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Nuno Ramos

Nuno Ramos

Como uma via intermediária, procuro entrar e permanecer no reino da pergunta – ou de uma explicação que não se explica nunca.
Nuno Ramos, trecho de Ó, 2014
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fodasefoice 4
2008
Granito, vidro, aço inoxidável, Coca-Cola, petróleo
250 x 143 x 140 cm
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Sem Título
2025
Encáustica e óleo sobre papel
170 x 150 cm
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Antígona 17
2018
Carvão, grafite, oleo, cera e vaselina sobre papel
166 x 152 cm
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A obra de Nuno Ramos (São Paulo, 1960) situa-se em um território de indistinção e trânsito, entre matéria e signo, do concreto à lama. Sua produção atravessa pintura, escultura, instalação, literatura, teatro e música, como uma investigação contínua dos limites que as separam. Como observam Osvaldo Manuel Silvestre e Mario Cámara, seu trabalho pode ser compreendido como “ensaiando uma e outra vez o caminho que vai do corpo e da matéria à linguagem”.

Seu corpo de trabalho, então, forma um conjunto de tentativas isoladas ou combinadas de entranhar o fazer artístico na matéria; de criar arranjos provisórios entre antagonismos; de concatenar movimentações e de armar cenas. Ao operar a temporalidade e a duração, suas obras se dirigem aos limites da matéria, da linguagem e do objeto de arte, colocando a atuação e o controle do próprio artista em fragilidade. Ora com aspecto vivaz, ora solene e em constante diálogo com figuras fundamentais da literatura, do samba, do cinema e da intelectualidade brasileiros, a produção do artista também reflete sobre a realidade política-histórica e cultural do país.

“A obra de Nuno Ramos move-se, ao mesmo tempo, pela aceitação e negação dos limites da arte”
Alberto Tassinari, O caminho dos limites, 2011
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Sem Título
2024
Tinta a óleo, encáustica, tecidos, plásticos e metais sobre madeira
185 x 410 cm
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Aos Vivos

M
úsica também tem
órgãos
música também quer chão
morrer
em
paz, música
não é ideia, é
c
omo o cão
que a borracha engole.

Música late.
Nuno Ramos, 06-08, Junco, 2011

29. Bienal de São Paulo – Há sempre um copo de mar para um homem navegar, Bandeira branca, instalação – São Paulo, Brasil, 2010

Três esculturas de granito e areia queimada comprimida, três postes de areia queimada comprimida, três urubus e três caixas de som de vidro. Grade de isolamento. As caixas de som reproduzem “Bandeira branca”, de Max Nunes e Laércio Alves, interpretada por Arnaldo Antunes, “Boi da cara preta”, domínio popular, por Dona Inah, e “Carcará”, de João do Vale e José Cândido, por Mariana Aydar. Os intervalos entre as três canções são estipulados a partir de uma combinação dos recordes olímpicos dos 100, 200, 400, 800 e 1500 metros rasos, masculino e feminino. Ao completar o tempo de uma meia maratona

(58′ 23″), os três cantores gritam “Nada é!” e as canções começam de novo.

29. Bienal de São Paulo – Há sempre um copo de mar para um homem navegar, Bandeira branca, instalação – São Paulo, Brasil, 2010

29. Bienal de São Paulo – Há sempre um copo de mar para um homem navegar, Bandeira branca, instalação – São Paulo, Brasil, 2010

29. Bienal de São Paulo – Há sempre um copo de mar para um homem navegar, Bandeira branca, instalação – São Paulo, Brasil, 2010

O Direito à Preguiça Exposição individual – Performance “No sé” – Centro Cultural Banco do Brasil, Belo Horizonte, Brasil, 2016

O Direito à Preguiça Exposição individual – Performance “No sé” – Centro Cultural Banco do Brasil, Belo Horizonte, Brasil, 2016

O Direito à Preguiça Exposição individual – Performance “No sé” – Centro Cultural Banco do Brasil, Belo Horizonte, Brasil, 2016

Montes –  Sesc Pompéia, São Paulo, Brasil, 1994.

