Ao longo de mais de duas décadas, Héctor Zamora desenvolve uma prática singular na arte contemporânea latino-americana, por meio de ações coletivas, intervenções urbanas e arquitetônicas e esculturas que deslocam continuamente as fronteiras do espaço construído e mobilizam a imaginação política. Nascido na Cidade do México e radicado durante muitos anos em São Paulo, o artista consolidou um trabalho profundamente vinculado aos contextos onde atua, seus objetos, símbolos e memórias específicas, que transforma circunstâncias localizadas geograficamente em estruturas poéticas de alcance global.
Essa capacidade de operar simultaneamente sobre dimensões materiais e conceituais aproxima sua produção de uma investigação antropológica. O próprio artista prefere definir seu trabalho como “mais antropológico do que político”, justamente porque seus projetos partem de conflitos concretos para sublimá-los em experiências abertas, nas quais metáfora e realidade permanecem em negociação.
Héctor Zamora, Tar HyPar, intervenção site specific,Desert X 2026, AlUla, Arábia Saudita, 2026
Héctor Zamora, Tar HyPar, intervenção site specific, Desert X 2026, AlUla, Arábia Saudita, 2026
Héctor Zamora, Tar HyPar, intervenção site specific, Desert X 2026, AlUla, Arábia Saudita, 2026
Héctor Zamora, Escenario hídrico, performance, BOG25 – Bienal Internacional de Arte y Ciudad, Bogotá, Colômbia, 2025
Héctor Zamora, Escenario hídrico, performance, BOG25 – Bienal Internacional de Arte y Ciudad, Bogotá, Colômbia, 2025
Héctor Zamora, Escenario hídrico, performance, BOG25 – Bienal Internacional de Arte y Ciudad, Bogotá, Colômbia, 2025
Héctor Zamora, Quimera, performance, Desert X, Palm Springs Art Museum, Coachella Valley, EUA, 2023
Héctor Zamora, Quimera, performance, Desert X, Palm Springs Art Museum, Coachella Valley, EUA, 2023
Héctor Zamora, Quimera, performance, BoCA – Biennial of Contemporary Arts, Lisboa e Faro, Portugal, 2023
Héctor Zamora, EMERGENCIA, Albarrán Bourdais Gallery, Madri, Espanha, 2024
Héctor Zamora, EMERGENCIA, Albarrán Bourdais Gallery, Madri, Espanha, 2024
Héctor Zamora, EMERGENCIA, Albarrán Bourdais Gallery, Madri, Espanha, 2024
Desde os primeiros trabalhos, na década de 1990, Zamora demonstra interesse pela arquitetura. O ambiente construído aparece em sua obra como um espaço suscetível à intervenção, ocupação e à reorganização de suas dinâmicas e formas. Por outro lado, alguns de seus trabalhos operam o desenho como um princípio construtivo e um modo de ocupar o espaço.
Paracaidista, Av. Revolución 1608 bis (2004) constitui um marco dessa investigação. A construção suspensa na fachada do Museo Carrillo Gil, na Cidade do México, inspirava-se nas técnicas de autoconstrução das periferias mexicanas e permanecia literalmente habitada pelo artista, criando um endereço paralelo — “1608 bis” — que colocava em suspensão as fronteiras entre instituição e cidade, público e privado. Utilizado no México para designar ocupações irregulares, o termo paracaidista transforma-se em metáfora de uma arquitetura que cresce como organismo aderido ao edifício oficial.
Essa lógica reaparece em obras como Flexión (2005), Líneas de Suspensión (2005) e Volatile Topography (2006), nas quais bambus, cordas, balões de hélio ou curvas catenárias deixam de funcionar como elementos estruturais convencionais para constituir desenhos tridimensionais que podem ser percorridos ou utilizados pelo público. A geometria deixa de ser um princípio racional de organização do espaço e torna-se uma experiência corporal, modificada pela ação da gravidade, do vento e dos participantes.
O legado construtivo e concreto latino-americano é colocado em diálogo e crítica na obra do artista, ao deslocar essas premissas históricas para um terreno instável. Módulos industriais, tijolos e telhas deixam de representar ordem para tornar-se instrumentos de reorganização da ordem pré-estabelecida. Em obras como a série Potencialidades, o tijolo passa de unidade indivisível da construção para revelar uma condição fragmentária, aberta à recomposição e ao acaso.
