A obra de Nuno Ramos (São Paulo, 1960) situa-se em um território de indistinção e trânsito, entre matéria e signo, do concreto à lama. Sua produção atravessa pintura, escultura, instalação, literatura, teatro e música, como uma investigação contínua dos limites que as separam. Como observam Osvaldo Manuel Silvestre e Mario Cámara, seu trabalho pode ser compreendido como “ensaiando uma e outra vez o caminho que vai do corpo e da matéria à linguagem”.
Seu corpo de trabalho, então, forma um conjunto de tentativas isoladas ou combinadas de entranhar o fazer artístico na matéria; de criar arranjos provisórios entre antagonismos; de concatenar movimentações e de armar cenas. Ao operar a temporalidade e a duração, suas obras se dirigem aos limites da matéria, da linguagem e do objeto de arte, colocando a atuação e o controle do próprio artista em fragilidade. Ora com aspecto vivaz, ora solene e em constante diálogo com figuras fundamentais da literatura, do samba, do cinema e da intelectualidade brasileiros, a produção do artista também reflete sobre a realidade política-histórica e cultural do país.
29. Bienal de São Paulo – Há sempre um copo de mar para um homem navegar, Bandeira branca, instalação – São Paulo, Brasil, 2010
Três esculturas de granito e areia queimada comprimida, três postes de areia queimada comprimida, três urubus e três caixas de som de vidro. Grade de isolamento. As caixas de som reproduzem “Bandeira branca”, de Max Nunes e Laércio Alves, interpretada por Arnaldo Antunes, “Boi da cara preta”, domínio popular, por Dona Inah, e “Carcará”, de João do Vale e José Cândido, por Mariana Aydar. Os intervalos entre as três canções são estipulados a partir de uma combinação dos recordes olímpicos dos 100, 200, 400, 800 e 1500 metros rasos, masculino e feminino. Ao completar o tempo de uma meia maratona
(58′ 23″), os três cantores gritam “Nada é!” e as canções começam de novo.
29. Bienal de São Paulo – Há sempre um copo de mar para um homem navegar, Bandeira branca, instalação – São Paulo, Brasil, 2010
29. Bienal de São Paulo – Há sempre um copo de mar para um homem navegar, Bandeira branca, instalação – São Paulo, Brasil, 2010
29. Bienal de São Paulo – Há sempre um copo de mar para um homem navegar, Bandeira branca, instalação – São Paulo, Brasil, 2010
O Direito à Preguiça Exposição individual – Performance “No sé” – Centro Cultural Banco do Brasil, Belo Horizonte, Brasil, 2016
O Direito à Preguiça Exposição individual – Performance “No sé” – Centro Cultural Banco do Brasil, Belo Horizonte, Brasil, 2016
O Direito à Preguiça Exposição individual – Performance “No sé” – Centro Cultural Banco do Brasil, Belo Horizonte, Brasil, 2016
Montes – Sesc Pompéia, São Paulo, Brasil, 1994.
Dentro de cada monte (de terra, breu e sal), um pequeno forno de tijolos de aproximadamente 50 cm de altura por 70 cm de diâmetro, com quatro saídas. Três delas recebem fogo de três maçaricos permanentemente acesos; e a quarta funciona como chaminé. Com o aquecimento, o monte de terra solta vapor, o de sal estala e o de breu derrete. Sobre o lago artificial, formas orgânicas em vidro fundido, moldadas a partir de folhas de palmeira. Nas paredes, 12 fotografias (de autoria de Eduardo Ortega e Nuno Ramos, aproximadamente 100×150 cm) de montes e formas assemelhadas, em diversos locais ( bolhas de espuma no rio Tietê, montes de sal no Porto de Santos, fornos de olarias etc), sobre as quais foram compostos desenhos em verniz ou tinta dourada.