Dentro de cada monte (de terra, breu e sal), um pequeno forno de tijolos de aproximadamente 50 cm de altura por 70 cm de diâmetro, com quatro saídas. Três delas recebem fogo de três maçaricos permanentemente acesos; e a quarta funciona como chaminé. Com o aquecimento, o monte de terra solta vapor, o de sal estala e o de breu derrete. Sobre o lago artificial, formas orgânicas em vidro fundido, moldadas a partir de folhas de palmeira. Nas paredes, 12 fotografias (de autoria de Eduardo Ortega e Nuno Ramos, aproximadamente 100×150 cm) de montes e formas assemelhadas, em diversos locais ( bolhas de espuma no rio Tietê, montes de sal no Porto de Santos, fornos de olarias etc), sobre as quais foram compostos desenhos em verniz ou tinta dourada.

Montes –  Sesc Pompeia, São Paulo, Brasil, 1994

Montes –  Sesc Pompeia, São Paulo, Brasil, 1994

Montes –  Sesc Pompeia, São Paulo, Brasil, 1994

Montes –  Sesc Pompeia, São Paulo, Brasil, 1994

Hora da Razão (Choro Negro 3), 2014

Três estruturas de vidro com monitores em que os intérpretes cantam “Hora da Razão”, de Batatinha e J. Luna. As esculturas são estruturadas por tanques de aço cobertos por breu. Durante a exposição, os tanques são aquecidos e o breu derrete pouco a pouco, escorrendo pelo vidro.

“Se eu deixar de sofrer / Como é que vai ser / para me acostumar? / Se tudo é carnaval / Eu não devo chorar / Pois eu preciso me encontrar / Sofrer também é merecimento / Cada um tem seu momento / Quando a hora é da razão. / Alguém vai sambar comigo / Mas o nome não digo / Guardo tudo no coração.”

Intérpretes: Nina Becker, Eduardo Clima e Rômulo Fróes.

Hora da Razão (Choro Negro 3), 2014

Hora da Razão (Choro Negro 3), 2014

Hora da Razão (Choro Negro 3), 2014

A partir da dinâmica letra e matéria, corpo e sopro, uma vocação teatral das artes plásticas, não no sentido do palco e da representação, mas a partir de uma dimensão “actante” de uma atuando na outra. Letra e matéria dispõem de uma ação substantiva vai não apenas de um lugar para outro em termos de especificidade artística, mas de um estado físico para outro. Por isso, a mudança de temperatura, o uso de diferentes densidades de fluidos, a temporalidade do vapor, as forças animais e vegetais, combinadas, acentuam a produção plástica e as narrativas – ou poemas – nas quais o corpo não apenas está em cena, mas é a cena. Isso acontece a ponto de se perguntar se existiria na obra de Nuno Ramos um teatro da matéria através das práticas sensoriais às quais o artista se expõe antes mesmo que nós nos expusemos a elas, ou ainda se somos parte de um material necessário para que estas obras.
Eduardo Jorge, O sumo das sílabas: Nuno Ramos e a paródia potlatch, In: Nuno Ramos e a experiência dos limites, 2026

Na travessia entre corpo e linguagem, a materialidade torna-se um campo de forças organizadas em arranjos instáveis, nos quais a obra se constitui como processo. A instabilidade da areia, a retenção de vestígios orgânicos na superfície, a vaselina que inscreve palavras no chão e o breu que se espalha. A forma não se estabiliza; permanece em estado de iminência.

Essa investigação atravessa toda a produção do artista, que ao se recusar à propor uma síntese estável entre esses campos, opera na fricção e contaminação entre eles, permitindo que a matéria adquira espessura discursiva e dando densidade material às palavras. Ao longo de sua trajetória, a obra afirma esse território instável onde corpo, matéria e linguagem se atravessam, configurando situações em que a permanência é sempre provisória.

