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Montez Magno

Montez Magno

Montez Magno iniciou sua produção nos anos 1950, dedicando-se à poesia. Na década seguinte, passou a transitar por diversas linguagens como pintura, escultura, vídeo e fotografia. Diante da pluralidade de sua produção, Magno se afirmou como um inventor. Em suas próprias palavras, “conceber o inconcebível é uma das tarefas do artista. Se isso acontecer, iremos ‘ver’ o invisível e, quem sabe, vivenciar o inexistente”. A produção de Magno é, portanto, prospectiva de ficções, muitas delas irrealizáveis, como observado em seus desenhos arquitetônicos e urbanísticos, ou nos assim chamados projetos ambientais, que permitem vislumbrar possibilidades de construções espaciais, perceptivas e estimular a vocação especulativa da arte. Sobretudo a partir da década de 1970, sua obra artística assume o anseio de transformação social aliado a utopias estético-políticas.

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Mandala, da série Tantra
1973-1974
Óleo sobre tela
143 x 145,5 x 5 cm
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Lingam, da série Tantra
1975
Óleo sobre duratex
100 x 78 cm
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Lingam, da série Tantra
2003
Acrílica, massa corrida e pastel oleoso sobre tela
136 x 121,5 cm
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Tantra

Como parte de uma geração marcada pela contracultura e pelos ideais hippies, beat, existencialistas e “New Age”, Magno explorou caminhos filosóficos alternativos à tradição ocidental. Essa busca o conduziu ao estudo de racionalidades distintas, despertando um interesse particular pelas filosofias do budismo e do hinduísmo. Montez Magno investigou o Zen e o Tantra para além de uma tendência orientalista, estruturando sua série homônima (1963–2006) em uma chave de rigor formal e não meramente ilustrativa. Ao evitar a superficialidade exotizante, o artista converte conceitos de expansão de consciência e libertação da repressão em abstrações geométricas, visíveis em obras como Mandala — alusão aos diagramas cósmicos de meditação e ordem universal — e Lingan, que remete ao símbolo anicônico da energia vital e potência geradora no hinduísmo. Nessa produção, a repetição de formas opera como mantras visuais, onde a busca espiritual é sublimada em uma linguagem plástica de ritmo, estrutura e silêncio.

Há muito que pratico yoga
e leio sobre o zen.
Nunca tive uma iluminação
a não ser quando vejo,
pela manhã,
a claridade do sol;
ou quando estoura,
na minha cara,
uma lâmpada de 100 velas
— Montez Magno in: Floemas: poesias 1970-1977. Recife: Nordeste Gráfica Ind. e Editora S. A., 1978.
Barracas do Nordeste

Na série Barracas do Nordeste, Montez Magno investiga a vocação abstracionista da cultura popular. Distanciando-se de abordagens puramente simbólicas ou folclóricas, Magno volta-se para a estrutura espacial vernacular, identificando um construtivismo latente em lonas de feira e retalhos de tecido. O artista documenta e transfigura a geometria viva dessas composições improvisadas em pinturas de rigor formal, captando ritmos cromáticos e soluções espaciais que, ao desobedecerem aos cânones acadêmicos da abstração, revelam uma arquitetura efêmera e vibrante.

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Sem título, da série Barracas do Nordeste
1998
Óleo sobre tela
127 x 144 cm
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Sem título, da série Barracas do Nordeste
1977
Óleo sobre cartão sobre aglomerado de madeira
79,5 x 99,5 cm
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Sem título, da série Barracas do Nordeste
1993
Óleo sobre aglomerado de madeira
Díptico, 98,2 x 80 cm e 98 x 79,2 cm
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Fachadas do Nordeste
1996
Acrílica sobre cartão
40 x 50 cm
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(...) Grande parte do meu trabalho atual é baseado em coisas daqui mesmo, do Recife, do Nordeste, mas os próprios recifenses não percebem isto. Estou fazendo uma pesquisa ou estudo do lado esquecido e omitido da arte popular brasileira: o lado abstracionista. É incrível o que o povo faz em termos de abstração geométrica. Estou documentando com slides as diversas modalidades de expressão abstrato-geométrica: barracas de festa e de feira cobertas de retalhos, carroças de sorvete, de pipocas, portões de garagens e outras coisas que vão aparecendo(...) é dessas coisas que atualmente extraio material para o meu trabalho.
— Montez Magno In: MORAIS, Frederico. Contra a estética acrílica. Diário de Notícias, 1972