Montes – Sesc Pompeia, São Paulo, Brasil, 1994
Montes – Sesc Pompeia, São Paulo, Brasil, 1994
Montes – Sesc Pompeia, São Paulo, Brasil, 1994
Montes – Sesc Pompeia, São Paulo, Brasil, 1994
Hora da Razão (Choro Negro 3), 2014
Três estruturas de vidro com monitores em que os intérpretes cantam “Hora da Razão”, de Batatinha e J. Luna. As esculturas são estruturadas por tanques de aço cobertos por breu. Durante a exposição, os tanques são aquecidos e o breu derrete pouco a pouco, escorrendo pelo vidro.
“Se eu deixar de sofrer / Como é que vai ser / para me acostumar? / Se tudo é carnaval / Eu não devo chorar / Pois eu preciso me encontrar / Sofrer também é merecimento / Cada um tem seu momento / Quando a hora é da razão. / Alguém vai sambar comigo / Mas o nome não digo / Guardo tudo no coração.”
Intérpretes: Nina Becker, Eduardo Clima e Rômulo Fróes.
Hora da Razão (Choro Negro 3), 2014
Hora da Razão (Choro Negro 3), 2014
Hora da Razão (Choro Negro 3), 2014
Na travessia entre corpo e linguagem, a materialidade torna-se um campo de forças organizadas em arranjos instáveis, nos quais a obra se constitui como processo. A instabilidade da areia, a retenção de vestígios orgânicos na superfície, a vaselina que inscreve palavras no chão e o breu que se espalha. A forma não se estabiliza; permanece em estado de iminência.
Essa investigação atravessa toda a produção do artista, que ao se recusar à propor uma síntese estável entre esses campos, opera na fricção e contaminação entre eles, permitindo que a matéria adquira espessura discursiva e dando densidade material às palavras. Ao longo de sua trajetória, a obra afirma esse território instável onde corpo, matéria e linguagem se atravessam, configurando situações em que a permanência é sempre provisória.
Tal exploração dos limiares encontra na figura do túmulo uma de suas formas recorrentes, como observa Eduardo Sterzi sobre a obra de Nuno Ramos. Essa forma, no entanto, não é assumida como ponto de definitivo, mas o palco onde se desenrola uma ação paradoxal. “o túmulo, aqui, não é o lugar do descanso-em-paz, mas, pelo contrário, o palco problemático de uma cena que é radicalmente conflitiva: se o momento da morte, num paralelismo derradeiro com o momento do nascimento é, segundo o psicanalista Sándor Ferenczi, sempre intranquilo, merecendo por isso mesmo o nome de agonia, isto é, luta”, escreve Sterzi, “não é menos agônica, aos olhos do artista, a vida dentro da morte”.
Assim, em sua obra, a materialidade nunca assume um caráter inerte, definido. O artista opta por materiais que permanecem ativos. Exemplar é a escolha por substâncias viscosas ou instáveis — como cera, parafina e vaselina, além de areia comprimida e cal acumulada, entre outras. Trata-se de um embate com a possibilidade da perda, no qual se assumem soluções construtivas cuja precariedade e tensão se tornam visíveis e iminentes. É nesse sentido que a terra, em sua obra, torna-se superfície que conserva em morte o que sobre ela se agitou.
Os Desastres Da Guerra (A Extinção É Para Sempre, 3) – Teatro Antunes Filho Sesc Vila Mariana, São Paulo, Brasil, 2021
A performance recria a série de gravuras “Os Desastres da Guerra”, de Francisco Goya, na forma de tableaux-vivants, quadros-vivos. Enquanto interpretam as cenas do pintor espanhol, os performers trazem depoimentos reais sobre casos de miséria e violência do estado. Os relatos, transpostos em braile, foram relidos como partituras musicais, que trazem uma sonoridade percussiva para o trabalho.
