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Michael Rakowitz

Michael Rakowitz

Michael Rakowitz – Retrato por John Nguyen

Em seu trabalho, Michael Rakowitz aborda a História, os dispositivos oficiais de construção de memória, bem como os conflitos sociais e geopolíticos imbuídos em espaços urbanos e em objetos cotidianos. O artista constitui uma certa “etimologia material” ao manter uma metodologia investigativa sobre as contingências específicas de seus projetos, revelando eventos históricos, biográficos e culturais que resultam em imbricamentos complexos de imagens, linguagens e tempos.

Mobilizado por sua ascendência iraquiana-judia, sua obra propõe reaparecimentos que aguçam as contradições entre a suposta racionalidade e a violência dos modelos civilizacionais do Ocidente. Entre operações no campo simbólico e torções do aparato burocrático, sua obra atravessa tópicos como colonialismo, o imperialismo, a repatriação de objetos e outros modos de responsabilização e compensação.

A apropriação de embalagens de alimentos e o próprio ato da alimentação, recorrentes em seus trabalhos mais célebres, servem tanto como veículo para abordar fluxos migratórios, diásporas e despossessão, quanto como testemunhos da preservação de tradições, da resistência cultural. Sua prática pautada no engajamento com comunidades e no convite à participação, embaça a fronteira entre arte e vida, ultrapassando uma chave unicamente negativa-crítica e se apresenta como ferramenta de construção de esperança e de fortalecimento coletivo.

The invisible enemy should not exist

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The Invisible Enemy Should Not Exist
2018
7 objetos feitos de papelão, embalagens do Oriente Médio e jornais, cola e etiquetas de museu
Dimensões variadas
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The Invisible Enemy Should Not Exist é uma série ainda em andamento de obras que constroem reaparições de artefatos e esculturas da antiga Mesopotâmia, no Iraque, que foram historicamente saqueados e recentemente roubados ou destruídos.

A primeira iteração da série ocorreu em 2008. Ela se desdobra como uma narrativa intrincada sobre os artefatos roubados do Museu Nacional do Iraque, em Bagdá, no contexto imediato da invasão norte-americana de abril de 2003; sobre o status atual de seu paradeiro; e sobre a sequência de acontecimentos envolvendo a invasão, o saque e os protagonistas relacionados. O núcleo do projeto é uma série contínua de esculturas que representa uma tentativa de reconstruir os artefatos arqueológicos saqueados.

Aludindo à invisibilidade implícita dos artefatos do museu (relatórios iniciais sobre o saque foram inflados devido à “névoa da guerra”, segundo funcionários do museu), as reconstruções são feitas com embalagens de alimentos do Oriente Médio e jornais árabes locais, itens de visibilidade cultural encontrados em cidades por todo os Estados Unidos. Os objetos são criados por uma equipe de assistentes utilizando o banco de dados do Instituto Oriental da Universidade de Chicago, bem como informações publicadas no site da Interpol. Este projeto constitui um compromisso contínuo de recuperar mais de 7.000 objetos que permanecem desaparecidos.

Allspice: Michael Rakowitz & Ancient Cultures –Exposição individual, Acropolis Museum, Atenas, Grécia, 2025

Allspice: Michael Rakowitz & Ancient Cultures –Exposição individual, Acropolis Museum, Atenas, Grécia, 2025

Allspice: Michael Rakowitz & Ancient Cultures –Exposição individual, Acropolis Museum, Atenas, Grécia, 2025

Proxies for Poets and Palaces – Exposição individual, Stavanger Art Museum, Stavanger, Noruega, 2025 — foto: Erik Sæter Jørgensen

Proxies for Poets and Palaces – Exposição individual, Stavanger Art Museum, Stavanger, Noruega, 2025 — foto: Erik Sæter Jørgensen

The invisible enemy should not exist (cylinder seals), 2022 foto: Anna Sthraus

The invisible enemy should not exist (cylinder seals), 2022 foto: Anna Sthraus

Michael Rakowitz – Exposição individual, Jameel Arts Center, Dubai, Emirados Árabes Unidos, 2020 — foto: Daniella Bapista

Michael Rakowitz – Exposição individual, Whitechapel Gallery, Londres, Reino Unido, 2019

The invisible enemy should not exist (cylinder seals) — foto: Anna Sthraus

Iniciado em 2018, The Invisible Enemy Should Not Exist (Northwest Palace of Nimrud) concentra-se nos relevos escultóricos que revestiam as paredes do antigo Palácio Assírio de Nimrud (atual Mossul, Iraque), destruídos pelos ataques do ISIS em 2014. Utilizando documentação fotográfica como base, os relevos foram fielmente reconstruídos por Rakowitz e uma equipe de assistentes com jornais árabes, embalagens de alimentos e papelão, e finalmente exibidos no museu de acordo com sua disposição exata no Palácio de Nimrud.