Quando gosto do que faço, a forma, e de algum modo o corpo, está quase caindo, está quase se desfazendo. Esse momento do ‘quase’ é o que eu gosto. Se eu pudesse fixar um momento, eu fixava isso. Essa hora de transição. Então, a morte é um tema recorrente para mim. Quando escrevo, a morte é um tema que sempre volta, e no que eu faço como artista plástico também. Eu procuro essa passagem, essa transição. Não é a morte como uma coisa definitiva, egípcia; eu procuro a transição entre o corpo e a matéria, e acho que é aí que eu vejo um impulso para trabalhar.
Nuno Ramos, In: Nuno Ramos / Vilma Arêas, Flora Süssekind e Tânia Dias, org. Cultura brasileira hoje: diálogos, 3, 2018

A extinção é para sempre

Um muro
de cal, de sal, de luz
que estanca a espessura
e fosco.

Muro como um museu
de tudo, mas oco
em seu emparedar
matéria ou pensamento.

Cai, em silêncio
escombro sem um grito
das poças e dos dias
sob a chuva, o tempo.

Sou eu a testemunha
do tanto que esperastes
muro, a matéria caroável
virar vento.
Nuno Ramos, 36, Jardim Botânico, 2023

Tal exploração dos limiares encontra na figura do túmulo uma de suas formas recorrentes, como observa Eduardo Sterzi sobre a obra de Nuno Ramos. Essa forma, no entanto, não é assumida como ponto de definitivo, mas o palco onde se desenrola uma ação paradoxal. “o túmulo, aqui, não é o lugar do descanso-em-paz, mas, pelo contrário, o palco problemático de uma cena que é radicalmente conflitiva: se o momento da morte, num paralelismo derradeiro com o momento do nascimento é, segundo o psicanalista Sándor Ferenczi, sempre intranquilo, merecendo por isso mesmo o nome de agonia, isto é, luta”, escreve Sterzi, “não é menos agônica, aos olhos do artista, a vida dentro da morte”.

Assim, em sua obra, a materialidade nunca assume um caráter inerte, definido. O artista opta por materiais que permanecem ativos. Exemplar é a escolha por substâncias viscosas ou instáveis — como cera, parafina e vaselina, além de areia comprimida e cal acumulada, entre outras. Trata-se de um embate com a possibilidade da perda, no qual se assumem soluções construtivas cuja precariedade e tensão se tornam visíveis e iminentes. É nesse sentido que a terra, em sua obra, torna-se superfície que conserva em morte o que sobre ela se agitou.

Os Desastres Da Guerra (A Extinção É Para Sempre, 3) – Teatro Antunes Filho Sesc Vila Mariana, São Paulo, Brasil, 2021

A performance recria a série de gravuras “Os Desastres da Guerra”, de Francisco Goya, na forma de tableaux-vivants, quadros-vivos. Enquanto interpretam as cenas do pintor espanhol, os performers trazem depoimentos reais sobre casos de miséria e violência do estado. Os relatos, transpostos em braile, foram relidos como partituras musicais, que trazem uma sonoridade percussiva para o trabalho.

Os Desastres Da Guerra (A Extinção É Para Sempre, 3) – Teatro Antunes Filho Sesc Vila Mariana, São Paulo, Brasil, 2021

Os Desastres Da Guerra (A Extinção É Para Sempre, 3) – Teatro Antunes Filho Sesc Vila Mariana, São Paulo, Brasil, 2021

Os Desastres Da Guerra (A Extinção É Para Sempre, 3) – Teatro Antunes Filho Sesc Vila Mariana, São Paulo, Brasil, 2021

111 – Exposição individual Galeria Raquel Arnaud, São Paulo, Brasil, 1993

111 – Exposição individual Galeria Raquel Arnaud, São Paulo, Brasil, 1993

111 – Exposição individual Galeria Raquel Arnaud, São Paulo, Brasil, 1993

111 – Exposição individual Galeria Raquel Arnaud, São Paulo, Brasil, 1993

Marcha À Ré – Performance em colaboração com Teatro da Vertigem Avenida Paulista, São Paulo, Brasil, 2020

Cortejo de veículos que se deslocou em sentido inverso do usual, em marcha à ré. Nele, os motoristas-participantes completaram um trajeto na cidade de São Paulo que partiu da Avenida Paulista, de frente ao edifício da FIESP, e terminou no cemitério da Consolação. 