Os Desastres Da Guerra (A Extinção É Para Sempre, 3) – Teatro Antunes Filho Sesc Vila Mariana, São Paulo, Brasil, 2021
Os Desastres Da Guerra (A Extinção É Para Sempre, 3) – Teatro Antunes Filho Sesc Vila Mariana, São Paulo, Brasil, 2021
Os Desastres Da Guerra (A Extinção É Para Sempre, 3) – Teatro Antunes Filho Sesc Vila Mariana, São Paulo, Brasil, 2021
111 – Exposição individual Galeria Raquel Arnaud, São Paulo, Brasil, 1993
111 – Exposição individual Galeria Raquel Arnaud, São Paulo, Brasil, 1993
111 – Exposição individual Galeria Raquel Arnaud, São Paulo, Brasil, 1993
111 – Exposição individual Galeria Raquel Arnaud, São Paulo, Brasil, 1993
Marcha À Ré – Performance em colaboração com Teatro da Vertigem Avenida Paulista, São Paulo, Brasil, 2020
Cortejo de veículos que se deslocou em sentido inverso do usual, em marcha à ré. Nele, os motoristas-participantes completaram um trajeto na cidade de São Paulo que partiu da Avenida Paulista, de frente ao edifício da FIESP, e terminou no cemitério da Consolação.
Performance/filme em colaboração com Teatro da Vertigem e filmada por Eryk Rocha.
Marcha À Ré – Performance em colaboração com Teatro da Vertigem Avenida Paulista, São Paulo, Brasil, 2020
Marcha À Ré – Performance em colaboração com Teatro da Vertigem Avenida Paulista, São Paulo, Brasil, 2020
Marcha À Ré – Performance em colaboração com Teatro da Vertigem Avenida Paulista, São Paulo, Brasil, 2020
Manorá Branco, 1997
Caixa de mármore contendo vaselina derretida e lâmina de mármore. Ao se encaixarem, a vaselina transborda. “Manorá” é o nome de um bairro de Assunção, no Paraguai, e significa “lugar para morrer” em tupi-guarani.
Manorá Branco, 1997
Manorá Preto, 1999
Manorá Preto, 1999
O que são as horas? – Exposição individual,
Museu de Arte da Pampulha, Belo Horizonte, Brasil, 2003
Três esculturas de areia comprimida, com relógios de um ponteiro que agitam o tanque de óleo queimado.
Trabalho inspirado no poema “What are years?”, de Marianne Moore.
O que são as horas? – Exposição individual,
Museu de Arte da Pampulha, Belo Horizonte, Brasil, 2003
O que são as horas? – Exposição individual,
Museu de Arte da Pampulha, Belo Horizonte, Brasil, 2003
Cal – Maria Antonia, São Paulo, Brasil, 2013
Cal – Maria Antonia, São Paulo, Brasil, 2013
Cal – Maria Antonia, São Paulo, Brasil, 2013
Cal – Maria Antonia, São Paulo, Brasil, 2013
Nesse sentido, a noção de perda, precariedade e instabilidade, por vezes, podem ser associadas à reflexões sobre a história brasileira. A instalação 111 (1992) materializa esse impulso: concebida em resposta ao assassinato de 111 detentos da penitenciária da Carandiru, em São Paulo, pela Polícia Militar, a obra é descrita por Ramos como um gesto de “enterrar tudo aquilo”. Um sepultamento que é, ao mesmo tempo, um ato de memória e de denúncia seja preservação instável não permite silenciar a violência.
A dimensão trágica da história brasileira também encontra eco no diálogo recorrente do artista com figuras do cinema-novo e do samba, como Nelson Cavaquinho, cuja “luz negra” ilumina um “teatro sem cor”. Como observa Alva Martinez Teixeiro, as composições do músico carioca oferecem uma matriz tradicional e popular que se integra ao magma artístico de Nuno Ramos. O sambista empresta ao artista uma oralidade trágica que perpassa a escrita e à série de desenhos e performances Antígona e Cassandra (2018), que também confrontam a violência política brasileira.