Uma vez instalados, os relevos “reaparecidos” não apenas abordam sua destruição recente e a rede sociopolítica em torno do evento, mas também evidenciam o saque histórico da região. Sua reconstrução cuidadosa — como se o público fosse transportado para o “dia anterior” aos ataques do ISIS — revela os painéis e fragmentos ausentes, removidos há muito tempo por expedições coloniais. Assim, as partes faltantes e a “decapitação” de algumas figuras representadas nos painéis assírios correspondem a partes levadas para coleções privadas ou, em alguns casos, para museus na Europa e nos Estados Unidos.

The invisible enemy should not exist (Lamassu of Nineveh)

Após uma comissão para o Fourth Plinth na Trafalgar Square, em Londres, em 2018, Michael Rakowitz desenvolveu The Invisible Enemy Should Not Exist (Lamassu of Nineveh).

O Lamassu de Nínive, um touro alado que servia como divindade protetora assíria, permaneceu na entrada do Portão de Nergal, em Nínive, desde cerca de 700 a.C. até fevereiro de 2015, quando o ISIS o destruiu juntamente com artefatos no Museu de Mossul. O Fourth Plinth, na Trafalgar Square, mede aproximadamente 4,3 metros de comprimento, o mesmo que o Lamassu.

Para a ocasião, o artista reconstruiu o Lamassu utilizando latas metálicas vazias de xarope de tâmaras iraquiano para revestir uma estrutura interna de aço. O verso apresenta uma inscrição cuneiforme esculpida que era invisível aos visitantes porque estava cimentada à parede do Portão de Nergal. Ali, em seu estado removido e deslocado, o cuneiforme é exposto e traduz-se como: “Senaqueribe, rei do mundo, rei da Assíria, mandou reconstruir a muralha (interna) e externa de Nínive e elevá-la tão alta quanto montanha(s).”

“A reconstrução, instalada no Fourth Plinth, permite que uma aparição assombre a Trafalgar Square. Diferentemente do par de Lamassu abrigado no interior do British Museum, a recriação permanece do lado de fora, com as asas erguidas, ainda cumprindo seu dever como guardiã do passado e do presente do Iraque, na esperança de retornar no futuro”, afirma Rakowitz.

The invisible enemy should not exist, 2018 – 10.500 latas de xarope de tâmaras iraquianas, estrutura metálica

The invisible enemy should not exist, 2018 – 10.500 latas de xarope de tâmaras iraquianas, estrutura metálica

The invisible enemy should not exist, 2018 – 10.500 latas de xarope de tâmaras iraquianas, estrutura metálica

The invisible enemy should not exist, 2018 – 10.500 latas de xarope de tâmaras iraquianas, estrutura metálica

The invisible enemy should not exist, 2018 – 10.500 latas de xarope de tâmaras iraquianas, estrutura metálica

The invisible enemy should not exist, 2018 – 10.500 latas de xarope de tâmaras iraquianas, estrutura metálica

“Na noite de 17 de janeiro de 1991, lembro-me de estar sentado diante da televisão enquanto jantava, assistindo pela primeira vez em nossas vidas a imagens em tempo real do Iraque — de edifícios que meus irmãos e eu jamais chegaríamos a visitar. E então, de repente, percebi que o lugar para onde meus avós haviam fugido estava destruindo o lugar de onde eles fugiram. Foi quando realmente comecei a reconhecer sobre o que seria o trabalho da minha vida.”
— Michael Rakowitz, em vídeo para o Nasher Prize Dialogues, 2022

RETURN

RETURN, 2004 – em andamento – Davisons & Co. fachada da loja n Atlantic Avenue, Brooklyn, NY, 2006

RETURN, 2004 – em andamento – Davisons & Co. fachada da loja n Atlantic Avenue, Brooklyn, NY, 2006

RETURN, 2004 – em andamento – Tâmaras importadas do Iraque e rotuladas de acordo pela Davisons & Co.

RETURN, 2004 – em andamento – Tâmaras importadas do Iraque e rotuladas de acordo pela Davisons & Co.

