Desfolharei meus olhos neste escuro véu: 100 anos de Antonio Bandeira - Exposição | Almeida & Dale

Exposições

Desfolharei meus olhos neste escuro véu:
100 anos de Antonio Bandeira

Curadoria: Galciani Neves

Abertura 28 de maio, sábado das 11h às 16h

Antonio Bandeira em seu estúdio. Acervo Arquivo Nacional
Imagem publicada no Correio da Manhã em outubro de 1969

Que tentava fazer pintura e não pintar quadros, que era uma figura que transitava com a mesma disponibilidade por botequins e embaixadas, que Paris revelou o artista cearense para o mundo, que ele se esquivou dos ismos, que sua obra caminhava entre o abstracionismo lírico, informal, tachista... uma lista de narrativas recorrentes cobre a vida e a obra de Antonio Bandeira. E após tantos anos de reflexões que se pautam nessas atribuições a um artista que não está mais entre nós para contar sua versão da história, parece urgente inventar modos como olhamos e convivemos com Bandeira – o pintor que nasceu “num eclipse, daí ser o mais escuro da família (...), de uma cor mistura de lua e sol” (“Meus filhos, guardai-vos dos ídolos”, Antonio Bandeira, 1951).

A mostra “Desfolharei meus olhos neste escuro véu” apresenta cerca de 58 obras de Bandeira: autorretratos negros, paisagens noturnas, árvores pretas, composições escuras, pinturas e gestos em eclipse. Há também a presença da sua intensa e favorita cor azul nas cidades, nas vilas, na superfície “suja” (suja como a Paris que aparecia em suas telas, segundo ele mesmo), nas composições-relatos feitas a partir de suas memórias do Mondubim, do Morro do Moinho, do Tauape e do Mucuripe (bairros de Fortaleza) ou a partir das texturas de corpo que acumulou da pequena e simpática “mansarda” parisiense, do Rio de Janeiro, da Itália, do ir e vir. São pinturas atravessadas pelo vermelho-fogo da paisagem e das cidades em crepúsculo e pelas árvores – seres multicores na poética de Bandeira.

Os gestos que aqui figuram aconteceram desde 1947 e vão se entrecruzando de maneira não cronológica até 1967. Presentificam parte do que o artista formulava sobre a experiência de ver e sobre o que pensava e praticava como pintura – imagens do possível que insistiam no real. E indagar o que é o real é parte desse enigma poético. Nesse sentido, parece elucidativo pensar que Bandeira dedicava-se a fundir certas categorias: existência e experiência do sensível, imaginário e palpável, visível e invisível, onírico e real. Os trabalhos estão dispostos em núcleos constituídos a partir de um olhar sobre algumas questões pictóricas insistentes em seu percurso de experimentação, relacionadas à composição cromática (como a presença intensa de pinturas escuras, nas quais a cor preta predomina), aos títulos das obras (que nos convidam a acessar as pinturas), aos assuntos (paisagens, cidades, árvores), e que ousa encarar um Bandeira de mãos negras.

Na galeria, esses trabalhos se espacializam ao som de uma voz-vento, uma espécie de sussurro que nos leva devagar. O artista João Simões traduz e recontextualiza o texto de Marguerite Duras, presente no vídeo “As mãos negativas” (1979), no qual a artista narra um ser humano, em tempos longínquos, que do alto de uma falésia fita a imensidão do tempo, do oceano e de sua solidão. Aqui, experimentamos uma aproximação de tempos e de registros de gestos no tempo: a mancha preta da mão carimbada no autorretrato de Bandeira (1967) e a mão espalmada na pedra na cor “do azul da água/ do preto do céu”. Imagine, então, que essas mãos possam tecer afinidades: pela ousadia que as registrou em superfícies – na tela e na pedra – e pelo que vamos seguir sem muito saber sobre suas práticas, seus mistérios: afinal, quem foi aquele homem, de olhos grandes a engolir o mundo, enquanto brincava com as palavras para sentir “de que lado corre o vento”?

Galciani Neves, curadora.


Serviço

Desfolharei meus olhos neste escuro véu
100 anos de Antonio Bandeira
Curadoria: Galciani Neves
28.05 a 02.07.2022

BAIXAR RELEASE

Segunda a sexta-feira das 10h às 18h
Sábado das 11h às 16h
Exceto feriados

+55 11 3882 7120
galeria@almeidaedale.com.br

Rua Caconde, 152 – 01425–010
São Paulo – SP