Performance/filme em colaboração com Teatro da Vertigem e filmada por Eryk Rocha.

Marcha À Ré – Performance em colaboração com Teatro da Vertigem Avenida Paulista, São Paulo, Brasil, 2020

Marcha À Ré – Performance em colaboração com Teatro da Vertigem Avenida Paulista, São Paulo, Brasil, 2020

Marcha À Ré – Performance em colaboração com Teatro da Vertigem Avenida Paulista, São Paulo, Brasil, 2020

Manorá Branco, 1997

Caixa de mármore contendo vaselina derretida e lâmina de mármore. Ao se encaixarem, a vaselina transborda. “Manorá” é o nome de um bairro de Assunção, no Paraguai, e significa “lugar para morrer” em tupi-guarani.

Manorá Branco, 1997

Manorá Preto, 1999

Manorá Preto, 1999

O que são as horas? – Exposição individual,
Museu de Arte da Pampulha, Belo Horizonte, Brasil, 2003

Três esculturas de areia comprimida, com relógios de um ponteiro que agitam o tanque de óleo queimado.
Trabalho inspirado no poema “What are years?”, de Marianne Moore.

O que são as horas? – Exposição individual,
Museu de Arte da Pampulha, Belo Horizonte, Brasil, 2003

O que são as horas? – Exposição individual,
Museu de Arte da Pampulha, Belo Horizonte, Brasil, 2003

Cal –  Maria Antonia, São Paulo, Brasil, 2013

Cal –  Maria Antonia, São Paulo, Brasil, 2013

Cal –  Maria Antonia, São Paulo, Brasil, 2013

Cal –  Maria Antonia, São Paulo, Brasil, 2013

Uma água barrenta
transborda no meio-fio.
O anel entre os seres
o que vai entre eles
mostra a matéria
e a neblina vela os chorões.
Postes iluminam algas úmidas
sobre conjuntos habitacionais.
Latas de lixo fingem matilha
escalam o muro. Uma foca
no encanamento faz a trilha.

Que foi que viram, pra fugir assim?
Pássaros em seta, profecias?

Gente morreu e matou por aqui, oitenta anos atrás.

Um bicho peludo, os dentes rangendo
a mochila de ossos nas costas
para no pórtico de um shopping.
Não tenho medo (ainda) e desço os degraus.
Afundo meu tênis na lama.
O bicho peludo me chama.
Pede fogo. Se aproxima.

De novo!, grita na avenida vazia.
Nuno Ramos, 16, Jardim Botânico, 2023

Nesse sentido, a noção de perda, precariedade e instabilidade, por vezes, podem ser associadas à reflexões sobre a história brasileira. A instalação 111 (1992) materializa esse impulso: concebida em resposta ao assassinato de 111 detentos da penitenciária da Carandiru, em São Paulo, pela Polícia Militar, a obra é descrita por Ramos como um gesto de “enterrar tudo aquilo”. Um sepultamento que é, ao mesmo tempo, um ato de memória e de denúncia seja preservação instável não permite silenciar a violência.

A dimensão trágica da história brasileira também encontra eco no diálogo recorrente do artista com figuras do cinema-novo e do samba, como Nelson Cavaquinho, cuja “luz negra” ilumina um “teatro sem cor”. Como observa Alva Martinez Teixeiro, as composições do músico carioca oferecem uma matriz tradicional e popular que se integra ao magma artístico de Nuno Ramos. O sambista empresta ao artista uma oralidade trágica que perpassa a escrita e à série de desenhos e performances Antígona e Cassandra (2018), que também confrontam a violência política brasileira.