RETURN, 2004 – em andamento – Michael Rakowitz na loja da Davisons & Co. na Atlantic Avenue, 2006

RETURN, 2004 – em andamento – Michael Rakowitz na loja da Davisons & Co. na Atlantic Avenue, 2006

RETURN, 2004 – em andamento – Registro de importação da DHL

RETURN, 2004 – em andamento – Linha do tempo

RETURN, 2004 – em andamento – Tâmaras importadas do Iraque e rotuladas de acordo pela Davisons & Co.

RETURN, 2004 – em andamento – Tâmaras importadas do Iraque e rotuladas de acordo pela Davisons & Co.

Em 1941, Nissim bin Ishaq Daoud bet Aziz, avô de Michael Rakowitz, foi exilado do Iraque com sua família. Como muitos judeus iraquianos, foram forçados a deixar para trás um legado que se estendia por quase meio milênio. Após se estabelecerem em Long Island, sua empresa de importação e exportação, Davisons & Co., uma das mais bem-sucedidas e ativas no Oriente Médio, encontrou um novo lar em Nova York. A empresa encerrou suas atividades na década de 1960, e Nissim Isaac David faleceu em 1975.

Em 2004, o artista reabre a empresa como um projeto artístico e, em 2006, inaugura a Davisons & Co. como uma loja na Atlantic Avenue, no Brooklyn, Nova York. A empresa inicialmente funcionou de maneira um tanto simbólica como um ponto de coleta. Em seguida, em 2005, assumiu a forma de um centro completo de embalagem e triagem. Membros da comunidade da diáspora iraquiana e cidadãos interessados foram convidados a enviar objetos e mercadorias de sua escolha, que seriam remetidos gratuitamente a destinatários no Iraque — uma oferta excepcional em um momento em que a infraestrutura de transporte e comércio no país havia colapsado completamente em decorrência da guerra.

Além de dar continuidade ao gesto de envio de itens, o projeto buscava explorar a possibilidade de importar algo claramente rotulado como “Produto do Iraque”. Essa iniciativa começou com a descoberta de uma lata de xarope de tâmaras da Second House Products. Embora estampado no verso como “Produto do Líbano”, o xarope de tâmaras é, na verdade, processado em Bagdá, colocado em grandes recipientes plásticos e depois transportado pela fronteira até a Síria, onde é embalado em latas de alumínio sem identificação. Em seguida, atravessa a fronteira até o Líbano, onde recebe um rótulo e é então exportado para o restante do mundo. De 1990 até maio de 2003, esse foi um dos métodos utilizados por empresas iraquianas para contornar as sanções da ONU. A prática ainda estava em vigor em agosto de 2004, mais de um ano após o fim das sanções, devido às taxas “de segurança” proibitivas impostas pela Alfândega e Patrulha de Fronteira dos EUA e pelo Departamento de Segurança Interna a qualquer carga cuja origem fosse o Iraque.

Por fim, “o xarope de tâmaras me levou às tâmaras, que eram lendárias no Iraque, com uma produção de mais de 600 variedades”, relata Rakowitz. “Assinei um acordo com uma empresa iraquiana, a Al Farez, para importar uma tonelada de tâmaras da cidade de Hilla — o primeiro acordo desse tipo em mais de 25 anos.”

paraSITE

paraSITE, 1998 – em andamento. Sacos plásticos, tubos de polietileno, ganchos, fita adesiva, dimensões variáveis

paraSITE, 1998 – em andamento. Sacos plásticos, tubos de polietileno, ganchos, fita adesiva, dimensões variáveis

paraSITE, 1998 – em andamento. Sacos plásticos, tubos de polietileno, ganchos, fita adesiva, dimensões variáveis

paraSITE, 1998 – em andamento. Sacos plásticos, tubos de polietileno, ganchos, fita adesiva, dimensões variáveis

paraSITE, 1998 – em andamento. Sacos plásticos, tubos de polietileno, ganchos, fita adesiva, dimensões variáveis

paraSITE, 1998 – em andamento, Sacos plásticos, tubos de polietileno, ganchos, fita adesiva, dimensões variáveis

paraSITE, 1998 – em andamento, Manual de instruções

paraSITE, 1998 – em andamento, Manual de instruções

paraSITE, 1998 – em andamento. Sacos plásticos, tubos de polietileno, ganchos, fita adesiva, dimensões variáveis

paraSITE, 1998 – em andamento. Sacos plásticos, tubos de polietileno, ganchos, fita adesiva, dimensões variáveis

