Foto: Filipe Berndt
Casa 7, 1984 — Rodrigo Andrade, Fábio Miguez, Carlito Carvalhosa, Paulo Monteiro e Nuno Ramos
18ª Bienal de São Paulo, curadoria Sheila Leirner, São Paulo, Brasil 1985
Nos momentos finais da Casa 7 e ainda sob uma dinâmica de grupo, o trabalho de Rodrigo Andrade passa por uma guinada em direção à abstração, afastando-se da narrativa e da figura para se aproximar da arte povera e de artistas que investigavam novas materialidades e linguagens — como Joseph Beuys, Richard Serra, Robert Rauschenberg, Jannis Kounellis, Hélio Oiticica e Mira Schendel. Em 1987, realiza sua primeira mostra individual, apresentando obras de médio e grande formato, feitas com óleo e esmalte sintético sobre materiais diversos, como madeira, chumbo, papelão, tecido e borracha. As obras carregam a densidade industrial e o aspecto áspero de sua constituição, ao passo que reforçam o caráter expressivo e dramático da obra de Andrade.
Com a chegada da década de 1990, Rodrigo Andrade inicia um movimento de reaproximação com a figuração. Suas pinturas passam a incorporar elementos narrativos e referências diretas à história da arte. Em determinado momento se volta ao universo sombrio e introspectivo de Oswaldo Goeldi, cujas figuras e atmosferas o artista reelabora com potência pictórica e a espessura da tinta a óleo. Essa fase revela uma atenção renovada à presença das coisas do mundo — transpostas do campo gráfico da gravura para a densidade e o corpo da pintura a óleo.
No fim dos anos 1990 e início dos 2000, Andrade retorna à abstração, agora de modo mais sistemático. Abandona a figura para se dedicar a volumes cromáticos que emergem de um fundo neutro como signos autônomos. Essa economia visual dá origem a uma linguagem própria, em que cor e matéria se tornam presenças quase escultóricas. O artista descreve esse momento como a “descoberta de uma nova forma de pintar”.
Essas aparições, contidas e densas, projetam-se na superfície homogênea como signos enigmáticos e, ao mesmo tempo, corpos cromáticos. De certo modo, é como se os blocos de cor contivessem a informação genética de toda sua obra, como se fossem os elementos mínimos de sua prática pictórica ou a gênesis da qual é possível nascer espaços, objetos, cenas e paisagens.
Essa natureza dos blocos de cor e sua vocação como ferramenta para repensar espaços e a própria história da arte enseja diversas intervenções espaciais, em diferentes contextos, desde instituições como o MAM São Paulo e a Pinacoteca do Estado de São Paulo até uma lanchonete de rua.
Óleo sobre — Pinacoteca do Estado de São Paulo, São Paulo, Brasil, 2010
Óleo sobre — Pinacoteca do Estado de São Paulo, São Paulo, Brasil, 2010
site specific – óleo sobre parede — Lanches Alvorada, São Paulo, Brasil, 2001
site specific – óleo sobre parede — Lanches Alvorada, São Paulo, Brasil, 2001
Paredes da Caixa Intervenção pictórica no Museu da Caixa Cultural, São Paulo, 2006
Paredes da Caixa Intervenção pictórica no Museu da Caixa Cultural, São Paulo, 2006
Paredes da Caixa Intervenção pictórica no Museu da Caixa Cultural, São Paulo, 2006
Paredes da Caixa Intervenção pictórica no Museu da Caixa Cultural, São Paulo, 2006
Óleo sobre parede, Intervenção no SESC Bom Retiro São Paulo, 2011
Óleo sobre parede, Intervenção no SESC Bom Retiro São Paulo, 2011
Óleo sobre parede, Intervenção no SESC Bom Retiro São Paulo, 2011
Projeto Parede, Museu de Arte Moderna de São Paulo, 2000
Projeto Parede, Museu de Arte Moderna de São Paulo, 2000
Projeto Parede, Museu de Arte Moderna de São Paulo, 2000
Na 29ª Bienal de São Paulo — Há sempre um copo de mar para um homem navegar, com curadoria de Moacir dos Anjos e Agnaldo Farias, Andrade traz a série Matéria noturna, que condensa o rigor da pesquisa formal com uma nova força expressiva. Nessas pinturas de grande formato e espessa materialidade, o artista parte de fotografias noturnas para criar pinturas nais quais o negro se projeta sobre a superfície como uma substância viva, dando a ver um interior, recortes de paisagem e duas composições abstratas. Essa camada densa de tinta não apenas descreve a atmosfera como também parece avançar em direção ao espectador, instaurando uma tensão entre luz e opacidade, figura e sombra, matéria e ilusão.
