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Miriam Inez da Silva

Miriam Inez da Silva

Miriam Inez da Silva (1937, Trindade, Brasil — 1996, Rio de Janeiro, Brasil) construiu grande parte de seu imaginário visual a partir de suas memórias de infância em Trindade, Goiás, cidade onde nasceu. Cenas de casamentos, espetáculos circenses, festas populares, brincadeiras infantis, seres alados e imagens de uma religiosidade sincrética e mística, pela qual Trindade é conhecida, são representados em suas pinturas por meio de um olhar que encontra o fantástico no cotidiano interiorano.  

Me perco nas recordações de minha infância, em Trindade, interior de Goiás. As cenas de casamento, gente na feira, crianças brincando, quintais e festas juninas permanecem em mim.
— Miriam Inez da Silva, Antonietta Santos, "Na pintura de Miriam, uma risonha malícia antifossa", Diário de Notícias, 7 maio 1974.

Sua produção em xilogravura e pintura demonstra o apreço da artista pelas técnicas artesanais de manufatura de objetos e imagens utilizadas pelos artesãos para criar os ex-votos que preenchiam a “Sala dos Milagres” da Igreja Matriz de Trindade. Miriam declarou que os trabalhos desses artistas influenciaram sua obra tanto quanto Ivan Serpa, um de seus professores no curso de Técnica e Crítica da Pintura no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, que frequentou nos anos 1960. Serpa  fundador do Grupo Frente e  cuja experimentação o levou do concretismo ao abstracionismo — incentivou as investigações estéticas empreendidas por Miriam e a relação que estabeleceram marcou a trajetória da artista

Para mim pintar é vida. Pinto o que amo e sinto no coração. O povo para mim, o Brasil, são uma atração grande demais. Curto ouvir causos, música popular e o mais importante, estou muito com gente, mas não importa a escala social. Minha pintura deve muito aos grandes mestres que tive em Goiás. E, no Rio, o Ivan Serpa. 
— Miriam Inez da Silva, O Popular, Goiânia, 20 dez. 1983. 
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Título desconhecido
s.d.
Xilogravura sobre papel
40 x 36 cm
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Título desconhecido
1967
Xilogravura sobre papel
45 x 54 cm
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Miriam iniciou sua formação artística na Escola de Belas Artes da Universidade de Goiás, em Goiânia, em 1955. No início da década seguinte mudou-se para o Rio de Janeiro, onde ingressou no curso de gravura do Instituto de Belas Artes do Estado da Guanabara, em 1962. Nesse período, a artista concentrou-se na produção de xilogravuras e participou da exposição Três jovens gravadores (1962), realizada no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, por meio da qual seus trabalhos conquistaram a atenção da crítica especializada e de instituições, proporcionando a inserção da artista no circuito da arte. Morando no Rio de Janeiro, Miriam conviveu com artistas de diferentes vertentes da arte brasileiraSeu vocabulário visual abriga do pop à abstração geométrica.

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Título desconhecido
1968
36,5 x 26 cm
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Título desconhecido
1968
Óleo sobre aglomerado de madeira
41 x 29,7 cm
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Ela conhece bem, por exemplo, a pintura de Fernand Léger, pois como esse artista sabe criar volumes na bidimensionalidade do suporte; conhece Chagall, na medida em que deixa seus personagens flutuarem no espaço do quadro, como se esses fugissem à gravidade da terra; leveza, entretanto, que contrasta com a solidez gorda e satisfeita de seus bois, árvores e gentes. Há algo de Tarsila em sua pintura, aquele ar ao mesmo tempo caipira e erudito da musa do Modernismo brasileiro.
— Frederico Morais, Coluna Artes Plásticas, Diário de Notícias, 7 ago. 1968
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Título desconhecido
1980
Óleo sobre madeira
86,2 x 10,2 cm
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Em 1964, Miriam começou a participar de importantes mostras nacionais, como a 1ª Exposição da Jovem Gravura Nacional, organizada por Walter Zanini no Museu de Arte Contemporânea da USP, São Paulo, que seguiu em itinerância por diversos estados brasileiros. A artista também começou a expor suas gravuras e pinturas ao lado de artistas como Ivan Serpa, Alfredo Volpi, Sergio Camargo, Maria Leontina, Carlos Zilio, Rubens Gerchman, entre outros. Suas gravuras participaram de exposições coletivas de prestígio, como a Bienal de São Paulo (1963, 1967) e a Bienal da Bahia, Salvador, no Brasil (1966, 1968), e a Bienal de Gravura de Santiago, no Chile (1969). 