Se o fogo vier da floresta, temos o nosso fosso. Se vier de dentro de uma das casas, há terra em torno delas para impedir que se espalhe. Se crescer na choupana grande, tomara que a destrua. Talvez seja um raio que nos fulmine. Sabemos que o fogo virá porque todos tivemos o mesmo sonho. Uma chama azul e a fumaça clara. O cheiro doce de carne queimada. A fuga dos sobreviventes entre carvões, até a lagoa seca. Nossa carcaça calcinada junto à dos dois leões. Depois as novas árvores crescendo, as novas casas, a choupana grande. Depois o mesmo sonho e a dissipação novamente.
Nuno Ramos, Cinza, O pão do corvo, 2017

Dádiva

Dádiva , 2015 – HOUYHNHNMS , Estação Pinacoteca, São Paulo, Brasil

Dádiva , 2015 – HOUYHNHNMS , Estação Pinacoteca, São Paulo, Brasil

Dádiva , 2015 – HOUYHNHNMS , Estação Pinacoteca, São Paulo, Brasil

Dádiva , 2015 – HOUYHNHNMS , Estação Pinacoteca, São Paulo, Brasil

Dádiva , 2015 – HOUYHNHNMS , Estação Pinacoteca, São Paulo, Brasil

Opening – Exposição individual Francisco Fino, Lisboa, Portugal, 2023

Opening – Exposição individual Francisco Fino, Lisboa, Portugal, 2023

Opening – Exposição individual Francisco Fino, Lisboa, Portugal, 2023

Opening – Exposição individual Francisco Fino, Lisboa, Portugal, 2023

Opening – Exposição individual Francisco Fino, Lisboa, Portugal, 2023

O Direito à Preguiça – Exposição individual Centro Cultural Banco do Brasil, Belo Horizonte, Brasil, 2016

O Direito à Preguiça – Exposição individual Centro Cultural Banco do Brasil, Belo Horizonte, Brasil, 2016

O Direito à Preguiça – Exposição individual Centro Cultural Banco do Brasil, Belo Horizonte, Brasil, 2016

O Direito à Preguiça – Exposição individual Centro Cultural Banco do Brasil, Belo Horizonte, Brasil, 2016

Pagão, 2023

As notas do choro “Pagão”, de Pixinguinha, transcritas com vaselina sobre três pentagramas cavados nas paredes. No chão, sete blocos de pedra sabão com os seguintes instrumentos incrustados em seu bojo: violino, clarinete, trombone, baquetas, trombone de vara, tuba, trompete.

Pagão, 2023

 

Pagão, 2023

Pagão, 2023

Pagão, 2023

Os pássaros – Exposição – Ratos e Urubus CCSP São Paulo, Brasil, 2020 Foto: Eduardo Ortega

1. Um mastro de 12 metros de altura com uma plataforma circular na ponta. Esta plataforma era preenchida periodicamente com livros, discos, palavras, fotos, notícias, de um lado, e carne, peixe, frutas, de outro, num ofertório para aves carniceiras.

2. O filme “Os pássaros”, de Alfred Hitchcock, preparado com mais de 300 interferências e acréscimos de imagens. A trilha sonora e o timeline do filme foram mantidos como no original.

Os pássaros – Exposição – Ratos e Urubus CCSP São Paulo, Brasil, 2020 Foto: Eduardo Ortega

 

Os pássaros – Exposição – Ratos e Urubus CCSP São Paulo, Brasil, 2020 Foto: Eduardo Ortega

Os pássaros – Exposição – Ratos e Urubus CCSP São Paulo, Brasil, 2020 Foto: Eduardo Ortega