Dádiva , 2015 – HOUYHNHNMS , Estação Pinacoteca, São Paulo, Brasil
Dádiva , 2015 – HOUYHNHNMS , Estação Pinacoteca, São Paulo, Brasil
Dádiva , 2015 – HOUYHNHNMS , Estação Pinacoteca, São Paulo, Brasil
Dádiva , 2015 – HOUYHNHNMS , Estação Pinacoteca, São Paulo, Brasil
Dádiva , 2015 – HOUYHNHNMS , Estação Pinacoteca, São Paulo, Brasil
Opening – Exposição individual Francisco Fino, Lisboa, Portugal, 2023
Opening – Exposição individual Francisco Fino, Lisboa, Portugal, 2023
Opening – Exposição individual Francisco Fino, Lisboa, Portugal, 2023
Opening – Exposição individual Francisco Fino, Lisboa, Portugal, 2023
Opening – Exposição individual Francisco Fino, Lisboa, Portugal, 2023
O Direito à Preguiça – Exposição individual Centro Cultural Banco do Brasil, Belo Horizonte, Brasil, 2016
O Direito à Preguiça – Exposição individual Centro Cultural Banco do Brasil, Belo Horizonte, Brasil, 2016
O Direito à Preguiça – Exposição individual Centro Cultural Banco do Brasil, Belo Horizonte, Brasil, 2016
O Direito à Preguiça – Exposição individual Centro Cultural Banco do Brasil, Belo Horizonte, Brasil, 2016
Pagão, 2023
As notas do choro “Pagão”, de Pixinguinha, transcritas com vaselina sobre três pentagramas cavados nas paredes. No chão, sete blocos de pedra sabão com os seguintes instrumentos incrustados em seu bojo: violino, clarinete, trombone, baquetas, trombone de vara, tuba, trompete.
Pagão, 2023
Pagão, 2023
Pagão, 2023
Pagão, 2023
Os pássaros – Exposição – Ratos e Urubus CCSP São Paulo, Brasil, 2020 Foto: Eduardo Ortega
1. Um mastro de 12 metros de altura com uma plataforma circular na ponta. Esta plataforma era preenchida periodicamente com livros, discos, palavras, fotos, notícias, de um lado, e carne, peixe, frutas, de outro, num ofertório para aves carniceiras.
2. O filme “Os pássaros”, de Alfred Hitchcock, preparado com mais de 300 interferências e acréscimos de imagens. A trilha sonora e o timeline do filme foram mantidos como no original.
Os pássaros – Exposição – Ratos e Urubus CCSP São Paulo, Brasil, 2020 Foto: Eduardo Ortega
Os pássaros – Exposição – Ratos e Urubus CCSP São Paulo, Brasil, 2020 Foto: Eduardo Ortega
Os pássaros – Exposição – Ratos e Urubus CCSP São Paulo, Brasil, 2020 Foto: Eduardo Ortega
Na obra de Nuno Ramos, a ideia de dádiva pode ser compreendida como um gesto que questiona, de maneira sensível, as lógicas produtivistas e utilitárias que atravessam a cultura contemporânea. A dádiva surge como abertura ao excesso, ao risco e à exposição. Dar, nesse contexto, implica aceitar a possibilidade da perda e reconhecer aquilo que escapa à lógica da equivalência. A produção artística se orienta, assim, menos pela eficiência e mais pela disponibilidade ao processo, acolhendo a instabilidade como parte constitutiva da experiência.
Nesse horizonte, noções como desperdício, acúmulo e destruição são dimensões estruturantes do trabalho. O desperdício pode ser entendido como recusa à economia da medida exata, afirmando um fazer que admite o transbordamento e o dispêndio. O acúmulo, por sua vez, não se reduz à soma quantitativa de materiais, mas configura camadas, densidades e sedimentações que tornam visível o tempo e a transformação. Já a destruição se apresenta menos como gesto espetacular e mais como processo contínuo de desgaste, decomposição e rearranjo, no qual a obra permanece em estado de tensão entre forma e desagregação. Ao mobilizar materiais precários ou em constante mutação, o artista desloca a noção de obra como objeto fixo e plenamente assimilável. Permanência e ruína coexistem, instaurando uma temporalidade marcada pela duração, pela suspensão e pela iminência.
