. Essa ideia parece importante, pois se assemelha às dinâmicas de improviso (um elemento do trabalho nas encenações e performances) que, por sua vez, remontam ao Jazz — cuja forma “completa” reside justamente por estar inacabada, por conter sempre um porvir nas construções e a possibilidade de uma resposta imediata do corpo.
E essa parece ser a tônica da obra de Grada Kilomba, nos movimentos de recuperação de memórias suprimidas, ao revelar o que foi silenciado, é preciso dar uma resposta cuja dificuldade dos problemas exige radicalidade da imaginação. Necessitam ser uma nova construção, coletiva e não prescrita, uma composição ainda em processo.