paraSITE, 1998 – em andamento. Sacos plásticos, tubos de polietileno, ganchos, fita adesiva, dimensões variáveis

paraSITE, 1998 – em andamento. Sacos plásticos, tubos de polietileno, ganchos, fita adesiva, dimensões variáveis

paraSITE, de Michael Rakowitz, é um projeto em andamento que propõe abrigos infláveis temporários para pessoas em situação de rua, construídos com sacolas plásticas, fita adesiva e polietileno. Desenvolvidos a partir de conversas com pessoas que vivenciam a falta de moradia, os abrigos são adaptados às suas necessidades e desejos específicos. As estruturas, feitas sob medida, conectam-se às saídas externas do sistema de Aquecimento, Ventilação e Ar-Condicionado de um edifício, utilizando o ar quente expelido para inflar e aquecer seus interiores.

O projeto teve início com a distribuição de mais de 30 abrigos para pessoas em situação de rua em Boston, Cambridge e Nova York e, desde então, vem sendo construído e distribuído anualmente em Chicago.

O artista também desenvolveu um manual com instruções sobre como construir esses abrigos, incentivando os leitores a implementar e criar essa ação paliativa diante da crise habitacional.

"Dizem que as cidades se formam quando as pessoas decidiram cozinhar juntas. Cozinhar é alquimia, é moldado com as mãos, o tempo e o calor. E para mim, há muitas semelhanças, formalmente, com a escultura."
— Michael Rakowitz, em vídeo para o Nasher Prize Dialogues, 2022

Enemy Kitchen

Enemy Kitchen, 2003 – em andamento, Oficina de culinária

Enemy Kitchen, 2003 – em andamento, Oficina de culinária

Enemy Kitchen, 2003 – em andamento, Oficina de culinária

Enemy Kitchen, 2003 – em andamento, Oficina de culinária

Enemy Kitchen, 2003 – em andamento, Oficina de culinária

Enemy Kitchen, 2003 – em andamento, Oficina de culinária

Enemy Kitchen, 2003 – em andamento, Oficina de culinária

Enemy Kitchen, 2003 – em andamento, Oficina de culinária

Enemy Kitchen, 2003 – em andamento, Oficina de culinária

Enemy Kitchen, 2003 – em andamento, Oficina de culinária

Enemy Kitchen é outro projeto em andamento de Michael Rakowitz que evoluiu ao longo do tempo ao se engajar com diferentes comunidades. Criado para contrapor uma visão monolítica do Iraque como um lugar exclusivamente associado à guerra, o trabalho inicialmente envolvia ensinar e preparar receitas iraquianas em conjunto, aproximando as pessoas por meio de refeições compartilhadas.

“Em janeiro de 1991, testemunhei o Iraque pela primeira vez em tempo real, por meio das imagens esverdeadas de visão noturna da CNN — de edifícios que eu nunca chegaria a visitar — sendo bombardeados por bombas americanas. De repente, ali à mesa de jantar, assistindo a tudo aquilo acontecer, percebi que o lugar para onde meus avós haviam fugido estava destruindo o lugar de onde fugiram. Senti-me dividido, estilhaçado”, disse Rakowitz em entrevista a Cecilia Fajardo Hill. “Minha mãe percebeu como aquilo estava me afetando e tentou chamar a atenção minha e dos meus irmãos, nos distraindo da TV. ‘Vocês sabiam que não há restaurantes iraquianos em Nova York?’, perguntou. Foi como um enigma da Esfinge. Mais tarde, entendi o que ela queria dizer: o Iraque não era visível neste país para além do petróleo e da guerra. Aquele momento tornou-se uma cena primordial que inspirou Enemy Kitchen, quando os tambores da guerra voltaram a soar em direção ao Iraque em 2003.”
Com a ajuda de sua mãe, o artista reuniu receitas bagdalis para ensinar a diferentes públicos, incluindo estudantes do ensino fundamental e médio. Preparar e depois compartilhar essa comida criou um caminho por meio do qual o Iraque poderia ser discutido — “por meio de um dos elementos culturais mais familiares: o alimento”. O trabalho confrontava a invisibilidade da cultura iraquiana nos Estados Unidos, buscando oferecer uma narrativa alternativa àquela promovida pela mídia.

Com o tempo, o projeto se desenvolveu em um food truck plenamente funcional, operado por chefs iraquianos, com veteranos de guerra atuando como seus subchefs.