Em O globo da morte de tudo (2012), realizado com Eduardo Climachauska. Dois globos de aço entrelaçados e quatro estantes com cerca de 1500 objetos organizados nas categorias Cerveja, Cerâmica, Porcelana e Nanquim aguardam a ação de motociclistas que, em performance única, os destroem parcialmente. A obra encena um ritual de sacríficio contemporâneo, atualizando reflexões sobre sistemas de troca que escapam à lógica mercantil. A instalação se oferece como afirmação da perda como valor simbólico em um mundo regido pela acumulação.
Três casas – Exposição individual Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul – MACRS, Porto Alegre, Brasil, 2025
Três casas – Exposição individual Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul – MACRS, Porto Alegre, Brasil, 2025
Três casas – Exposição individual Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul – MACRS, Porto Alegre, Brasil, 2025
Três casas – Exposição individual Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul – MACRS, Porto Alegre, Brasil, 2025
Balada, 2015 – Livro, pólvora e bala
Balada, 2015 – Livro, pólvora e bala
Balada, 2015 – Livro, pólvora e bala
Balada, 2015 – Livro, pólvora e bala
Às vezes, 1996 – Universidade Federal do Espírito Santo, Espirito Santo, Brasil
Reconstrução da galeria da universidade em seu próprio interior, com modelo 10% menor que o original. O modelo copia em madeira e papelão as principais partes do espaço real da galeria.
Às vezes, 1996 – Universidade Federal do Espírito Santo, Espirito Santo, Brasil
Às vezes, 1996 – Universidade Federal do Espírito Santo, Espirito Santo, Brasil
Cruz negra, 2025
Cruz negra, 2025
Cruz negra, 2025
Cruz negra, 2025
Cruz negra, 2025
Vaso ruim, 1998
Vaso ruim, 1998
Vaso ruim, 1998
Vaso ruim, 1998
Soap Opera – Galeria Anita Schwartz, Rio de Janeiro, Brasil, 2008
Dois muros de sabão e mármore formando conchas acústicas, com alto-falantes incrustados, que reproduzem o texto “Soap Opera”, de Nuno Ramos. Interpretados por dois cantores líricos (um baixo e uma soprano), que mimetizam uivos e latidos, o texto utiliza trechos das óperas D. Giovanni e A Flauta Mágica, de Mozart, e fragmentos de poemas de Carlos Drummond de Andrade e Konstantinos Kaváfis.
Intérpretes: José Maria Cardoso e Madalena Bernardes.
Soap Opera – Galeria Anita Schwartz, Rio de Janeiro, Brasil, 2008
Soap Opera – Galeria Anita Schwartz, Rio de Janeiro, Brasil, 2008
Soap Opera – Galeria Anita Schwartz, Rio de Janeiro, Brasil, 2008
Perdido – Biblioteca Mario de Andrade, São Paulo, Brasil, 2022, Foto: Ding Musa
Perdido – Biblioteca Mario de Andrade, São Paulo, Brasil, 2022, Foto: Ding Musa
Perdido – Biblioteca Mario de Andrade, São Paulo, Brasil, 2022, Foto: Ding Musa
Perdido – Biblioteca Mario de Andrade, São Paulo, Brasil, 2022, Foto: Ding Musa
Perdido – Biblioteca Mario de Andrade, São Paulo, Brasil, 2022, Foto: Ding Musa
Outro movimento insistente na obra de Nuno Ramos é o do retorno. Repetir, duplicar e copiar operam como a repetição incessante de uma palavra até ela se desvincular seu significado, compondo, assim, operações de deslocamento. No vaivém entre matéria e linguagem, ele instaura um campo de tensão no qual cada gesto reaparece sob outra forma — ora como resíduo, ora como eco, ora como ruína. A repetição, nesse contexto, reencena imagens ou reinscreve palavras em novos suportes, a cópia é convertida em diferença e o duplo em fratura.
O artista ativa uma lógica sedimentar em que cada nova camada contém as anteriores ao mesmo tempo que as altera. A obra configura-se, assim, como arquivo instável: um sistema em permanente reconfiguração. Essas operações delineiam um retorno do mesmo sempre sob condições outra que desafiam a ideia de originalidade estável.