O universo pictórico de Rayana Rayo é habitado por seres fabulares de morfologia ligada à paisagem do Recife — onde cresceu e vive atualmente. Não apenas os elementos geográficos das praias, dos mangues e do mar informam sua prática, mas também a atmosfera, o frescor da brisa, o calor do sol e o cheiro da maresia. Do mesmo modo, os estados e memórias que cada um desses elementos evoca são constitutivos de suas composições.
Assim, em suas criações, os mundos interior e exterior se diluem em um único fluido, no qual a artista navega — e nos convida — rumo a lembranças, projeções e desejos em fluxos que se movem de lado a lado, mergulham e emergem.
A produção de Rayana nasce de pulsões interiores atravessadas por experiências afetivas, desejos e inquietações que se desdobram em imagens. Sua prática não se limita a um exercício formal: coloca-se como espaço de elaboração subjetiva, em que cada gesto e escolha cromática se vinculam a estados de espírito e à vontade de impregnar a matéria de energia vital. A tela, para ela, não é mero suporte, mas objeto dotado de potência, carregado de intenções, memória e presença.
De suas superfícies emergem paisagens inventadas que lembram montanhas, arquipélagos, criaturas marinhas e seres híbridos. Essas imagens, ao mesmo tempo familiares e distantes, dão corpo a um universo próprio, um bioma pictórico onde coexistem elementos naturais, forças invisíveis e símbolos do inconsciente. Ar, terra e água se entrelaçam em composições que evocam um terreno íntimo, funcionando como um diário visual que se alimenta da vida cotidiana e a reinventa.
Nesse percurso, o trabalho de Rayo revela-se também como um mergulho no inconsciente. Círculos que sugerem cavidades ou esferas, assim como a água, são imagens persistentes na obra de Rayo e, no universo constrúido pela artista, esses simbolos adiquirem ressonâncias psicanalíticas. Os “buracos”, como chama a artista, se apresentam como vias de acesso o inconsciente, um espaço de mergulho, bem como referente da ausênica ou falta, ou onde, ainda, espaço onde decantam desejos e memórias. Nesse mesmo movimento, a imersão acontece nas águas, elemento de fluxo e transformação, associado ao retorno a estágios anteriores e a uma paisagem real e simbólica que marca sua trajetória. Uma dinâmica que se reflete em seu processo, no qual as composições emergem de espaços abissais até alcançar copas de árvores agitadas pelo vento nas partes altas das ilhas.
Ao aproximar essas imagens, Rayo abre um campo de significações que vai do enigma da falta – aquilo que nunca se preenche totalmente – à possibilidade de recomposição subjetiva. O vazio, como falta constitutiva, encontra na água a promessa de movimento, de dissolução e de regeneração. Essa tensão, inscrita na superfície da tela, articula-se como metáfora do processo psíquico: mergulhar, emergir e reelaborar.
Mais complexidade e ambiguidade surgem nessas imagens quando notamos que esses não se tratam, tampouco, de signos definitivos. Com a cintilância das cores na superfície, os elementos nas composições da artista são sempre mutáveis.
Assim, do interior das cavidades, por vezes, emergem caules, troncos, corpos pulsantes, que revelam ainda outros buracos ou extensões que parecem buscar o encontro com outros seres ou voltam-se a si mesmas. Nesse sentido, ao criar organismos pulsantes, em pleno desabrochar, soprados pelo vento ou movidos pelo devir, as obras da artista adquirem um caráter sensual, não ligado, necessariamente, ao sexo, mas que apontam aos afetos e efeitos de olhar para si e de olhar para a paisagem — no que parece uma elaboração no sentido de desfazer esses limites.
Nas pinturas, a paisagem deixa de ser pano de fundo para se tornar personagem. Rayo cria atmosferas oníricas em que montes, águas profundas e organismos vegetais assumem protagonismo. Nessas fabulações visuais, a lógica do real não se opõe ao imaginário: ambos se interpenetram. O simbólico e o cotidiano coexistem, permitindo que a artista conte histórias que se expandem para além da tela, em continuidade com sua própria vida.
Seus trabalhos podem ser entendidos também como autorretratos indiretos. Cada forma, cada variação de cor traduz estados emocionais que a atravessam. Obras que remetem a criaturas fantásticas ou a monstros de múltiplas cabeças, por exemplo, dão corpo a afetos como raiva, medo ou perplexidade, ao passo que outras revelam delicadezas e momentos de introspecção. É um processo de autoconhecimento em que pintar significa, ao mesmo tempo, se reconhecer e se transformar.
Para Rayana, a prática artística e a vida se entrelaçam. O gesto de pintar se coloca como rito de passagem e registro de experiências: uma forma de marcar simbolicamente sua existência, os espaços em que habita, suas origens, as relações que tece e, ainda, como estes são afetados por uma materialidade geográfica, econômica e social.
Assim, Rayo cria fabulações a partir do que a vida lhe oferece, expandindo acontecimentos, lembranças e afetos na pintura. Ao transformar a tela em território fértil para o imaginário, inventa modos de estar no mundo. Suas imagens não se limitam a representar cenas estritamente imaginárias ou estritamente reais; instauram campos nos quais o espectador é levado por fluxos de experiência e reelaboração similares aos realizados pela artista.