Em Matéria noturna, cada tela oscila entre o reconhecimento e a dissolução da forma, entre o visível e o disforme. O gesto é contido, quase impessoal, mas a presença física da tinta — traço estilístico de Andrade — introduz uma energia latente, capaz de transformar a cena em experiência sensorial e psicológica. A vontade volumétrica e a força gráfica, assim como o entremeio da figuração fantasmagórica e da mancha abstrata, sintetizam — e conciliam — os diferentes vetores de sua obra. O resultado é uma reflexão sobre o próprio ato de pintar, os limites da representação e a nossa percepção sensorial. A apresentação consolida Andrade como um dos nomes mais importantes da pintura contemporânea brasileira.
Matéria Noturna, 29ª Bienal de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil
Matéria Noturna, 29ª Bienal de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil
Matéria Noturna, 29ª Bienal de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil
Matéria Noturna, 29ª Bienal de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil
Ao longo de quarenta anos, Rodrigo Andrade desenvolve uma obra marcada pela transmutação e por uma abordagem experimental, metafísica e metalinguística. A pintura torna-se campo de permanente tensão, em que camadas espessas de tinta se adensam ou se dissolvem, como forças irrefreáveis que desembocam em paisagens, espaços, objetos e grafismos em constante movimento.
Fotografias pessoais, imagens do noticiário, referências da história da arte e pinturas de outros artistas são absorvidas e reformuladas em composições carregadas de densas camadas matéricas e imbuídas de uma dimensão psicológica e emocional.
A mutação é tanto o assunto quanto o método: suas pinturas resultam de um processo em que cada gesto se converte em outro, em que a mancha se torna bloco, o bloco se torna objeto e o objeto vira espaço, sublinhando o mundo como matéria em trânsito. Do mesmo modo, sua prática incorpora o ímpeto de transformação, abrindo-se sempre a novos caminhos e possibilidades existenciais.
Séries como Duas cavernas, que parece representar uma transição entre os “blocos de cor” e a figuração, e as Criaturas ornamentais, nas quais a geometria contida ganha articulação e expressão orgânica, revelam a persistência de um impulso vital: o desejo de descobrir sempre uma nova forma de pintar. Sua obra afirma a pintura como organismo vivo — um espaço em que o mundo e a forma de enxergá-lo continuam a se reinventar.
Em 2017, a Pinacoteca do Estado de São Paulo realiza a mostra de caráter retrospectivo Rodrigo Andrade: Pintura e Matéria (1983-2014), com curadoria de Taisa Palhares. A exposição reúne mais de cem obras produzidas ao longo de três décadas, revelando tanto a amplitude quanto a consistência de uma pesquisa inteiramente dedicada à pintura e seus desdobramentos.
Pintura e Matéria (1983-2014) — Estação Pinacoteca, São Paulo, Brasil, 2017 com curadoria de Taisa Palhares — foto: Edouard Fraipont
Pintura e Matéria (1983-2014) — Estação Pinacoteca, São Paulo, Brasil, 2017 com curadoria de Taisa Palhares — foto: Edouard Fraipont
Pintura e Matéria (1983-2014) — Estação Pinacoteca, São Paulo, Brasil, 2017 com curadoria de Taisa Palhares — foto: Edouard Fraipont
Pintura e Matéria (1983-2014) — Estação Pinacoteca, São Paulo, Brasil, 2017 com curadoria de Taisa Palhares — foto: Edouard Fraipont
Pintura e Matéria (1983-2014) — Estação Pinacoteca, São Paulo, Brasil, 2017 com curadoria de Taisa Palhares — foto: Edouard Fraipont
Em 2022, o artista realiza nova retrospectiva sob o mesmo título, apresentada no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, e na Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre. A mostra amplia o recorte temporal, reafirmando a elasticidade de uma obra em constante mutação, mas que preserva o ânimo de seu traço estilístico.
Pintura e Matéria – Exposição individual com curadoria de Taisa Palhares Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre, Brasil, 2022 Foto: Nilton Santolin
Pintura e Matéria – Exposição individual com curadoria de Taisa Palhares Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre, Brasil, 2022 Foto: Nilton Santolin
Pintura e Matéria – Exposição individual com curadoria de Taisa Palhares Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre, Brasil, 2022 Foto: Nilton Santolin