Essa expansão da geometria em direção ao orgânico constitui um dos fios condutores de sua trajetória, em que desenhos topográficos e esquemas projetivos ganham aspecto orgânico: são exemplares obras nas quais formas icônicas da arquitetura moderna latino-americana são transformadas em formas que se assemelham à aves ou elementos da paisagem natural como morros e montanhas.
Héctor Zamora, Strangler, intervenção site specific, Triennial Brugge Bruges, Bélgica, 2021
Héctor Zamora, Fléxion, intervenção site specific, Indian International Center
New Delhi, India, 2005
Héctor Zamora, Líneas de Suspensíon, exposição individual, Galería Enrique Guerrero, Cidade do México, 2005
Héctor Zamora, Pabellón Siete, intervenção site specific, Trámite Buró de Coleccionistas – TOMO 008, Querétaro, México, 2024
Se a arquitetura oferece o campo inicial de investigação, é a gravidade que organiza grande parte da poética de Zamora. Árvores, dirigíveis, redes, bandeiras, barcos, livros, vasos ou tijolos aparecem constantemente deslocados de sua função habitual, submetidos à situações de equilíbrio precário que suspendem tanto a lógica física quanto os significados históricos que carregam.
Héctor Zamora, Sciame di Dirigibili, exposição individual, 59th Venice Bienale, Itáli, 2009
Héctor Zamora, Sciame di Dirigibili, exposição individual, 59th Venice Bienale, Itália, 2009
Héctor Zamora, Delirio, performance, cortesia da Labor Gallery, Cidade do México, 2023
Héctor Zamora, Delirio, performance, cortesia da Labor Gallery, Cidade do México, 2023
Héctor Zamora, Volatile Topography, intervenção site specific, Busan Biennial, Coreia do S, 2006
Héctor Zamora, Volatile Topography, intervenção site specific, Busan Biennial, Coreia do Sul, 2006
Uma das obras que sintetiza esse conjunto de operações é Errante (2010), no qual dezenas de árvores foram suspensas por cabos de aço sobre o rio Tamanduateí. A intervenção transforma uma infraestrutura marcada pela degradação urbana em um jardim impossível, cuja existência depende precisamente de sua condição transitória.
Ao mesmo tempo em que evidencia o desaparecimento das áreas públicas e da paisagem natural de São Paulo, Errante projeta uma imagem fantasmática de outra cidade possível, suspensa entre memória e imaginação.
A partir do final dos anos 2000, a pesquisa de Zamora concentra-se progressivamente sobre materiais elementares da construção civil — sobretudo o tijolo, a telha e a cerâmica. Esses elementos deixam de operar apenas como módulos arquitetônicos para tornar-se dispositivos críticos capazes de evidenciar os mecanismos que sustentam tanto a cidade quanto as relações sociais. A trajetória do artista desenvolve-se por recorrências, fazendo com que determinados materiais retornem continuamente em diferentes contextos, enquanto a noção de suspensão e construção se consolidam como princípios estruturantes de sua linguagem. É ela que introduz elementos desestabilizadores das hierarquias e convenções, instaurando ciclos permanentes de construção, queda e recomposição.
Héctor Zamora, Memorándum, performance, Museo Universitario del Chopo, Cidade do México, 2017
Héctor Zamora, Memorándum, performance, Museo Universitario del Chopo, Cidade do México, 2017
Héctor Zamora, Uma boa ordem, recorte de um painel de cobogó de cerâmica, 27a Bienal de São Paulo, Brasil, 2006
Héctor Zamora, Uma boa ordem, recorte de um painel de cobogó de cerâmica, 27a Bienal de São Paulo, Brasil, 2006
Héctor Zamora, Movimientos emisores de existencia, performance, Fundación de Arte Otazu, Navarra, Espanha, 2019
Héctor Zamora, Movimientos emisores de existencia, performance, Fundación de Arte Otazu, Navarra, Espanha, 2019
Héctor Zamora, Lattice Detour, intervenção site specific, Metropolitan Museum, New York, EUA, 2020
Héctor Zamora, Lattice Detour, intervenção site specific, Metropolitan Museum, New York, EUA, 2020
Héctor Zamora, Lattice Detour, intervenção site specific, Metropolitan Museum, New York, EUA, 2020
Em Inconstância Material (2012/2013), essa lógica torna-se especialmente visível. Durante toda a duração da performance, pedreiros lançam centenas de tijolos entre si em um circuito circular, sem início nem fim, transformando um gesto associado à produtividade em uma ação deliberadamente improdutiva. Em vez de construir, os trabalhadores mantêm a matéria em circulação permanente.