A pesquisa pictórica de Magno insere-se no debate do abstracionismo geométrico; o autor pintou obras em referência a Piet Mondrian, Mark Rothko e outros contemporâneos, mas foram a ascese de Giorgio Morandi e a síntese de Alfredo Volpi que mais despertaram sua admiração. Ao ver obras de Morandi na Coleção Peggy Guggenheim durante sua viagem a Veneza em 1964, Magno afirmou que “o resto todo eclipsou-se”, admirando como a forma “perde a sua identidade material (…) e atinge outra dimensão existencial”. Já em Volpi, exaltava a disciplina: “Havia algo de monge nele: o trabalho diário, uma certa religiosidade em seu fazer silencioso e limpo”. Essas referências legitimam a busca de Montez por uma pintura que transcende o tema para se firmar como pura existência plástica. O artista eleva a geometria popular a um estatuto universal, onde a cor e a estrutura não narram uma cena, mas instauram um tempo suspenso de contemplação.

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Sem título
1971
Óleo sobre tela
114,5 x 175,5 cm
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Sem título
1984
Óleo sobre tela
110 x 143,5 cm
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Paisagem lunar
1973
Madeira, cortiça e betume
67,5 x 58 cm
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Nos projetos e esculturas ambientais de Montez Magno, a apropriação de materiais ordinários fundamenta a construção de arquiteturas especulativas e cosmologias visuais. Ao utilizar parafusos em Torres ou caixas de ovos e isopor em Galáxia, o artista reconfigura a escala do cotidiano para projetar paisagens urbanas e corpos celestes, distanciando os objetos de seu uso prático. Essa operação construtiva alcança dimensões existenciais em obras como Nuvem, onde algodão e pedra sugerem atmosferas etéreas. Nessas composições, objetos do cotidiano são apropriados e transformados em complexos universos poéticos, instaurando topografias imaginárias entre o micro e o macrocosmo.

A exposição rascunha o material do cotidiano. Como uma proposição, uma amostragem, a transmutação do uso ordinário, ao novo significado. Algo diferenciado.
O anti-resíduo da faina, alguma coisa nova, plena.
É Anti-arte.
Proposta a partir do quase-nada. Daquilo que é usado e, agora, é novo-ato.
(...) O material provoca a criação, sugere a invenção, espontâneo, liberto de qualquer conotação particular.
Reassume nova origem - não a do uso diário - mas a do sonho colorido.
—Lygia Pape in: PAPE, Lygia. Montez Magno. Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 4 de dezembro de 1968
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Galáxia, trabalho de expansão espacial
2010
Bolas de isopor policromadas sobre caixas de ovos
245 x 245 x 7 cm
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Torres
2000
Parafusos sobre madeira
12 x 22 x 20 cm
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Nuvem
1977
Algodão e arame sobre pedra abrasiva
10 x 15 x 5 cm
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Sem título
s.d.
Dados de borracha sobre base espelhada
3 x 32 x 23 cm
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Dono de uma trajetória marcada pelo rigor experimental e pela independência criativa, Montez Magno construiu um legado que atravessa décadas. Sua obra, fundamental para uma compreensão ampliada da vanguarda brasileira, hoje se reafirma com vigor e pertinência no cenário contemporâneo. Magno realizou sua primeira exposição individual em 1957, no Instituto dos Arquitetos do Brasil, em Recife, Brasil. E já em 1959, participou da 5ª Bienal de São Paulo. Embora sua obra tenha sido pouco estudada durante o final do século XX, mais recentemente a produção do artista vem ganhando reconhecimento em mostras retrospectivas, como Montez Magno: algúria, realizada na Pinacoteca de São Paulo, Brasil (2023); bem como na mostra Canto à liberdade, realizada na Galeria Marco Zero, Recife, Brasil (2023). Seus trabalhos integram importantes acervos institucionais do Brasil, como o Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo; Pinacoteca de São Paulo, em São Paulo; e Museu de Arte do Rio (MAR), Rio de Janeiro.

Montez Magno: Algúria

Exposição individual

Pinacoteca do Estado de São Paulo, Brasil, 2023

Montez Magno: Algúria

Exposição individual

Pinacoteca do Estado de São Paulo, Brasil, 2023

Montez Magno: Algúria

Exposição individual

Pinacoteca do Estado de São Paulo, Brasil, 2023

Exposição individual

Instituto Brasil Estados Unidos (IBEU), Rio de Janeiro, 1968

Exposição individual

Instituto Brasil Estados Unidos (IBEU), Rio de Janeiro, 1968