Parece-me que uma forma de excesso está presente na obra de Nuno Ramos como um todo: desde suas primeiras pinturas [...] Desde o tamanho que os desenhos atingem até a monumentalidade das instalações, tais quais as já citadas e também outras, como O direito à preguiça, que se constituiu de um imenso andaime, cujos tubos se ligavam a 106 tubos de órgãos, e que tomou todo o pátio do Centro Cultural Banco do Brasil, em Belo Horizonte, em 2016. [...] Desde, de novo, a quantidade de material mobilizado por Nuno, como as 40 toneladas de areia usadas em Solidão, até os transbordamentos dos materiais, como a cal que não se contém nas colunas, o breu que derrete e escorre etc.Desde a variada gama de gêneros pelos quais transita em seus livros até mesmo às mais variadas artes a que ele se dedica: por enquanto, artes plásticas, vídeo, literatura, música, teatro — passando pelo tempo estendido de algumas de suas peças. Parece-me que, em certa medida, o método mesmo de trabalho de Nuno Ramos se radica nesse potlatch, constituído não apenas de agon, mas também e fundamentalmente de excesso e desperdício: ou seja, de pura dádiva, de pura troca, que não é outra coisa que puro momento de transição e de transação.
Veronica Stigger, Ensaios sobre a dádiva, In: Nuno Ramos e a experiência dos limites, 2026

Na obra de Nuno Ramos, a ideia de dádiva pode ser compreendida como um gesto que questiona, de maneira sensível, as lógicas produtivistas e utilitárias que atravessam a cultura contemporânea. A dádiva surge como abertura ao excesso, ao risco e à exposição. Dar, nesse contexto, implica aceitar a possibilidade da perda e reconhecer aquilo que escapa à lógica da equivalência. A produção artística se orienta, assim, menos pela eficiência e mais pela disponibilidade ao processo, acolhendo a instabilidade como parte constitutiva da experiência.

Nesse horizonte, noções como desperdício, acúmulo e destruição são dimensões estruturantes do trabalho. O desperdício pode ser entendido como recusa à economia da medida exata, afirmando um fazer que admite o transbordamento e o dispêndio. O acúmulo, por sua vez, não se reduz à soma quantitativa de materiais, mas configura camadas, densidades e sedimentações que tornam visível o tempo e a transformação. Já a destruição se apresenta menos como gesto espetacular e mais como processo contínuo de desgaste, decomposição e rearranjo, no qual a obra permanece em estado de tensão entre forma e desagregação. Ao mobilizar materiais precários ou em constante mutação, o artista desloca a noção de obra como objeto fixo e plenamente assimilável. Permanência e ruína coexistem, instaurando uma temporalidade marcada pela duração, pela suspensão e pela iminência.

Em O globo da morte de tudo (2012), realizado com Eduardo Climachauska. Dois globos de aço entrelaçados e quatro estantes com cerca de 1500 objetos organizados nas categorias Cerveja, Cerâmica, Porcelana e Nanquim aguardam a ação de motociclistas que, em performance única, os destroem parcialmente. A obra encena um ritual de sacríficio contemporâneo, atualizando reflexões sobre sistemas de troca que escapam à lógica mercantil. A instalação se oferece como afirmação da perda como valor simbólico em um mundo regido pela acumulação.

Às vezes

Três casas – Exposição individual Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul – MACRS, Porto Alegre, Brasil, 2025

Três casas – Exposição individual Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul – MACRS, Porto Alegre, Brasil, 2025

Três casas – Exposição individual Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul – MACRS, Porto Alegre, Brasil, 2025

Três casas – Exposição individual Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul – MACRS, Porto Alegre, Brasil, 2025

Balada, 2015 – Livro, pólvora e bala

Balada, 2015 – Livro, pólvora e bala

Balada, 2015 – Livro, pólvora e bala

Balada, 2015 – Livro, pólvora e bala

Às vezes, 1996 – Universidade Federal do Espírito Santo, Espirito Santo, Brasil

Reconstrução da galeria da universidade em seu próprio interior, com modelo 10% menor que o original. O modelo copia em madeira e papelão as principais partes do espaço real da galeria.