O interesse de Miriam pela transgressão ética, pela construção da liberdade em recusa à servidão, atravessa toda sua obra. É verdade que em suas pinturas encontramos festas religiosas, procissões, cirandas, cenas no campo, casamentos, festas de família, espetáculos musicais, de circo, teatro, auditórios de programas de TV, protestos políticos, partidas de futebol, restaurantes, bares, carnaval, gafieiras e escolas de samba. Mas, ao encarar as minúcias dessas cenas, observamos tensões e conflitos que mais desafiam do que conservam a “tradição”. A direção de um olhar, a expressão de um rosto, a proporção entre as figuras, as posturas dos corpos: são pequenas escolhas que evidenciam um humor malicioso, astuto, crítico e inconformado da artista. 
— Bernardo Mosqueira. As impurezas extraordinárias de Miriam Inez da Silva. São Paulo: Almeida & Dale, 2021, p.34. 
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Título desconhecido
1982
Óleo sobre madeira
30,2 x 6,3 x 6,3 cm
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Título desconhecido
1981
29 x 40,4 cm
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Título desconhecido
1981
Óleo sobre madeira
16,5 x 76,4 cm
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No início da década de 1970, Miriam passou a privilegiar a pintura a óleo, utilizando placas de madeira como suporte. A artista desenvolveu uma estética marcante, inserindo na superfície pictórica bordas geométricas coloridas que emulam molduras, assim como formas abauladas nos vértices superiores que sugerem cortinas de um espetáculo teatral. Além de referências da cultura popular, Miriam incorporou aos seus trabalhos temas da iconografia clássica da história da arte, bem como abordou a cultura contemporânea, retratando em seus trabalhos ídolos como Rita Lee, Raul Seixas, Madonna, John Lennon; e personagens literárias como Gabriela, do romance de Jorge Amado. Miriam representava em suas pinturas a multiplicidade da cultura brasileircuja diversidade valorizava. Em muitos aspectos, suas obras se chocam com conservadorismo que mantinha o país sob o regime militar.

O "camp", em Miriam, emerge do sentido de teatralidade que atravessa suas pinturas, desde a composição como um todo até a escolha de certos temas e a maneira como representa as figuras. As molduras pintadas diretamente sobre a superfície pictórica, bem como as cortinas e formas abauladas que muitas vezes envolvem os personagens, delimitam um espaço que circunscreve aquilo que deve ser observado, estabelecendo uma dinâmica entre espetáculo e espectador. A ação que se desenrola em suas telas não seria, portanto, apenas o registro de algo observado no cotidiano, mas sua reencenação. 
— Kiki Mazzucchelli. “O camp-naïf de Miriam”, in: Bernardo Mosqueira, As impurezas extraordinárias de Miriam Inez da Silva. São Paulo: Almeida & Dale, 2021, p.99.
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Rita Lee...
1981
Óleo sobre madeira
44,5 x 44,5 cm
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Gabriela cravo e canela e o amor
1983
Óleo sobre madeira
34,4 x 49,6 cm
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Suas composições com elementos figurativos sobre fundo branco chapado aludem sobretudo às estampas e xilogravuras que ilustram a literatura de cordel. Ao conjugar registros figurativos e geométricos que sugerem um espaço performativo, Miriam conferiu um caráter retórico às suas obras. A apropriação da linguagem popular provinda da tradição do cordel sugere ainda uma construção narrativa dotada de personagens e eventos que refletem o imaginário cultural brasileiro dos anos 1960, 70 e 80.

A aproximação entre os trabalhos de Miriam e o teatro pode ser reforçada, ainda, ao se observar que as faces das figuras pintadas pela artista parecem máscaras teatrais. Seres humanos e animais portam uma máscara congelada e repetida, com muita maquiagem, bochechas rosadas e lábios destacados. Suas pinturas apresentam o mundo acontecendo em uma boca de cena. A ação figurativa dada no espaço branco e luminoso não é real, mas sim uma representação possível. O clima é onírico, flutuante e lúdico –tudo é desejo buscando expressão visual. Temos, então, um paradoxo brechtiano: Miriam não quer nos enganar com suas pinturas, elas são alegorias e não pretendem ser nem realistas nem naturalistas. A partir do conflito entre ordem abstrata geométrica e ordem figurativa, a obra de Miriam pode ser entendida como uma dimensão intermediária para se pensar a arte e a vida. Suas pinturas permitem problematizar a linguagem na arte e, simultaneamente, passar a visão de uma observadora da vida das pessoas e da sociedade brasileira. 
— Miguel Chaia, “Miriam: para além da pintura figurativa”, in: Miriam. São Paulo: Galeria Estação, 2015, p.17. 
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O passeio no Rio Amazonas, Adão e Eva
1982
Óleo sobre madeira
21,7 x 40,5 cm
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Título desconhecido
1993
Óleo sobre madeira
29,3 x 50,2 cm
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A Almeida & Dale tem o prazer de se juntar à família da Miriam Inez da Silva na representação e difusão da obra da artista, em parceria com a Travesía Cuatro (Espanha e México).

Seus trabalhos foram apresentados em exposições de grande relevância histórica, como o Salão Nacional de Arte Moderna, do MAM Rio de Janeiro, Brasil (1968, 1970); Histórias brasileiras (2022), Histórias da sexualidade (2017) e Histórias da infância (2016) no MASP, São Paulo, Brasil; Bienal de Arte Naïf, Sesc Piracicaba, Brasil (1994, 2002), Brasil + 500: Mostra do redescobrimento, São Paulo, Brasil (2000) e duas edições da Exposição Jovem Gravura Nacional (1964, 1966) no MAC USP, São Paulo, Brasil, na qual foi laureada com o Prêmio Aquisição. Em 1979, Miriam realizou a doação de uma de suas pinturas à Galeria de Arte Naïf de Trebnje, Eslovênia. A obra foi doada por ocasião do 12º Encontro de Artistas Naïf da Iugoslávia. De meados da década de 1970 em diante, o trabalho de Miriam Inez da Silva começou a conquistar atenção internacional. Suas obras foram apresentadas em galerias de Londres, Reino Unido; Cidade do México, México; Paris, França; e de Montreal, Canadá. Obras de Miriam integram os acervos do MASP, MAC USP, e Pinacoteca de São Paulo, São Paulo, Brasil.

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Largo da carioca. 26-9-85.
1985
Óleo sobre madeira
Ø 40,6 cm
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