A ação também reorganiza a própria linguagem do trabalho enquanto os performers entoam um poema feito por Nuno Ramos, que incorpora frases populares lançadas com os tijolos, fazendo com que corpo, voz e matéria passem a obedecer à mesma geometria do movimento.
A circulação infinita dos tijolos transforma o trabalho em um circuito fechado, cuja repetição evidencia o absurdo de lógicas sociais pautadas na produtividade e acumulação infinitas.
Ao longo da última década, Zamora radicaliza essa investigação, deslocando o foco da construção para os processos de desmantelamento. Em suas obras, destruir nunca significa aniquilar, mas revelar estruturas invisíveis, interromper narrativas consolidadas e abrir espaço para novas possibilidades de reorganização.
Em Orden y Progreso (2012), um barco pesqueiro é desmontado lentamente na Praça dos Heróis Navais, em Lima. A curadora Tatiana Cuevas observa que a obra inverte deliberadamente a promessa positivista inscrita no lema da bandeira brasileira: emvez de associar ordem à construção de um futuro, o processo conduz “ao desaparecimento das promessas inerentes à simbologia da embarcação”, propondo uma pausa diante das narrativas modernas de progresso contínuo.
O mesmo princípio reaparece em O Abuso da História (2014), quando centenas de vasos são lançados do alto do antigo Hospital Matarazzo, ou em Ruptura (2016), ação na qual voluntários rasgam livros negros e deixam suas páginas cair pelo vazio arquitetônico antes de recompô-las. Essas ações não representam simples destruição, mas movimentos elípticos em que ordem e caos se sucedem continuamente, instaurando um novo ciclo.
Héctor Zamora, Ruptura, performance, Biennale de Lyon, França, 2017
Héctor Zamora, Ruptura, performance, Biennale de Lyon, França, 2017
Héctor Zamora, Ruptura, performance, Biennale de Lyon, França, 2017
Héctor Zamora, O Abuso da História, perfomance, Cidade Matarazzo São Paulo, Brasil, 2014
Héctor Zamora, O Abuso da História, perfomance, Cidade Matarazzo São Paulo, Brasil, 2014
Héctor Zamora, O Abuso da História, perfomance, Cidade Matarazzo São Paulo, Brasil, 2014
Héctor Zamora, ntervenções em parques públicos da cidade de Havana 9a Bienal de La Habana, Cuba, 2006
Héctor Zamora, intervenções em parques públicos da cidade de Havana 9a Bienal de La Habana, Cuba, 2006
Héctor Zamora, intervenções em parques públicos da cidade de Havana 9a Bienal de La Habana, Cuba, 2006
Héctor Zamora, Orden y progreso, performance, Paseo de los Héroes Naveles
Lima, Perú, 2012
Héctor Zamora, Orden y progreso, performance, Paseo de los Héroes Naveles
Lima, Perú, 2012
Héctor Zamora, Orden y progreso, performance, Paseo de los Héroes Naveles
Lima, Perú, 2012
Zamora desafia limitações do espaço e transforma materiais cotidianos em metáforas capazes de suspender o curso aparentemente inevitável da história. Suas obras interrompem o fluxo linear do progresso para evidenciar que toda arquitetura, toda cidade e toda ordem social permanecem provisórias.
Sua produção demonstra que construir é sempre reorganizar relações e que toda estrutura contém, simultaneamente, a possibilidade de sua modificação. Ao transformar temporariamente o espaço, evidenciando seus processos sociais e históricos de construção, o artista evidencia processos sempre sujeitos à negociação, ao deslocamento e à reconfiguração.
Assim, ao interromper as lógicas da produção, da arquitetura e da cidade, Zamora abre espaço para imaginar outras formas de organização do comum, nas quais construção e destruição deixam de ser opostos para constituir momentos inseparáveis de um mesmo ciclo de renovação.
Héctor Zamora, retrato