Às vezes, 1996 – Universidade Federal do Espírito Santo, Espirito Santo, Brasil

Às vezes, 1996 – Universidade Federal do Espírito Santo, Espirito Santo, Brasil

Cruz negra, 2025 

Cruz negra, 2025 

Cruz negra, 2025 

Cruz negra, 2025 

Cruz negra, 2025 

Vaso ruim, 1998

Vaso ruim, 1998

Vaso ruim, 1998

Vaso ruim, 1998

Soap Opera – Galeria Anita Schwartz, Rio de Janeiro, Brasil, 2008

Dois muros de sabão e mármore formando conchas acústicas, com alto-falantes incrustados, que reproduzem o texto “Soap Opera”, de Nuno Ramos. Interpretados por dois cantores líricos (um baixo e uma soprano), que mimetizam uivos e latidos, o texto utiliza trechos das óperas D. Giovanni e A Flauta Mágica, de Mozart, e fragmentos de poemas de Carlos Drummond de Andrade e Konstantinos Kaváfis.

Intérpretes: José Maria Cardoso e Madalena Bernardes.

Soap Opera – Galeria Anita Schwartz, Rio de Janeiro, Brasil, 2008

Soap Opera – Galeria Anita Schwartz, Rio de Janeiro, Brasil, 2008

Soap Opera – Galeria Anita Schwartz, Rio de Janeiro, Brasil, 2008

Perdido – Biblioteca Mario de Andrade, São Paulo, Brasil, 2022, Foto: Ding Musa

Perdido – Biblioteca Mario de Andrade, São Paulo, Brasil, 2022, Foto: Ding Musa

Perdido – Biblioteca Mario de Andrade, São Paulo, Brasil, 2022, Foto: Ding Musa

Perdido – Biblioteca Mario de Andrade, São Paulo, Brasil, 2022, Foto: Ding Musa

Perdido – Biblioteca Mario de Andrade, São Paulo, Brasil, 2022, Foto: Ding Musa

Outro movimento insistente na obra de Nuno Ramos é o do retorno. Repetir, duplicar e copiar operam como a repetição incessante de uma palavra até ela se desvincular seu significado, compondo, assim, operações de deslocamento. No vaivém entre matéria e linguagem, ele instaura um campo de tensão no qual cada gesto reaparece sob outra forma — ora como resíduo, ora como eco, ora como ruína. A repetição, nesse contexto, reencena imagens ou reinscreve palavras em novos suportes, a cópia é convertida em diferença e o duplo em fratura.

Quem põe uma boneca russa dentro de outra é o dia. E quem põe um dia dentro de outro sou eu. Assim, eu e meus dias, como colecionadores, vamos escondendo bonecos iguais a nós mesmos, uns dentro dos outros. Mas não apenas nós, pois a natureza é uma enorme boneca russa também. E o rio, que não banharia duas vezes o mesmo homem, é uma boneca russa de água, enrolado a si mesmo em turbilhões, repetindo-se enquanto procura o mar. O mar, com suas marés conhecidas, inchando-se e encolhendo-se, ameaçando a todos com os desastres ecológicos mais previsíveis, o mar é uma boneca russa salgada com outros mares sempre iguais e profundos e salgados dentro dela. Mesmo a dor da mordida de uma vespa, a inveja mais profunda, o cíume infernal, a morte do que amamos de fato – repetição, dor dentro da dor, nervo dentro do nervo, coração interno ao coração. Com olhos dentro dos olhos observo teu corpo de manhã; com dedos dentro dos dedos toquei você ontem à noite. Minha saliva antiga bebeu a tua, não a nova, e e minha raiva foi seu veneno velho, copiado, diluído, que se lançou contra todos. Não sou a réplica do que fui, nem do que serei, mas do que aconteceu comigo neste exato momento. Como uma luz espelhada, já cansada do que iluminou, retorno, pasmo de retornar. Estou aqui. Aqui é. Salve – de novo. Nada cresce nestas árvores. Nada brilha nessa estrela, na pupila dentro da pupila. [...] Com uma equipe de sósias espalhada pelas ruas reais e diversas, ofereço prêmios a quem descobrir o modelo original.
Nuno Ramos, trecho de Ó, 2014

O artista ativa uma lógica sedimentar em que cada nova camada contém as anteriores ao mesmo tempo que as altera. A obra configura-se, assim, como arquivo instável: um sistema em permanente reconfiguração. Essas operações delineiam um retorno do mesmo sempre sob condições outra que desafiam a ideia de originalidade estável.